A organização política dos movimentos sociais

Coluna Econômica

São inevitáveis os paralelos entre o Brasil, de hoje, e o processo que no século 19 transformou os Estados Unidos na maior economia do planeta.

Primeiro, a criação de uma base econômica moderna, convivendo com um setor excluído da economia. Depois, a pressão do lado moderno para ampliar o mercado de consumo.

Quando se chega nesse estágio, há maiores facilidades políticas para a implementação de políticas de inclusão social. Esse movimento inclui milhões de pessoas não apenas no mercado de consumo, mas no mercado político.

Há um conflito inicial, com os setores já incluídos. Passada essa etapa, há um salto na política graças a um enorme movimento de organização social.

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OBraO Brasil está em pleno processo dessa explosão da organização social.

Há organizações histórias, como as irmandades religiosas, as Igrejas, clubes sociais tipo Rotary e Lyons, as Santas Casas de Misericórdia, Associações Comerciais, federações de indústrias.

Agora a organização social se espraia sobre novos setores da economia.

Recentemente os economistas Ricardo Abramovay, Reginaldo Magalhães** e Mônica Schroder prepararam um paper sobre as organizações brasileiras de agricultura familiar. O trabalho analisou a experiência da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF) e do sistema Cresol, de Crédito Solidário, conjunto de cooperativas sindicais.

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O trabalho constata que na Europa esse tipo de abordagem territorial, em torno de associações, tem sido elemento relevante para políticas de inovação tecnológica.

Enquanto sindicatos têm uma abordagem mais setorial, organizações sociais territorializadas tendem a ampliar os laços com outros agentes locais, como universidades, sindicados, sociedade civil organizada.

Segundo o trabalho, quanto mais os grupos ganhem acesso às instituições políticas, mais a política institucionalizada substituirá o protesto, como ferramenta de participação política.

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Jorge Castañeda define como “explosão das bases” esse aumento da participação de organizações populares na tomada de decisão em relação ao uso de recursos públicos. Mas, segundo o trabalho, ainda há dúvidas se esse tipo de organização poderia estimular os dois favores essenciais de desenvolvimento local: a aprendizagem e a inovação.

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O ponto central reside na chamada “governança” – a capacidade de cada movimento permitir a participação de todos e a prestação de contas. Aí entra o estudo das diferenças entre a FETRAF e o sistema Cresol, sistema cooperativo com mais de 70 mil sócios.

Segundo o trabalho, o sindicalismo da FETRAF permite avanços mas restringe-se ao atendimento de demandas dos segmentos profissionais que ela representa. Já as cooperativas de crédito – oriundas das Comunidades Eclesiais de Base, assim como a FETRAF – trabalham em cima da inovação e da aprendizagem.

Nos próximos anos haverá a gradativa inclusão de todos os movimentos sociais ao jogo político. Será a graduação final da democracia brasileira. 

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