Conselheiro de Dilma fala em ‘lobby do setor financeiro’ e é contra alta da Selic

A declaração desta terça-feira da presidente Dilma sobre a taxa básica de juros mexeu não só com o humor do mercado, como também com os representantes do Banco Central. Análise publicada pelo jornal Folha de São Paulo, a partir de entrevista com conselheiro do governo, sinaliza que o aumento da interferência política sobre a condução da economia começa a afetar o humor dos responsáveis pela decisão da taxa básica de juros. A afirmação da fonte a respeito da pressão do mercado para um ajuste também confirma a visão de que um avanço imediato pode ser mais favorável aos rentistas do que ao setor produtivo.
Outros detalhes a respeito da questão podem ser acompanhados no texto abaixo.

Conselheiro de Dilma fala em ‘lobby do setor financeiro’ e é contra alta da Selic

VALDO CRUZ

SHEILA D’AMORIM

DE BRASÍLIA

Apesar de a presidente Dilma sinalizar a possibilidade de um aumento “menor” na taxa de juros na reunião desta quarta-feira (17) do Copom (Comitê de Política Monetária), seus conselheiros mais próximos dentro do governo seguem contrários à alta da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira.

Segundo um destes conselheiros, “há um forte lobby do setor financeiro, que estava acostumado a ganhar dinheiro fácil, para que a taxa de juros volte a subir”.

Na opinião deste ministro, com acesso direto ao gabinete presidencial, o BC (Banco Central) deveria esperar mais um pouco antes de decidir se eleva ou não a Selic.

Apesar de a inflação ter estourado o teto da meta de 6,5% em março –a variação acumulada do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 12 meses bateu em 6,59%–, ele argumenta que ela está em queda e deve seguir neste ritmo em abril e maio e o ritmo de crescimento ainda moderado da economia desaconselha um aperto monetário.

Assessores presidenciais avaliam, porém, que há uma forte tendência de o Copom anunciar hoje um aumento dos juros. Atualmente, a Selic está em 7,25% ao ano, menor patamar da história.

Segundo esses assessores, a senha de que um aumento está próximo foi dada não só pela presidente, mas também pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) e pelo presidente do BC, Alexandre Tombini.

Nos últimos dias, os três fizeram comentários de que o governo não vai tolerar inflação alta e que vai atacá-la “sistematicamente” e Mantega fez questão de dizer que expectativas negativas sobre os rumos da inflação podem ser combatidas com a taxa de juros.

TENSÃO NO GOVERNO

Em Brasília, assessores da área econômica classificam a reunião de hoje como a mais tensa dos últimos anos e com um nível de ruído e de debate público sobre o tema, vindo do próprio governo, que não era visto nas gestões anteriores.
Esse debate incomoda o Banco Central porque acaba arranhando a credibilidade da instituição em alguns momentos, prejudicando seu trabalho de tentar conduzir as expectativas dos agentes econômicos em torno dos rumos da inflação.
Técnicos do BC ouvidos pela Folha comentaram que o ideal seria que ninguém do governo, inclusive a presidente, fizesse comentários sobre taxa de juros nos dias de reunião do Copom.
Eles ressalvaram, porém, que o teor das declarações da presidente ontem em Belo Horizonte não chegaram a ser ruins, pois ela sinalizou que um aumento dos juros pode acontecer –mas em um “patamar menor” do que no passado recente.
O BC fez questão de informar que a diretoria do banco não fez reparos nem críticas às declarações da presidente no primeiro dia do Copom.
AUTONOMIA DO BC
O tamanho do aperto monetário também é motivo de preocupação no governo. O Palácio do Planalto gostaria que o BC esperasse mais um pouco para decidir se sobe ou não os juros. Diante das sinalizações de que o aperto começará hoje, espera que a alta seja de apenas 0,25 ponto percentual.
No mercado, cresceram as apostas de que o aumento pode ser de 0,50 ponto percentual, exatamente para que o BC sinalize estar no comando do processo e não seguindo determinações vindas do Planalto.
O último dia de reunião do Copom começa hoje à tarde e a decisão deve ser divulgada apenas à noite.
Dentro do BC, a reunião é classificada como a mais tensa da atual gestão –principalmente porque a cúpula do banco enfrenta um desgaste interno no governo, que arranhou sua credibilidade perante o mercado financeiro.
Sem credibilidade, o BC dificilmente conseguirá conduzir uma política monetária que garanta um recuo consistente da inflação.
No mercado, ninguém mais acredita que o BC conseguirá levar a taxa oficial de inflação para o centro da meta, de 4,5%, até o final do mandato da presidente Dilma. A expectativa é que o IPCA fique entre 5,6% e 5,7% neste ano e um pouco acima de 5% em 2014, ano da próxima eleição presidencial.
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