Inflação e Reajustes Salariais, por André Roncaglia

Imagem: Reprodução/Internet 

do Barômetro 

Inflação e Reajustes Salariais

por André Roncaglia

Dando continuidade à controvérsia sobre inflação e desemprego em 2017 que levantei anteriormente, a FIPE publicou recentemente os dados das variações salariais em 2017. Reforço meu argumento anterior: ainda que os alimentos tenham ditado a intensidade da desinflação recente dos preços, não se pode negar a importância da queda dos salários reais via aumento do desemprego. Senão, vejamos.

Política Monetária e Desemprego

Entre abril de 2013 e final de outubro de 2016, a taxa de juros básica da economia quase dobrou (da casa dos 7% a 14,25%). Trata-se de 3 anos e meio de inibição sistemática da atividade numa economia que já conta com um dos ambientes de negócio menos amigáveis da face da Terra.

Ainda que a principal causa da inflação tenha sido uma pressão de custos (correção dos preços administrados e taxa de câmbio), a recessão tem o efeito de evitar o contágio de preços maiores sobre os salários (os chamados efeitos de segunda ordem).

 

Fonte: Banco Central do Brasil

Sem qualquer pretensão de rigor acadêmico, plotei os dados de taxa de juros mensal média cobrada de pessoas jurídicas (defasada em 12 meses) e a taxa de desocupação. A taxa de juros mede o custo financeiro da operação das empresas e foi defasada para contemplar a duração de contratos financeiros de curto prazo.

“A trajetória se inicia no quadrado azul (2013) na parte de baixo do gráfico e termina no círculo vermelho no canto direito superior (dez/2017). Quanto maior for o custo financeiro de operação da empresa, menor será o ritmo de atividade das empresas e, portanto, maior tende a ser o desemprego.”

O efeito de um longo período de altas taxas de juros é a recessão que mina o poder de barganha dos trabalhadores. Esta conexão pode ser visualizada nos indicadores do mercado de trabalho.

Leia também:  O mercado de trabalho e a economia brasileira, por Rodrigo Medeiros

Desemprego e Reajustes Salariais

Segundo o levantamento, em 2015 e 2016, aumentou bastante o número de categorias que tiveram reajuste abaixo da inflação (segmentos mais claros das barras), fruto das elevadas taxas de inflação nos dois anos. Nestes anos, a inflação superou o poder de barganha dos trabalhadores.

Em 2017, no entanto, 80% das categorias pesquisadas com reajustes reais, isto é, os salários cresceram mais do que a inflação (reportagem aqui).

“É preciso se aprofundar nas causas deste resultado específico, mas o efeito predominante parece ser, na minha opinião, resultado mecânico da queda abrupta da inflação medida pelo IPCA de 10,67% e 6,29% (2015 e 2016) para 2,95% em 2017.”

Queda do poder de barganha dos trabalhadores

Basta ver, na tabela abaixo, o resumo das negociações coletivas, também levantadas pela FIPE. Nota-se o reduzido poder de barganha dos trabalhadores entre dezembro de 2016 e novembro de 2017, quando o número de reajustes salariais cresce 17%, mas a mediana dos reajustes cai em 16%. Além disso, na variação entre os meses de dezembro de 2016 e 2017, cai em 84% o número de casos de negociação salarial.

 
 
Fonte: FIPE – Salariômetro

É indiscutível que conforme a economia deixar a recessão para trás, os salários tendem a crescer, como se nota na elevação de 25% na mediana dos tetos de reajuste entre novembro e dezembro de 2017.

Contudo, chama a atenção (mas não surpreende) o monumental efeito da reforma trabalhista sobre o mercado de trabalho, observando-se a queda de 86% no número de casos de reajuste salarial apenas em dezembro de 2017, o que explica mais de 100% da variação anual do indicador.

Leia também:  O mercado de trabalho e a economia brasileira, por Rodrigo Medeiros

Efeitos de Longo Prazo

Ainda não é perfeitamente clara para mim a relação entre a recessão prolongada, a sistemática redução do poder de barganha dos trabalhadores e a reforma trabalhista que agrava este último.

É preciso ir além da Economia para entender esta mudança estrutural no mercado de trabalho. Mesmo assim, parece-me evidente que, sem a recessão anterior, não teria sido possível controlar os salários como foi feito entre 2014 e 2017. E sem este controle, a inflação dificilmente teria caído para mínimas históricas.

Porém, o efeito colateral desta terapia agressiva contra a inflação se dá sobre o potencial produtivo da mão de obra. O desemprego continuado ocasiona perda de competências da parte dos trabalhadores. Estes devem, em consequência, procurar empregos desalinhados com seu conhecimento e sua experiência profissional e, em geral, ocupações de qualidade inferior.

A tabela a seguir é apenas um indício do efeito da recessão e da reforma trabalhista sobre o poder de barganha dos trabalhadores sem organização coletiva, em que a queda de salário registrada foi de 21%, entre 2016 e 2017.

No longo prazo, a possível queda da produtividade média do trabalho pode levar a um teto mais baixo para a taxa de crescimento sem inflação. Isto é, a economia sobre-aquece muito rapidamente, abreviando as expansões e limitando o horizonte do desenvolvimento da economia.

*

André Roncaglia de Carvalho é professor de Economia da Escola Paulista de Economia, Política e Negócios da UNIFESP e Doutor em Economia do Desenvolvimento pelo IPE-USP, bacharel e mestre em Economia pela PUC-SP. Foi também Professor de Economia da FECAP, Mackenzie e dos cursos de MBA da FGV. Interessado em metodologia, história das ideias econômicas, desenvolvimento econômico, bem como temas macroeconômicos e monetários, tais como inflação, crises financeiras e ciclos econômicos.

 

1 comentário

  1. Para a Miriam Leitão, os reajustes são a causa da inflação

    De acordo com a Miriam Leitão, não são os reajustes salariais que são efeitos da inflação mas o inverso:

    Miriam Leitão (Bom Dia Brasil): “O programa do P-SOL, seu partido, defende a reposição salarial mensal da inflação. A inflação foi sempre um fantasma que perseguiu os brasileiros durante 40 anos, e essa reposição, nós já vimos, é um processo inflacionário. A senhora não defende a estabilidade da moeda?”

    Heloísa Helena: “Claro que eu defendo a estabilidade da moeda. Óbvio. Nós nos comprometemos, inclusive, com a meta da inflação. Eu acho que é muito importante recolocar algumas coisas em relação ao programa de partido e ao programa de governo. Infelizmente, no Brasil, se entende como natural, banalizado até, que uma estrutura partidária, seja ética, seja uma gangue partidária, ela tome para si a apropriação do aparelho de Estado de tal forma que o programa do governo, o programa do partido vira programa de governo. Não é isso. Agora, é importante recolocar o debate sobre a inflação. Eu tenho dito várias vezes que é impossível que haja, isoladamente no Brasil, um surto inflacionário. E não haverá.”

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