Relembre: Banco Central independente de quem?, por André Motta Araújo

Na hoje longa história do Banco Central do Brasil há dois períodos: de 1966 a 1994 o BC esteve a serviço do desenvolvimento econômico do Brasil, de 1994 até hoje está a serviço do MERCADO FINANCEIRO.

Publicado originalmente em 07/03/2018 e relembrado em 24/01/2019

Banco Central independente de quem?

por André Motta Araújo

Fui testemunha presencial da fundação do Banco Central em 1966 por iniciativa de Roberto Campos. Eu era então funcionário do Banco do Brasil e quase todos meus colegas foram para o BC. Só não fui porque já tinha outro projeto em andamento. Conheci e fui amigo da turma pioneira do BC de Denio Nogueira, a primeira leva de funcionários veio toda do Banco do Brasil.

Esse “mantra” de Banco Central independente vem da mesma vala comum dos economistas neoliberais “de cartilha”, que não têm o mínimo conhecimento histórico do tema. NUNCA existiu um banco central POLITICAMENTE independente do Estado, no mundo real a história é outra.

Qual Estado digno desse nome abre mão do poder de comandar a economia? Ah, dirão os Tecos da vida, nos EUA o FED é independente da Casa Branca.

ERRADO. No meu pesado (quase um quilo) livro de 900 páginas MOEDA E PROSPERIDADE, Editora Top Books, trato em longos capítulos dos episódios da demissão “na marra” de dois Chairmen do Fed, Eugene Mayer em 1933 por Franklin Roosevelt e, em 1952, Thomas Mc Abe pelo Presidente Dwight Eisenhower. Ambos NÃO eram afinados com a política econômica do Presidente dos EUA. Sou amigo da neta de Eugene Meyer, Lally Weymouth, editora senior do jornal The Washington Post. Meyer foi depois o primeiro presidente do Banco Mundial, Roosevelt o demitiu porque ele não queria emitir moeda em grande escala para o New Deal, programa para enfrentar a Grande Depressão e o desemprego de 25%. Conheço os bastidores complexos dessa estória. Meyer era poderoso mas Roosevelt mandou ele desocupar a cadeira em uma hora e foi obedecido, ou seria possível Meyer enfrentar o popular Presidente dos Estados Unidos?

Mas como assim, o Fed não é independente? É LENDA! O poder POLITICO do Presidente dos EUA vale 100, o do Chaiman do Fed vale 1 ou será que tem alguma lógica um burocrata sem NENHUM voto desafiar um Presidente da Nação com milhões de votos? ISSO NÃO EXISTE! O Poder Politico simplesmente NÃO PODE SER AFRONTADO por um burocrata sem votos. O Presidente dos Estados Unidos pede para o Chairman do Fed renunciar, o sujeito vai encarar? Vai ficar isolado do Governo? Claro que não. Então essa LENDA é teórica, para coxinhas da CBN, na vida política real não existe.

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Nos EUA o mandato do Chairman do Fed é DUPLO, assegurar estabilidade monetária e PLENO EMPREGO. Aqui querem a independência só com ESTABILIDADE MONETÁRIA, o que é MUITO FÁCIL, basta jogar a economia numa recessão, com alto desemprego, ninguém tem dinheiro, a inflação acaba.

Na hoje longa história do Banco Central do Brasil há dois períodos: de 1966 a 1994 o BC esteve a serviço do desenvolvimento econômico do Brasil, de 1994 até hoje está a serviço do MERCADO FINANCEIRO. Hoje basicamente do Banco Itau, que arrendou o Banco Central como satélite do conglomerado.

É bem verdade que nos governos do PT o Banco Bradesco tinha poder superior ao Itaú na regência do BC, são coisas da política e da simpatia.

Quando se fala HOJE em independência do Banco Central está se falando exatamente do quê?

TODOS os dirigentes do Banco Central a partir de 1994 vêm do MERCADO FINANCEIRO ou da Universidade e DEPOIS vão para o MERCADO FINANCEIRO com o cacife de ter sido Diretor do BC. A partir dai viraram MULTIMILIONÁRIOS ou BILIONÁRIOS, manipulando a conexão Banco Central. Estão ai Armínio Fraga que vendeu sua Gavea Investimentos para a J.P. Morgan (dizem por US$700 milhões), Gustavo Franco que vendeu sua Rio Bravo para chineses (dizem por US$200 milhões), Luis Fernando Figueiredo criou sua Maua Investimentos. Todos ficaram podres de ricos e formam a “curriola” do Banco Central, que domina o BC intelectualmente e pelas suas conexões na mídia e no mercado financeiro internacional, lembrando que no caso americano do FED os sete diretores com mandatos de sete anos NÃO TEM CONEXÃO com o mercado financeiro, são economistas ACADÊMICOS sem empregos em bancos. Não precisa de lei, É REGRA ESCRITA porque é inconcebível quem tem poder sobre a moeda ser antes ou depois BENEFICIÁRIO dessa posição para enriquecer.

QUE INDEPENDÊNCIA MAIS QUEREM? São donos NA PRÁTICA DO BC, mas querem ser donos de papel passado, com escritura e a obtusa, ignorante, idiota MÍDIA ECONÔMICA compra essa trapaça e vende ao público como uma grande vantagem para o PAÍS. É uma grande TACADA, a independência de papel passado significa entregar o Banco Central às raposas e águias do mercado financeiro. O que ganha o Pais com isso?

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NENHUM ESTADO QUE SE PREZE ABRE MÃO DE PODER E MUITO MENOS PODER SOBRE SUA MOEDA.

Aos direitistas, perguntem ao Presidente Trump o que ele acha de banco central independente. Cuidado para para não receberem um pontapé bem dado.

Andre Araujo

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6 comentários

  1. Mentiras como essa de “BC independente” prosperam porque a nossa mídia não é independente do sistema financeiro. Ao contrário: é beneficiária ou corrompida pelo sistema financeiro.
    E a mídia tem sucesso na propagação dessa mentira, porque a maioria dos brasileiros é ignorante e tem preguiça de refletir autonomamente.

  2. Por que será que a Mirian Leitão não convida o André Araújo para uma entrevista na Globo cujo tema seja “Independência do BC” ?
    Por que o André não pode compartilhar o seu conhecimento com milhões de brasileiros ?

    • Ora, Marcos, veja quem foram os convidados do “entre aspas” (Mônica Valdvogel) de ontem, na Globonews: O Sr. Figueiredo, citado acima pelo André e um outro, ainda mais radical, cujo nome não me ocorre. O tema: O Desenvolvimento do Brasil… por que demora? rsrsrs

      O André outros da ‘família’ independente, nem a pau serão lembrados!

  3. Caro André Araújo, permita-me reproduzir parte de um artigo do Financial Times de outubro/2018, no qual o articulista dá um panorama da independência do FED, em um contraste com o seu texto. É impressionante como existem cabeças de planilha mundo afora, até no EUA os presidentes ficam refém dessa falácia de independência dos bancos centrais. Abaixo, link e trecho do artigo:

    https://www.ft.com/content/ee31c77c-d086-11e8-9a3c-5d5eac8f1ab4

    Save to myFT
    Stuart Eizenstat OCTOBER 16, 2018 Print this page25
    Donald Trump’s increasingly ferocious attacks on the Federal Reserve and its chairman, Jay Powell, contrast sharply with the respect with which recent US presidents have regarded the independence of its central bank. In his characteristically harsh personal attacks, the current president far exceeds the pressure to lower rates put on the Fed by his predecessors, Lyndon B. Johnson and Richard Nixon.

    Jimmy Carter and his clear-eyed, arm’s-length relationship with Paul Volcker at the Fed helm is the clearest model of presidential restraint, albeit one that Mr Trump is unlikely to emulate. At a time of soaring inflation, I served at President Carter’s side while Mr Volcker did exactly what he warned he would do if offered the job: tighten the money supply and impose the punishingly high interest rates that the president’s own economists had rejected as political poison. The chairman’s resolute monetary management ended a decade of runaway inflation even as it helped torpedo Mr Carter’s re-election in 1980.

    No American president wants higher interest rates — even though they may stabilise the economy. To this I can testify from my experience on the White House staff under Johnson and Mr Carter, and later as deputy treasury secretary in Bill Clinton’s administration.

  4. Caro André Araújo, mais uma pérola do cabeça de planilha contratado do Financial Times:

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    https://www.ft.com/content/ee31c77c-d086-11e8-9a3c-5d5eac8f1ab4

    Not once during the heated 1980 presidential campaign, with Ronald Reagan railing against double-digit interest rates, did Mr Carter blame Mr Volcker. They worked, but not in time to help Mr Carter’s drive for re-election. The low inflation of the Reagan era, still enjoyed by the US today, rests on the foundation Mr Volcker laid, without political interference, in the most difficult political circumstances. Mr Trump, enjoying a much more benign economic environment, should follow suit.

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