A farsa neoliberal do falso esgotamento dos clássicos, por Álvaro Miranda

Essa ideologia transformou-se no atual ultraliberalismo de governos fascistóides e de um novo tipo de meritocracia de uma classe média arrogante

Dentre as muitas farsas disseminadas pelo neoliberalismo, uma das mais deletérias para grandes parcelas de gerações nascidas a partir das décadas de 1980 e 1990 foi o desapreço pelos clássicos da economia política, das artes e da literatura, para não falar da história em geral. Desapreço que operou e continua operando pela negação baseada num falso esgotamento teórico de grandes autores e obras – ou através de sua apropriação e transmutação para finalidades de mercado.

Para além do econômico, o neoliberalismo transformou-se numa espécie de cosmovisão de mundo, com virulência de novo messianismo ou doença, incidindo em diferentes dimensões da vida social e cultural com seus amavios sorridentes e intelectualizados de pós-modernismo. Para mim permanece a incógnita ainda se a pandemia do Covid-19 provocará ou não sua fadiga em futuro próximo.

Essa ideologia transformou-se no atual ultraliberalismo de governos fascistóides e de um novo tipo de meritocracia de uma classe média arrogante que embarcou na deriva de ilusões ultramarinas de modernização.

Entretanto, contraditoriamente ou não, o novo pode embutir também a pior espécie de clássicos e tradições. Depois do individualismo metodológico calcado na visão da salada utilitarista do século XIX, temperada ao gosto de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, a escória teórica foi crescendo no pós-guerra, culminando num suspeitíssimo Francis Fukuyama em meio aos ventos soprados pelo reaganismo-thatcherismo do new public management e do public choise. Seu azeite apodrecido, rejeitado pelo próprio Reino Unido, acabou extravasando no Brasil, durante os anos 1990, na forma do Consenso de Washington.

Como se sabe, essa expressão “consenso” resultou de um seminário realizado em 1989 na capital estaduninense, com a participação de brasileiros, como o ex-ministro Simonsen, para discutir soluções para a crise fiscal e a dívida dos países da América Latina. Soluções, uma ova, na verdade. O receituário imposto aos países do continente, que o sudeste asiático não aceitou na época, acabou travando o desenvolvimento da região, que procurou reagir, já no final nos anos 1990 e na década seguinte, com a eleição do que certo intelectualismo neoliberal chama de governos populistas, como Hugo Chaves, Lula, Evo Morales e outros.

Não é meu objetivo aqui discutir o que deu certo ou errado nesses governos, a partir dos anos 2000, muitos deles continuando uma linha neoliberal que – se foi ou não com remendos e paliativos, sem promover mudanças estruturais – pelo menos empreenderam políticas públicas importantes. Dentre muitas, tiraram da miséria e da pobreza contingente gigantesco de famílias, incentivando com isso maior participação em diferentes arenas da vida e, mais ainda, preservando e ampliando a democracia, ainda que nos moldes formais da sociedade burguesa.

Uma das lições dos resultados desses governos é a crítica segundo a qual teria se esgotado o modelo de mudanças nas relações sociais baseadas no consumo – e não na produção. Crítica que, junto com a eloquência dos fatos presentes, nos fornece elementos para pensarmos ser impossível um projeto de país sem industrialização, bem como sem criação de novas capacidades estatais, transferência de tecnologias, preservação de recursos nacionais estratégicos e incentivo para à educação visando à criatividade da sociedade sem tutelas de rendas mínimas. E isso, como mostram diferentes experiências mundo afora, sendo possível somente com a coordenação e apoio do estado.

De qualquer modo, mesmo que nos moldes formais burgueses, quanto mais se amplia a democracia, mais ela constitui ambiente de conquistas e avanços nas diversas áreas do convívio social. Quem não viveu os anos de chumbo da ditadura civil-militar de (1964-1984) está podendo sentir o odor e a densidade da névoa de incógnitas, com seus perdigotos de vitupério – o quão tem sido irrespirável o ar numa democracia ameaçada ou que vai se desmantelando dia a dia. Essa falta de ar, agravada pela pandemia do novo Coronavírus, cresce com a “pandemia de imbecis”, segundo frase que circula no whatsApp atribuída ao ator argentino Ricardo Darín.

De fato, o obscurantismo não foi baixado por decreto, na década de 1990, sendo um vírus inerente à própria forma de ser capitalista. Sendo ela mesma, condensada no fetiche da mercadoria, a forma da sociedade de mercado, onde tudo, os seres humanos e seu tempo são transformados em mercadorias. Assim, as pessoas não precisam de cuidados maiores de saúde, educação e cultura, para além do churrasco do fim de semana, a igreja de um pastor duvidoso e o mínimo de subsistência para dormir toda noite e acordar no dia seguinte a fim de poder continuar produzindo mercadorias.

Para ficar mais próximo dos ponteiros do breve século XX de Eric Hobsbawm, diria que esse vírus, em termos comportamentais, religiosos e culturais, já fora detectado nas primeiras décadas que antecederam o nazismo, o fascismo, a bomba atômica e as grandes guerras mundiais por romances como a trilogia “Os sonâmbulos”, de Hermann Broch, ou “O homem sem qualidades”, de Robert Musil. Os títulos são bastante sugestivos, dispensando comentários, ficando aqui como sugestão de leitura.

Assim também, pensando principalmente naqueles que nasceram nas décadas de 1980 e 1990, mas também nas seguintes, faz-se necessário um amplo e mais profundo retrovisor em perspectiva. Isso, para compreendermos quão pueris tornam-se determinadas bandeiras do chamado multiculturalismo, com suas vertentes identitárias e de gênero. Ferozes e barulhentas, essas bandeiras caem no vazio ou chovem no molhado comparadas às ideias e ao pensamento dos grandes clássicos da história, da ciência política e da economia, que, aliás, podem até serem fruídos de forma interpenetrada aos clássicos da literatura e do teatro, seja na prosa ou na poesia – que o digam os apreciadores de Shakespeare e Goethe.

Não que as causas identitárias e de grupos discriminados historicamente não sejam importantes. Óbvio que são importantes e necessárias. A questão é como elas têm sido apropriadas pelo inimigo. Como elas contrariam o verso de Caetano Veloso, segundo o qual “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Como elas têm sido utilizadas e até transformadas para usufruto daqueles estrategicamente posicionados para tentar neutralizar grandes narrativas. Como elas têm incentivado a crença de que não existiriam mais classes sociais e lutas de classes, mas sim diferenças entre grupos, crenças e individualidades a serem sacralizadas como garantidoras de um heroísmo demiúrgico.

Para qualquer compreensão das razões pelas quais o obscurantismo estrutural da sociedade acabou criando e disseminando modismos de crenças, comportamentos e visões ilusórias de mundo, o melhor método tem sido sempre a história, como nos ensinam Karl Marx e Friedrich Engels em diferentes escritos.

Estes clássicos, evidentemente, não podem deixar de ser mencionados e sempre devem ser reiterados, tais como o Manifesto Comunista e a principal obra – O Capital –, passando pelos Escritos econômicos-filosóficos, Miséria da Filosofia, Gründrisse, Ideologia Alemã, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e outros menores em tamanho, mas não menos importantes. Eles são cruciais por fornecerem luzes para compreendermos os nexos entre política, economia, cultura e religião, vale dizer, sobre como a divisão social do trabalho não faz parte de uma natureza humana abstrata, imutável e eterna, mas sim constituindo elemento do desenvolvimento do metabolismo do ser humano com a natureza.

Esse metabolismo não se resume a problemas de uma ecologia vaga ou irresponsabilidade predatória. Mas tem a ver com o trabalho e a produção de artefatos, o próprio desenvolvimento tecnológico, que transforma o ambiente, metabolismo esse sendo determinado por contradições e conflitos de classes sociais na especificidade histórica de cada formação social.

A questão não é de meritocracia de indivíduos ou de pessoas contra pessoas, ou de tribos contra tribos, mas sim de classes sociais detentoras ou não de recursos, no caso os meios de produção – e poder ou não poder (político, econômico e cultural) para determinar, de maneira hegemônica, como deve ser a forma social do nosso convívio, determinar como os indivíduos devem estar posicionados e como eles devem se enxergar a si mesmos e uns aos outros. E isso vale para conflitos internos dentro de um país e entre países e regiões. São complexos contraditórios inseridos em contradições de complexos maiores.

Sem falar da literatura marxista produzida ao longo do século XX por grandes nomes como Rosa Luxemburgo, Louis Althusser e György Lukács, este último com sua portentosa obra intitulada Para uma ontologia do ser social, que aprofunda os problemas do trabalho e da alienação como parte do metabolismo do ser humano com a natureza.

Além destes, uma plêiade de outros autores marxistas contemporâneos, de diversos continentes, vêm produzindo trabalhos, ao longo do século XX, nas áreas da ciência política, economia, cultura e literatura, além da psicanálise e das artes em geral, mostrando que o marxismo não é uma teoria “econômica” “do século XIX”. Mas sim um arsenal científico e metodológico que se renova com as próprias transformações do mundo contemporâneo, cujas crises atuais confirmam os métodos e diagnósticos elaborados por Marx e Engels naquele século.

O aparente exibicionismo enciclopédico do escriba destas linhas reflete não um saber a mais e aprofundado, mas sim a própria ignorância e uma necessidade. Tenho lido muitos deles simultaneamente para refletir não só sobre políticas públicas, objeto do meu mestrado (2009) e doutorado (2013) e agora dentro de pesquisas sobre a formação e as transformações do estado ocidental. Mas sim sobre a nossa vida cotidiana destroçada e o que poderá vir pela frente. Debruçando-me sobre essas obras, constato mais uma vez o quanto preciso ler mais ainda, aprender, estudar, rever e voltar ao passado. Constato, já numa quadra madura da vida, que permaneceu viva em mim uma utopia nascida nos tempos de adolescente, espécie de “estrela da manhã” que falava André Breton com seu surrealismo marxista.

Trata-se da estrela da insubmissão, a verdadeira disposição criadora de luz nova, mesmo que o futuro seja devastação e escombro. Mesmo que eu não esteja aqui para ver. Luz nova e não os modismos frenéticos e fugazes de um falso presente perpétuo, sem passado e sem esperança de futuro. Modismos do desastre assumido como alegria de livre movimento de uberismos, empreendedorismos e “empresas de si” daqueles que identificam, ilusória e religiosamente, liberdade com privatismo dos salve-se quem puder de uma suposta e inexistente natureza competitiva do ser humano.

A partir da segunda guerra mundial, mediante pretextos diversos e exagerados, forças profundas do capital transformaram ideologias de segurança e da defesa em religião de permanente ataque. Isso, na maioria das vezes, contra quem está indefeso – oferecendo, assim, apenas uma alternativa a quem quer que seja: morrer ou contra-atacar.

Se a queda do Muro de Berlim acabou se convertendo em ícone dos ilusionistas e prestidigitadores da hipocrisia neoliberal, encerro essas linhas dizendo que a força de certas tradições contém a centelha de iluminar a queda das barreiras impostas pelo obscurantismo, muitas vezes travestido de inovação. Muitas vezes obscurantismo nascido de outras velhas tradições. Obscurantismo do frágil novo que se renova de forma enganosa (e enganadora) para permanecer tudo como antes – patinação e constante adiamento das crises daquilo que a história vem mostrando ser irremediável desde o século XIX.

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