A invisibilização da África na cobertura da mídia brasileira

A experiência dos países africanos no combate a epidemias não pode ser menosprezada. Nações da África Central enfrentaram o ebola. Na África Austral foram formadas gerações de especialistas em Aids

Por Ivana Barreto

No Observatório da Imprensa

Não foi à toa que no dia 30 de abril a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), juntamente com a Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira), veio a público repudiar o comportamento racista e excludente da imprensa, que via de regra deixa de divulgar informações pertinentes sobre a África, assim como não evidencia, com poucas exceções, o recorte racial das consequências da COVID-19 no Brasil.

No tocante à atuação da mídia brasileira sobre o impacto da pandemia no continente africano — objeto da reflexão aqui proposta —, a grande maioria dos veículos tem adotado uma atitude que minimiza e até mesmo desconsidera a realidade da África, onde atualmente vivem mais de 1 bilhão e 200 mil pessoas. O continente, vale lembrar, tem 54 países, cada um deles com realidades distintas, muitas delas marcadas pela fome e falta de estrutura básica de saneamento. Por outro lado, a experiência dos países africanos no combate a epidemias igualmente não pode ser menosprezada. Nações da África Central, assim como Serra Leoa e Nigéria, enfrentaram o ebola. Além disso, na África Austral foram formadas gerações de especialistas em Aids.

Sim, existe uma escolha deliberada que determina aquilo que vai ou não ser publicado na mídia hegemônica internacional e, no que interessa especificamente a essa reflexão, na imprensa brasileira. Sim, existe uma atitude excludente e racista em relação às consequências da pandemia nos países africanos. É fato. No conteúdo produzido pelas mídias televisivas, radiofônicas, impressas e digitais, percebemos nitidamente um olhar eurocêntrico e racista.

Esse texto se volta para a discussão sobre a forma como a mídia, no Brasil, decide — contaminada por uma visão eurocêntrica — aquilo que vai ser alvo da sua atenção quando o tema é a África e a pandemia Covid-19. Nessa decisão, fica nítida uma opção que deixa de lado a investigação contextualizada sobre os efeitos da pandemia em terras africanas. Afinal, recorrentemente a África ‌é representada pela mídia a partir de aspectos como epidemias, migração e guerras civis. E, nesse contexto, menos atenção é dispensada aos seus fatos políticos e econômicos, assim como às suas conquistas referentes às pesquisas na área de saúde.

Projeto Humanidades

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Nesse cenário de exclusão, é fundamental que os alunos dos cursos de jornalismo desenvolvam a capacidade de analisar e refletir a cobertura midiática, especialmente em situações extremas, como é a pandemia Covid-19. A partir desse entendimento, que representa um dos pilares do Curso de Jornalismo da UFRRJ, um grupo de alunos, através do Projeto Humanidades: comunicação integrada multimídia voltada à visibilização da área de humanas na UFRRJ, desenvolveu a matéria Por uma descolonização do jornalismo. O texto, resultado de dois meses e meio de pesquisa e apuração (de 14 de fevereiro a 30 de abril), foi publicado na editoria “Observatório da Mídia” do Portal Humanidades. Este espaço, importa destacar, foi criado com a proposta de refletir sobre os critérios adotados pela mídia hegemônica brasileira em relação aos fatos que acontecem no Brasil e no mundo. O tema escolhido foi a cobertura da pandemia no continente africano. Para tanto, foram analisados: Globo.com, G1UOL e Folha de S.Paulo.

Aqui elegemos, no levantamento que resultou no texto, o estudo da cobertura da Covid-19 pelo G1, portal de notícias do Grupo Globo. A análise, realizada nos meses de fevereiro e março, revelou o olhar do Portal permeado pela influência eurocêntrica. A maioria das matérias com menções à África trouxe somente o total de casos por país, sem aprofundamento. Em outras palavras, resumos diários nos quais a China e o continente europeu receberam destaque. Em abril, os Estados Unidos foram incluídos pelo G1, de forma mais contundente, na pauta sobre a Covid-19 depois que Nova York se tornou o epicentro da pandemia. Cumpre destacar ainda que o Portal majoritariamente reproduziu matérias de agências internacionais. Assim, apesar de algumas delas terem apresentado fontes como a União Africana, a grande maioria se restringiu a comentários da OMS, revelando abordagens praticamente sem reflexão.

Além do pouco aprofundamento, o G1 apresentou erros de cobertura. Como o da matéria ‘’Coronavírus: por que não houve casos confirmados na América Latina?’’, veiculada no dia 15 de fevereiro, que afirmou a inexistência de casos no continente africano, quando, na verdade, o primeiro já havia sido confirmado e noticiado pelo próprio Portal.

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No conjunto das matérias do G1, algumas refletiram de forma mais acentuada a reprodução do olhar colonizador sobre a África. Um exemplo é ‘’Escassez de produtos frescos deve afetar Europa em meio a paralisações por coronavírus’’, reproduzida da Reuters. O texto explica como o fechamento das fronteiras de países exportadores de produtos frescos da África poderá afetar o abastecimento do continente europeu. Mesmo tendo incluído o pronunciamento de Okisegere Ojepat, presidente-executivo do Consórcio de Produtos Frescos do Quênia, seu enfoque se voltou muito mais para o futuro da Europa, no lugar de uma leitura sobre a economia dos países exportadores ou seus trabalhadores. A matéria, enfim, refletiu o interesse de um leitor europeu, não de um brasileiro.

Contudo, cabe uma ressalva. O Portal não somente cometeu equívocos na cobertura. A título de exemplificação, destacamos o texto ‘’Contra coronavírus, África do Sul põe exército para reforçar isolamento e criminaliza disseminação de informações falsas’’, que ofereceu ao leitor um amplo panorama dos contextos econômico e social do País. O veículo igualmente acertou quando incorporou fotos, vídeos e podcasts ao texto. Já a publicação ‘’35% dos países da África têm mortes por Covid-19” trouxe as considerações do ganhador do Nobel da Paz Denis Mukwege, do Congo.

Como resultado da análise feita pelo grupo responsável pela elaboração de ” Por uma descolonização do jornalismo”, verificou-se que a mídia brasileira, salvo raras exceções, reproduziu os conteúdos das agências internacionais (europeias e estadunidenses), mesmo havendo interesse dos brasileiros por informações da pandemia na África. Fato que pode ser comprovado na interpretação dos dados da plataforma “Google Trends”, ferramenta utilizada para acompanhar a evolução do número de buscas por uma determinada palavra-chave ao longo de um período. Com relação ao termo “Coronavírus África”, nos últimos 12 meses,  o Brasil ocupou a terceira posição em comparação aos outros países no que diz respeito à popularidade de busca/ interesse por esse termo. A busca foi realizada no dia 7 de maio, quando da edição do texto, e atesta que o interesse dos brasileiros pela pandemia no continente africano, verificado durante a pesquisa, nos meses de março e abril, continuou no início de maio.

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Reflexões

A pandemia Covid-19 traz reflexões urgentes sobre o mundo em que vivemos e a forma como as narrativas são construídas. Por sua vez, a análise de veículos relevantes no contexto da mídia digital brasileira, como o G1, indica que o problema não é apenas a falta de notícias contextualizadas sobre o continente africano. O entrave para uma cobertura justa está na própria visão dos jornalistas, que influencia o modo como os textos são elaborados. Na construção das narrativas, são incorporados preconceitos de toda ordem. Não é diferente na elaboração dos relatos sobre a África.

Convém lembrar que a relação entre o Ocidente e a África é permeada por reducionismos e afirmações preconceituosas. E, nesse caso, o Brasil ainda se comporta como colônia.

Por fim, entendendo o processo ensino-aprendizagem enquanto percurso de emancipação política e de ação capaz de transformar a realidade, como entendia Paulo Freire, fica aqui o agradecimento aos alunos responsáveis pela pesquisa e redação do texto sobre a cobertura da pandemia nos países africanos. Também fica o desejo de que, como futuros jornalistas, possam colaborar para a transformação das diferentes realidades.

***

Ivana Barreto é jornalista, doutora em Literatura Brasileira (PUC-Rio) e professora da UFRRJ. O texto Por uma descolonização do jornalismo  – de autoria dos alunos Jasmine Mendonça, Lucas de Andrade,  Thallys Braga, Luiz Eugênio de Castro e Pedro Henrique Cabo – foi publicado no Portal Humanidades, projeto de extensão, criado em 2016, produzido por docentes  e discentes do Curso de Jornalismo.

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2 comentários

  1. A relação Ocidente – África embute o mesmo padrão de sempre, que, aliás recorta todo o arranjo social, político e económico herdado do colonialismo. O racismo estrutura tudo, o dia a dia, o conteúdo académico, mentalidades. O observatório Humanidades é uma necessidade geral. LBM.

  2. Acusa nossa mídia, tudo bem, vou acreditar que a Européia. Estaduniense e Asiática, dedicam muito mais espaço.

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