A queda de Obama

Segue uma tradução ao português do artigo de Alexander Cockburn publicado na “Counterpunch” do fim-de-semana (16-18 de julho).

De quebra, vai a antológica cena mencionada no artigo: Marlene Dietrich e Orson Welles, n'”A Marca da Maldade”.

A Queda de Obama

Por Alexander Cockburn

O homem que assumiu a Casa Branca, fomentando um clima de expectativa irracional, está tendo de pagar agora o preço amargo exigido pela realidade. E a realidade é que não pode haver um presidente americano “bom”. É um jogo que não se pode jogar. Barack Obama está quase acabado.

O primeiro presidente negro do país prometeu mudanças no momento preciso em que nenhum homem, mesmo que fosse dotado dos poderes de comunicação de um Franklin Roosevelt, a maestria política de um Lyndon Johnson ou a despudorada habilidade de um Bill Clinton, teria condições de reverter o curso dos últimos 30 anos, e que tem levado a América ao desastre.

Neste verão, muitos americanos estão assustados. Mais de 100 mil deles entram em falência pessoal a cada mês. Três milhões de habitações serão retomadas pelos bancos neste ano, somando-se aos 2,8 milhões de casas que foram retomadas em 2009, primeiro ano de Obama no cargo. Quase sete milhões ficaram sem emprego, no ano passado, por seis meses ou mais. Se considerarmos as pessoas que desistiram de procurar trabalho e os empregados em meio-expediente, o total se aproxima de 20 milhões.

As pessoas com medo tornam-se irracionais. Assim como os racistas. Obama é alvo de acusações estapafúrdias. Grande parte dos americanos acredita que ele é um socialista – uma acusação tão ridícula quanto dizer que o arcebispo da Cantuária é na verdade um druida em disfarce. Obama reverencia o capitalismo. Ele admira os predadores de Wall Street, que financiaram sua campanha com milhões de dólares. A terrível catástrofe no Golfo do México resultou diretamente da luz verde que ele e seu secretário do Interior, Ken Salazar, deram à BP.

Não é culpa de Obama que a política da América nos últimos 30 anos – quer sob Reagan, Bush ou Bill Clinton – tenha sido a exportação permanente de empregos para o Terceiro Mundo. Os empregos que os americanos agora procuram desesperadamente não estão mais neste país, e nunca mais estarão. Os empregos estão na China, Taiwan, Vietnã, Índia, Indonésia. Nenhum programa de estímulo, dando dinheiro a empreiteiras para tapar buracos ao longo das rodovias federais, irá trazer os empregos de volta. Trabalhadores altamente qualificados e treinados – a aristocracia do setor manufatureiro – estão fritando hambúrgueres, na melhor das hipóteses, a US$ 7,50 por hora, porque as empresas mandaram seus empregos para Guangzhou, com a aprovação dos políticos irrigados pelo dinheiro do lobby do “livre comércio”. Do mesmo modo, não é culpa de Obama que, durante os últimos 30 anos, tanto dinheiro tenha fluído para o topo da pirâmide social que a América, hoje, se pareça mais e mais com o que era em 1880 – uma nação de miseráveis e milionários. Não é sua culpa que toda redução de impostos, todas as novas leis e todas as decisões judiciais se inclinem na direção das empresas e dos ricos. Esta é a América neoliberal, conjurada com maligna vitalidade em meados dos anos 1970.

Mas é, sim, culpa de Obama de que ele não queira entender isso; que ele tenha sempre, desde o início, adulado os norte-americanos com cânticos de grandeza, sem adverti-los da destruição que a política e a corrupção corporativa estão causando na América e da resistência que teria de enfrentar caso realmente desejasse lutar contra a prevalência do estado de coisas que hoje corrói o país. Ele ofereceu-lhes uma passagem livre e fácil para um futuro melhor, e agora eles vêem que esta era uma promessa vazia.

A culpa é de Obama, também, por não saber, sendo um comunicador, inspirar o povo a recuperar-se dos seus temores. Desde os seus primeiros anos, ele foi educado para não ser emotivo, não ser mais um negro raivoso – o que seria alarmante para os seus amigos brancos de Harvard e para os patrões que depois o empregariam. O autocontrole foi o seu passaporte para os guardiões do sistema, que estavam desesperados para encontrar uma liderança simbólica para restaurar a credibilidade dos EUA no mundo, depois do desastre da era Bush. Ele é frio demais.

Assim, cada vez mais, os cidadãos americanos vêm perdendo a confiança nele. Pela primeira vez nas pesquisas, as avaliações negativas superam as positivas. Ele já não tem mais o domínio da confiança. Sua popularidade já vai abaixo de 40%. O cavalheirismo que lhe permitiu bajular os presidentes das empresas e os operários ao mesmo tempo se parece agora, simplesmente, com o oportunismo mais insípido. A eventual promessa de campanha de acabar com a al-Qaeda, no Afeganistão, está agora a ser paga com uma guerra desastrosa, vista com espanto pela maioria dos americanos.

As pesquisas anunciam o desastre. Aparentemente, tudo indica que os republicanos podem muito bem recuperar não só a Câmara, mas também o Senado. O estado de espírito do eleitorado é tão ruim que, apesar de as pesquisas mostrarem que os eleitores pensam que os democratas podem ter melhores soluções para a economia do que os republicanos, eles vão votar contra os atuais parlamentares democratas nas eleições do próximo outono. Eles apenas querem tirar os vagabundos.

Obama tem procurado Bill Clinton para assessorá-lo nesta hora desesperadora. Se Clinton usar de franqueza, lembrará a Obama que suas próprias esperanças de um primeiro mandato progressista foram por água abaixo com o fracasso de sua proposta de reforma da saúde na primavera de 1993. Em agosto daquele ano, Clinton teve de importar um republicano, David Gergen, para gerir a Casa Branca.

Obama teve a sua janela de oportunidade no ano passado, quando ele poderia ter estabelecido a criação de empregos e a reforma financeira como seus objetivos principais. Isso é o que os americanos esperavam. Em vez disso, hipnotizado pelas criaturas dos bancos que nomeou como assessores econômicos, ele mergulhou no mar de sargaços da “reforma da saúde”, desperdiçando nisso a maior parte do ano, e acabou por fazer aprovar algo que não agrada a ninguém.

O que pode Obama salvar agora? É difícil até mesmo identificar um fio de esperança a que ele se possa agarrar. A esta altura do campeonato, pode ser muito cedo para se afirmar isso, mas, como Marlene Dietrich disse a Orson Welles n’”A Marca da Maldade”, “o seu futuro já foi todo usado”.

 


 

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