As diferenças entre PT e PSDB, por Roseli Martins Coelho

Por Roseli Martins Coelho*

“Quem quiser ser social-democrata… é bobo”

(livro-entrevista Democracia para Mudar, com Fernando Henrique Cardoso, 1978).

Segundo o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, PT e PSDB são versões da social-democracia e  as diferenças entre os dois partidos são meros detalhes (entrevista ao Estadão, 6-6-2015).  Alguns podem estar surpresos  diante da reivindicação para que seu partido seja reconhecido como primo-irmão do PT, o qual  é considerado por tucanos e seus seguidores como o maior problema do país.  Mas quem acompanha a vida partidária nacional com a devida atenção sabe que o PSDB há tempos sonha com um upgrade que o coloque ideologicamente e socialmente na mesma classe em que está o PT. O que constitui uma das mais interessantes contradições da política brasileira porque,  em diversas ocasiões antes da criação do PSDB, o ex-Presidente manifestou enfaticamente sua reprovação a qualquer tentativa de reproduzir no Brasil uma solução  inspirada nas organizações socialistas européias.  Em entrevista de 1978, para o livro Democracia para mudar,  FHC afirmou que “no Brasil, enquanto não se tiver um movimento de trabalhadores forte, não se tiver sindicatos ativos, nenhum partido propriamente operário, nem burguesia disposta a oferecer cogestão ou codireção para nada, quem quiser ser social-democrata… é bobo”.

A ironia é que passados alguns anos, ignorando as repreensões de FHC, o seu grupo político escolheu exatamente a denominação “social-democrata”  para batizar o partido que nasceu da separação do PMDB. Independentemente de explicações burocráticas nos documentos oficiais, é de se imaginar que os integrantes da agremiação tenham plena consciência de que o PSDB não tem nada a ver com a inserção social e o recorte ideológico  da social-democracia histórica. E pode-se dizer que FHC de fato esqueceu o que escreveu e passou a acreditar que a origem e a atuação de seu partido não constituem impedimento para a exploração da grife “social-democracia”.

Se FHC definiu corretamente – social-democracia é sinônimo de partidos surgidos do movimento social e do sindicalismo independente do Estado – temos que concluir que o PT se encaixa perfeitamente nessa definição. Seja como for, é preciso reconhecer que o ex-Presidente tem suas razões para reivindicar a identificação de seu partido com a social-democracia,  pois trata-se da faixa mais  atrativa e acolhedora  de todo o espectro ideológico. Exatamente porque, como definiu Marx há um século e meio, a social-democracia busca “acabar com os dois extremos, capital e trabalho assalariado, enfraquecer seu antagonismo e transformá-lo em harmonia”.

No entanto, política e metodologicamente, a inserção de um partido num determinado recorte ideológico exige um mínimo de verossimilhança e coerência. O que significa dizer que  a pretensão de FHC esbarra em obstáculos intransponíveis. Convém trazer aqui as considerações de Angelo Penebianco, um dos principais especialistas em partidos políticos da atualidade. Segundo Panebianco, um partido político jamais muda completamente em relação à sua origem, ou melhor, em relação aos seus propósitos originais. O que ocorre, frequentemente, são adaptações de objetivos que foram decisivos no surgimento do partido e não a “substituição dos fins”. O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso participou da fundação de seu partido e sabe que ele foi concebido como uma organização para ocupar a faixa da direita ao centro. E, de fato, ao longo de sua trajetória, o PSDB tem sido coerente com a proposta original que orientou sua criação. Desde a composição com a extrema direita propriamente dita (PFL-DEM) que assegurou as duas vitórias eleitorais tucanas para a Presidência da República, passando pelas privatizações e outras medidas neoliberais (“que realizamos com empenho”, vangloriou-se ele), até o alinhamento incondicional com os Estados Unidos, são todas marcas da metade à direita do arco ideológico-político. Como oposição, o PSDB continua firme em sua linha centrista-direitista, como se pode facilmente depreender de sua defesa da ampliação da terceirização nas relações de trabalho e de diversas outras medidas que estão na atual pauta do Congresso nacional.

Para justificar sua interpretação sobre a proximidade ideológica entre seu partido e o PT, Fernando Henrique Cardoso afirma enxergar uma irresistível vocação democrática  no PSDB, o que  qualificaria a agremiação tucana como social-democrata, e neutralizaria a indiscutível identificação do partido de Lula com a inclusão social.

Independetemente do colorido democrático do PSDB, porém,  cabe  registrar que o PT tem demonstrado  adesão irrepreensivel à democracia, como, aliás,  raramente se viu  na História brasileira. Basta lembrar que Lula, apesar da alta aprovação popular,   não empreendeu movimentação para mudar regras constitucionais com o objetivo de disputar uma segunda reeleição, e que o partido não reage com virulência  a manifestações hostis, de pessoas e grupos sociais,  e a ataques cotidianos da mídia tradicional.

Para não ficar apenas como “wishful thinking”, a frase de FHC sobre a proximidade ideológica com o PT poderia ser  entendida como um exemplo de “incentivo de identidade”. Ou seja,  como uma declaração que lideranças partidárias devem fazer frequentemente com o objetivo de elevar a moral de membros, simpatizantes e eleitores.  Ao melhorar a disposição de todos em torno do partido,  os “incentivos de identidade” acabam, supostamente, por ampliar chances de sucesso eleitoral nas disputas eleitorais seguintes. A ver, como dizem os espanhóis.

*Roseli Martins Coelho é cientista política com doutorado em Filosofia Política e professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase nos seguintes temas: representação política, democracia, estado e desenvolvimento, vida intelectual e ideologia, direitos de cidadania, desigualdade social, políticas públicas.

10 comentários

  1. É isso que muitos já

    É isso que muitos já comentaram.

    O PSDB, lá atrás, achou que podia cooptar os sindicatos e “liderar” a socialdemocracia “à” brasileiira. Talvez até pudesse em 89, com Covas, quando os movimentos sociais estavam bastante mmobilizados desde a Constituinte. Brizola também enxergou isso quando propôs que Lula e ele retirassem a candidatura para que Covas fosse para o segundo turno com Collor. Uma posição sem dúvida mais sensata do que a aventura irresponsável que estava na cara que viria ser Collor.

    Já naquele momento o antipetismo tivera uma importante vitória.

    Com a guinada do PSDB para a direita neoliberal numa jogada de oportunismo político e dissimulação ideológica incomparável (tudo o que acusam no PT, como sempre) isso ficou impossível de vez.

    A gota dágua para os níveis de ressentimento atuais foi acompanhar o governo de um operário ser muito, mas muitissimo melhor do que a mediocridade que foi o deles.

    Da condescendência passaram à hostilidade aberta, embora neguem que tenham feito, passada a trégua inicial dos primeiros dias do governo Lula, uma oposição raivosa ao último ponto.

    E o motivo mais uma vez se apresentou explicito na última campanha, quando não propuseram nada e se limiitavam a dizer que iriam “melhorar” as políticas públicas.

    Como se fossem muito capazes.

    E o pessoal do PT ainda ouviu calado ao ongo de todoos esses anos tantas e tantas acusações de serem “arrogantes”… Perderam!

    • O que Brizola enxergou em 1989

      a proposta de renúncia/retirada das candidaturas para levar Covas ao segundo turno não foi motivada apenas pelas então frágeis pesquisas, mas porque o velho Brizola sabia que: 

      1) Collor era uma aventura a ser evitada a todo custo, ele pensava sobretudo no Brasil;

      2) Foi testemunha de 1954 e 1964, sabia com toda nitidez que tudo iria se repetir, as forças contrárias iriam todas se unir de forma avassaladora contra o Lula, principalmente a mídia que o gaúcho tão bem conhecia. O Briza já tinha visto o mesmo filme duas vezes, e assistiu pela terceira vez. No momento atual, em cartaz “Vale a pena ver de novo”. 

      • Perfeito, Fernando.
        Brizola
        Perfeito, Fernando.
        Brizola tinha visão. A mesma coisa quando mais adiante aceitou ser vice na chapa com o Lula.
        É interessante lembrar a campanha antibrizola nas eleições de 89 que dizia que ele tinha “sede de poder” (até o Lula caiu nessa). Qualquer um que não é do clube do poder é taxado de penetra invejoso, que tem sede ou um malévolo “projeto de poder”.
        O próprio FHC só selou seu pacto com a casa grande quando baixou o pau nos petroleiros descumprindo um acordo firmado no governo Itamar. Ali eu deu prova de lealdade à cavalaria.

      • Qual seria a vantagem do Covas ganhar em 1989?

        Ele sempre foi uma fraude como FHC. Ele que começou a roubalheira do metro paulista. Foi o filho dele que “ganhou” a concorrência para instalação da linha de fibra óptica nas estradas de SP. Olha o que apronta o filho dele atualmente. Foi Covas que iniciou este sistema de privatização das rodovias paulistas e os altos pedágios. Trocar Collor por Covas seria dar mais forças ainda ao PSDB e sua politica neoliberal. Provavelmente a Petrobras, o Banco do Brasil, Caixa e BNDS nem existiram da forma como conheçemos hoje se Covas tivesse ganhado em 1989.  

    • Muito bom seu

      Muito bom seu comentario.

      Realmente a ala conservadora do PSDB tomou conta do partido e se tornou o maior cabo eleitoral do PT.

  2. macunaímicas

    Bem mais disse Maluf, e com bem menos palavrório:

    “O PT me trata com mais respeito do que outros partidos. Antes, poderia haver alguma divergência ideológica. Hoje, não tem mais. O PT gosta de mim.”

    Tudo mais é prosa acadêmica, capaz de fazer qualquer ruminante cair no sono.

    Ai!que preguiça…Como dizia Macunaíma.

    “(…)e que o partido não reage com virulência  a manifestações hostis, de pessoas e grupos sociais,  e a ataques cotidianos da mídia tradicional.”

    Fala sério, Roseli!

    O PT não reage contra nada…

    … Fica só na esperança lulomalandra de fazer jogo com tudo.

    “um partido político jamais muda completamente em relação à sua origem, ou melhor, em relação aos seus propósitos originais”

    O propósito original de um partido é chegar ao poder. Depois, fica por conta do pessoal do marketing manter o apelo eleitoral da marca.

    “Roseli Martins Coelho é cientista política com doutorado em Filosofia Política(…)”

    Se o artigo é exemplo de Ciência Política, prefiro ficar com o Curandeirismo.

  3. Comparação sem comparação

    O FHC continua ganhando espaço para que falem dele, isso sim é incrivel…

    Apesar de concordar discordando, não vejo nada de novo no horizonte. PT e PSDB são o eixo da democracia quando estão juntos ao centro. O primeiro retirando da esquerda sua pauta revolucionaria e dando a ela a roupagem social democrata, que bem serve ao capitalismo em determinados contextos para desenvolver a economia e empliar a riqueza (pós guerra na Europa e recentemente no Brasil). O segundo, deveria retirar da direita seu apetite conservador garantindo-lhe concentração de riqueza em meio ao estado democratico de direito a quem tem dinheiro. Ao que parece, o PSDB não consegue cumprir seu papel e a balança pende ao conservadorismo… 

    Onde não há comparação é na origem, ai sim, a comparação é sem comparação…

    Forte abraço! 

  4. O que falta é um bom partido de direita.

    Digno do nome. Até o Nassif já postou isso aqui. Grandes partidos e nanicos se acotovelam de um lado só.

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