A vertigem do “mais natural dos regimes”

Por José Costa Júnior 

Em Observatório da Imprensa

1. Uma vertigem

O filósofo holandês Bento Espinosa dissecou a natureza da democracia em seu Tratado Político-Teológico, obra publicada anonimamente em 1670 e identificada por um resenhista da época como “um livro forjado no inferno”. Ali defendeu que a democracia é o “mais natural dos regimes”: “Se preferi falar do estado democrático, em vez de falar de outros, é porque me parece o mais natural e o que mais se aproxima da liberdade que a natureza reconhece a cada um”. Para Espinosa, a democracia seria o mais adequado dos regimes políticos, uma vez que possibilita que o indivíduo seja, ao mesmo tempo, legislador, governante e súdito, expressando seus desejos e vontades, sempre regulado pela letra da lei, que o impede de ultrapassar outras vontades ou a própria coletividade das vontades. Dessa forma, a democracia atenderia aos anseios humanos para efetivar a própria existência a partir de uma regulação mínima que permitiria a vida em comunidade, outro anseio natural. Junto a isso, a democracia afasta a dominação, o controle e a submissão pautadas na força, abrindo possibilidades para o reconhecimento da liberdade e da igualdade entre os membros de uma comunidade.

De maneira geral, Democracia em vertigem (Brasil, 2019), documentário da cineasta brasileira Petra Costa, indicado ao Oscar, dialoga com Espinosa e também aborda a natureza da democracia e sua efetivação ou não no Brasil. Pautando-se em acontecimentos políticos nacionais das últimas décadas, o filme mostra as dificuldades e tensões das tentativas de realização da organização democrática no Brasil, destacando as expectativas e as frustrações envolvidas nessa empreitada – situações que definem a “vertigem” do título. A diretora, produtora e narradora do filme aproxima a sua própria história de vida da história do país na segunda metade do século XX, mostrando um cruzamento de conflitos que, de um modo ou de outro, se mantém até hoje. Num país marcado por uma longa história de autoritarismos e tendências mandatárias, a implementação de uma democracia estável e funcional envolve mudanças sociais e políticas grandiosas, que parecem não acontecer da noite para o dia (se é que podem acontecer em terras brasileiras).

A narrativa de Costa começa apontando as expectativas sobre um novo governo, no início do século XXI. Numa postura mais conciliatória do que outrora e defendendo a inclusão social num país historicamente marcado por diversas formas de desigualdade, a popularidade do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) chega a níveis altíssimos na primeira década. Contando com um cenário global favorável, implementa mudanças e realizações reconhecidas na vida de muitos brasileiros e brasileiras. No entanto, as expectativas caem drasticamente quando esse governo é acusado e condenado por práticas ilícitas na condução do país. Junto a isso, as condições econômicas já não se mostravam favoráveis, o que diminuiu ainda mais as possibilidades do partido. Na visão do documentário, o PT acabou por negar todas as expectativas e realizações ao se aproximar de práticas e circunstâncias que sempre pautaram a política brasileira, o que, num contexto economicamente desfavorável, acabou por minar seu governo. Atacado por um discurso cada vez mais crítico e violento, motivado pelas oligarquias tradicionais que sempre estiveram à frente do país (e que sempre manifestaram sua força quando contrariadas), o PT acabou sendo removido do governo por um impeachment e perdendo as eleições de 2018, além de ter seu principal líder preso.

Em paralelo a tais acontecimentos políticos, a sociedade brasileira ficou polarizada em visões sobre o governo petista. Desde 2013, protestos e manifestações ocuparam as ruas do país, elevando os níveis de tensão social e política, que chegaram ao ápice nas eleições de 2018. Em tais circunstâncias, as insatisfações cresceram, contagiando cada vez mais pessoas e contribuindo para a eleição de uma nova proposta de governo para o Brasil, agora do Partido Social Liberal. Essa nova proposta envolve um discurso socialmente mais duro e menos aberto, que enaltece a força de um governo em nome da segurança e da moralidade, buscando atender à considerável parcela da população brasileira que se mostrava insatisfeita. Episódios e discursos extremos passam a ser comuns no cenário político do Brasil, numa situação de desconforto institucional e desconfiança social (o documentário acompanha a construção de um simbólico muro que separa manifestantes na capital federal). As respostas políticas de ambos os lados da polarização parecem não entender os anseios dos variados setores da população, ampliando ainda mais o clima de tensão. O documentário descreve a falta de esperança de muitos, em paralelo às grandes expectativas de outros na nova proposta de governo, separados por muros e sem zonas de contato para diálogo e construções coletivas.

Obra bem realizada, com imagens muito bem colocadas, retrata bastidores e diálogos importantes para compreender o difícil cenário político atual do país. A humanização de figuras envolvidas no debate nos ajuda a entender as dificuldades de construção da democracia e do diálogo, mostrando as mágoas, as alegrias, os desejos e as satisfações dos atores políticos envolvidos. Ao olhar para o passado, mostra possibilidades para explicar as tensões da política brasileira na atualidade, sempre destacando o papel das elites sociais e econômicas nesse processo. No entanto, a vertiginosa viagem aos meandros da democracia brasileira proposta por Petra Costa contextualiza pouco em relação aos acontecimentos mundiais e globais, que poderiam contribuir para explicar o atual estado de coisas na política nacional. Isso não impacta seu grande valor informativo e artístico. Porém, algumas análises mais gerais, desenvolvidas a partir de pontos de vista variados, também podem lançar luz sobre alguns pontos, juntamente com aqueles lançados pelo documentário. Talvez, a partir disso, possamos entender um pouco mais as dificuldades atuais do “mais natural dos regimes” pelo mundo afora (e não apenas por essas bandas).

2. Uma crise da democracia?

Um passo inicial que pode ajudar a compreender as circunstâncias atuais da democracia brasileira em complemento ao documentário de Petra Costa é um diagnóstico desenvolvido pelo cientista político americano Larry Diamond, ainda em 2008. Em seu livro The spirit of democracy: The struggle to build free societies throughout the world, Diamond identifica uma surpreendente tendência em algumas estruturas políticas do fim do século XX e começo do XXI: uma diminuição da valorização e da efetividade de estados democráticos pelo mundo. A pesquisa foi baseada em relatórios da Freedom House, organização dedicada a observar a democracia no mundo, e aponta que, conforme as circunstâncias econômicas sofrem alterações intensas, surgem riscos para os estados democráticos. A pesquisa surpreende, uma vez que, após as décadas de tensões ideológicas do pós-guerra, esperava-se uma estabilidade maior dos estados democráticos que surgiram na esteira da globalização. Haveria, assim, a possibilidade de uma “recessão democrática” no mundo, conforme as tensões econômicas e políticas próprias de um mundo globalizado se avolumassem. O caso brasileiro pode ilustrar bem o cenário proposto por Diamond: dificuldades políticas e econômicas impactam a efetividade de um estado democrático, que acaba por seguir caminhos questionáveis do ponto de vista da legitimidade política. Um exemplo disso, como o documentário de Costa aborda, é o impeachment sofrido por uma presidente democraticamente eleita, que já não possuía apoio e apelo junto a parcelas consideráveis da população. Mesmo muito questionado do ponto de vista institucional, o processo foi efetivado.

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Um diagnóstico próximo aponta para um acontecimento decisivo da primeira década do século XXI: a crise econômica de 2008. Segundo o historiador Adam Tooze, em Crashed: How a decade of financial crises changed the world (2018), depois dessa violenta crise financeira mundial, “nada mais foi como antes” – inclusive a política. O colapso financeiro oriundo da crise de crédito nos Estados Unidos fez com que a crise dos mercados impactasse a vida das pessoas num mundo de intensa conexão econômica. Dificuldades sociais se ampliaram, expectativas de crescimento não se cumpriram e políticas de austeridade foram propostas e efetivadas. Tais circunstâncias levaram ao surgimento de ressentimentos e reações, juntamente com questionamentos acerca dos papéis das elites políticas e econômicas. No caso brasileiro, conforme o documentário aponta, a crise econômica de 2008 demorou um pouco mais para mostrar seus efeitos. Mas, a partir do momento em que as dificuldades econômicas trouxeram consequências para a vida das pessoas, os questionamentos e críticas também surgiram. Os recursos oriundos das negociações brasileiras com outras economias diminuíram, impactando as possibilidades dos gestores políticos de então. Empregos, rendas e planejamentos foram abalados e as respostas governamentais foram questionáveis para muitos, ampliando ainda mais o grave quadro social que se montava. Além de uma crise social, passou-se a aproximar o governo de uma crise econômica, com grande impacto social.

Recuando um pouco mais no tempo, ainda na década de 1990, o cientista político indiano Fareed Zakaria já apontava para o risco de enfrentamentos violentos em democracias instáveis, principalmente naquelas que se formavam na esteira do fim da Guerra Fria. Num artigo publicado na prestigiada revista Foreign Affairs, em 1997, intitulado “The rise of illiberal democracy”, Zakaria destaca que as tensões e conflitos de sociedades ainda pouco organizadas politicamente poderiam levar a dificuldades de implementação de uma democracia funcional. Assim, um risco de opressão e desconsideração poderia surgir dentro do próprio processo político, criando “democracias iliberais”. Conforme o argumento de Petra Costa em Democracia em vertigem, as dificuldades da sociedade brasileira em lidar com um passado autoritário, firmado durante anos de uma ditadura civil-militar que manteve boa parte dos mesmos atores políticos e institucionais no poder, levaram a tensões e dificuldades na efetivação de uma democracia estável no Brasil, principalmente em relação às gritantes diferenças de acesso aos recursos e ao poder. Essa dificuldade de reconhecimento de igualdade e cidadania, também observada por Zakaria, seria a base dos conflitos surgidos nos últimos dez anos no Brasil.

O vocabulário utilizado por parte da ciência política contemporânea usa uma terminologia que busca captar tais tensões políticas, sociais e econômicas: estaríamos em meio a uma “crise da democracia”. Acontecimentos globalmente decisivos levariam a alterações nos cenários políticos de todo o mundo, principalmente em relação à confiança na efetividade das democracias em trazer estabilidade para que as pessoas organizem suas vidas. Em um trecho do documentário de Petra Costa, um entrevistado faz referência aos “tempos da ditadura”, onde havia “segurança” e “amor à pátria”. A proximidade a tendências e ideias militaristas do partido do presidente eleito em 2018, juntamente ao fato de o mesmo ser um capitão reformado do Exército brasileiro, cujo vice é um general, podem ser indícios de tais insatisfações e inseguranças. Num mundo inseguro, aberto a crises e recessões, onde a democracia já não atende às demandas das pessoas, entregar o poder a líderes que dizem oferecer ordem e estabilidade parece ser uma atitude perigosamente compreensível. “O mais natural dos regimes” estaria em risco?

3. Populismos e “democraturas”

Outro termo comum nas análises das condições democráticas da atualidade é populismo. Esse conceito envolve o uso político de uma mensagem atraente para as diferentes classes sociais e faixas etárias. Com discursos simples, porém estabilizadores, que oferecem respostas fáceis para problemas difíceis, as práticas populistas levam ao desprezo pela complexidade das questões políticas da atualidade, incluindo a retomada de um “passado glorioso”. Com a ampliação das possibilidades de interação social digital, tais discursos, que envolvem coragem, virilidade e potência, chegam cada vez mais perto das pessoas e suas inseguranças. Seu principal objetivo é o “povo”, uma categoria sociológica pouco definida, mas que remete à unidade com bastante eficácia. Na análise do cientista político Jan-Werner Muller, em What is populism? (2017), trata-se de “uma entidade moral, homogênea, que não pode errar”. Nesse sentido, o “povo”, devidamente arregimentado por um líder contra as “elites” políticas e econômicas, seria capaz de encontrar as próprias respostas e organizar seu próprio destino. No caso brasileiro, as estratégias identificadas como populistas, com discursos messiânicos, poderiam ser encontrados em todos os espectros políticos. No entanto, conforme podemos observar no documentário analisado, encontram um eco maior e mais eficaz em circunstâncias onde as pessoas tradicionalmente tiveram pouca participação nos processos políticos (no caso, uma democracia jovem, pouco inclusiva e com acesso limitado a informação e educação).

Nesse ponto, é relevante buscar entender o papel da disseminação da informação no atual momento de tensão democrática, uma vez que a já referida ampliação digital das possibilidades de acesso e distribuição de informação também impacta a estrutura e o funcionamento dos processos políticos. Informações falsas ou inexatas, chegando diretamente e sem filtros às pessoas através de seus smartphones, impactam suas análises e escolhas, definindo suas posições de maneira direta. Aqui, encontramos fenômenos identificados como pós-verdade ou fake news, em que as informações podem ser politicamente manipuladas ou construídas com o objetivo de angariar apoio e votos. No entanto, conforme o argumento da pesquisadora britânica Claire Wardle, estamos inseridos em um contexto de “desordem informacional”, onde já não possuímos confiança nas fontes de informações tradicionais, porém também não sabemos em quem acreditar nos novos cenários de intensa conexão e redes sociais. Num relatório para o Conselho Europeu desenvolvido em 2017, Wardle e equipe fazem referência à contaminação das informações em tempos em que todos podem construir e disseminar informações, que levaria a um cenário de desordem. Nesse contexto, discursos populistas, que falam diretamente às inseguranças e tensões das pessoas, através de propostas simples, mas sem embasamentos, podem ser abraçadas com muita facilidade. Não é estranho que, nos protestos brasileiros de 2013 para cá, são onipresentes de todos os lados caminhões de som, gritos de guerra e grandes bonecos.

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Temos, aqui, um cenário em que as emoções e humores são sempre convocados, gerando e ampliando discursos intensos e polarizados – e nem sempre preocupados com expectativas de verdade. Viveríamos atualmente naquilo que o economista britânico William Davies descreve como “estados nervosos”: circunstâncias políticas emocionalmente carregadas, pouco abertas a debates e distantes dos ideais iluministas de uso da razão na política para estabilizar e organizar a vida das pessoas. Em tais condições, o debate e a construção política racional perdem espaço para posicionamentos extremos, que encontram eco nas diversas bolhas produzidas nas redes sociais. Líderes políticos captam e medem sua popularidade nos espaços virtuais, utilizando tais recursos para a produção de políticas públicas imediatistas e pouco estruturadas. A última eleição no Brasil foi um exemplo da análise de Davies: vimos o surgimento das bolhas nas redes sociais, nas quais os indivíduos perdem contato com outros posicionamentos para além do seu. Essa situação inviabiliza o debate democrático – bem exemplificado no documentário pelo muro que dividia os protestos em Brasília ou na expulsão de pessoas que vestiam vermelho num protesto onde a maioria utilizava verde e amarelo.

Que tipo de democracia poderíamos obter em tais “estados nervosos”? Um termo utilizado pelo escritor brasileiro Dias Gomes, em sua obra da década de 1970 intitulada O bem amado, capta a mescla de tensões e necessidades institucionais de organizar a política democrática em nossos tempos. O anti-herói da história, o prefeito Odorico Paraguaçu, governa a fictícia cidade de Sucupira, um microcosmo da política brasileira da época. Aliado dos poderosos, Odorico é um demagogo que faz uso de um discurso de difícil compreensão para as pessoas mais simples, manipulando a cidade e o processo político a seu gosto. Em um discurso sobre seus objetivos para a cidade, Paraguaçu aponta que seu objetivo é a construção de uma “democratura”, uma situação democrática, porém com as seguranças de uma ditadura. O gracejo paradoxal tem sido um termo recorrente nas análises sobre as tensões democráticas de nosso tempo, onde governantes podem ser eleitos através de processos questionáveis, pautados por discursos extremos e populistas. A antropóloga brasileira Lilia Moritz Schwarcz retoma o conceito (como “democradura”) em seu livro Sobre o autoritarismo brasileiro (2019), utilizando-o para explicar a “vigência de governos que combinam de maneira perversa a regra democrática com a prática populista e autoritária”.

Tensões, medos, crises, ausência de expectativas, “democraturas”. Conforme vimos, as análises políticas contemporâneas são carregadas de termos críticos. Não se trata de uma coincidência, de acordo com a filósofa americana Martha Nussbaum. Numa análise das divisões e polarizações políticas do mundo atual (porém fazendo mais referências ao contexto americano dos últimos três anos), Nussbaum argumenta que podemos observar retóricas de ruptura, com emoções negativas cada vez mais afloradas, onde as pessoas “já não possuem controle pleno de suas vidas” e “temem umas às outras”. Nesse contexto, Nussbaum acredita que vivemos numa “monarquia do medo”, um domínio político de emoções negativas que definem nossas escolhas, votos e expectativas. Dessa forma, certos discursos podem manipular nossos sentimentos de tensão e insegurança para implementar e manter poderes políticos de longo prazo, limitando liberdades e direitos em nome da manutenção de estabilidades e seguranças. Fragilizados, sem grandes possibilidades de escolha e sem ter esperanças no processo político e democrático, superaríamos nossos medos através de manifestações de força e controle, que remetem a tempos de glória e esperança.

Já vivemos numa “democratura” ou numa “monarquia do medo” no Brasil? O documentário de Petra Costa não aborda diretamente essa questão, porém não esconde dúvidas em relação ao futuro da democracia brasileira. A descida vertiginosa proposta em direção às profundezas da política limita grandes expectativas sobre o nosso futuro democrático, expressando o medo político ao qual Nussbaum faz referência, nos distanciando da liberdade e da igualdade próprias do “mais natural dos regimes”. Para além do medo e das tensões do momento, tais sentimentos se ampliam de forma incômoda para o futuro. A questão mais dura envolve, assim, o que ainda está por vir no futuro: o que fazer?

4. Como ser realista e racional?

Numa “era de imprevistos”, conforme a descrição do sociólogo Sérgio Abranches, na qual as expectativas de estabilidade e de melhoria das condições de existência das pessoas não se realiza, o que resta? Num mundo onde as velhas utopias políticas e as narrativas religiosas encontram-se desgastadas, as realizações através do consumo se mostram ilusórias e efêmeras, o que fazer para que possamos estruturar nossas vidas em conjunto? Como superar nossas tensões e polarizações, medos e inseguranças, fragilidades e desesperanças? Conforme o argumento dos cientistas políticos Christopher Achen e Larry Bartels, desenvolvido em Democracy for realists: Why elections do not produce responsive government (2017), é preciso admitir que processos políticos democráticos não necessariamente levam a respostas políticas eficazes e racionais. Nem atualmente, nem ao longo da história. Na verdade, as idealizações políticas, pautadas em “redentorismos” e “salvadores da pátria”, geram ilusões e insatisfações justamente por ancorarem-se uma pretensa “sabedoria da maioria” que não se realiza num mundo complexo como o nosso. Sem reconhecer as imperfeições da democracia, corremos o risco de idealizá-la e não compreender sua verdadeira dinâmica – que envolve participação, racionalidade, construção e diálogo. Nesse sentido, o realismo democrático proposto por Achen e Bartels envolve o cuidado constante, com necessidade de manutenção de debates e críticas envolvendo diversas posições e grupos, com o objetivo de limitar o alcance de propostas messiânicas e irreais.

Coincidentemente, duas análises sobre o presente futuro da política retomam os valores iluministas como resposta aos desafios da atualidade. A primeira foi desenvolvida pelo filósofo canadense Joseph Heath no livro Enlightenment 2.0. Seu argumento parte do pressuposto de que discursos irracionais e sem evidências são centrais nas disputas políticas contemporâneas, afastando o debate civilizado e moderado. Esse estado de coisas se deve, em muito, às dificuldade de reconhecimento do papel das paixões e das limitações de nossa racionalidade. Com o advento da comunicação direta, que “fala diretamente ao coração”, possibilitada pelos equipamentos atuais, os sentimentos (bons e ruins) são evocados, ocupando o lugar de uma possível reflexão. Eleições democráticas, nas quais a racionalidade e a deliberação seriam centrais, passam a ser o lugar do conflito polarizado e emotivamente carregado, onde as paixões afloram e a racionalidade é deixada para trás. Ao invés de “eleitores”, nos tornamos “torcedores”. No entanto, temos hoje mais informações disponíveis sobre o funcionamento da psicologia dos seres humanos e podemos lidar melhor com nossas limitações.

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Em sua análise, Heath recupera a pesquisa do psicólogo e economista comportamental israelense Daniel Kahneman sobre a existência de dois sistemas cognitivos que pautam nossas escolhas e deliberações. O primeiro, mais reflexivo e baseado na razão e no diálogo, é mais lento. Já o segundo envolve intuição e emoção, sendo mais veloz e pouco analítico. Discursos inflamados, que visam os sentimentos e as tensões das pessoas, muitas vezes distribuídos e “compartilhados” nas redes sociais, evocam esse segundo sistema cognitivo. Nos tornamos reativos e pouco reflexivos, pouco abertos à diferença e até mesmo tribais. Esse parece não ser um bom modo de deliberar sobre os caminhos da polis. Nesse sentido, o reconhecimento de tais circunstâncias é necessário para que possamos estruturar e construir melhor nossos processos educacionais e políticos. O risco de não o fazer é, além de mantermos ilusões a respeito de nossa própria natureza e condição, ficarmos à deriva política, como a que estamos agora, num mundo infestado por estímulos que deixam pouco espaço para a reflexão e análise detidas.

A segunda análise também é desenvolvida por um canadense (coincidência?). No caso, o psicólogo cognitivo Steven Pinker. Em O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo, Pinker questiona as análises que descrevem a atualidade como um mundo de dificuldades e sofrimento. Os capítulos do livro apresentam estatísticas que mostram que as condições de vida no mundo atual superam em muito épocas anteriores. Segundo sua análise, os passos que garantiram tais avanços envolvem a valorização da razão, as investigações e realizações científicas e uma crescente atribuição de valor à humanidade. Pinker também reconhece as limitações da racionalidade humana e até mesmo que os avanços ainda não estão disponíveis para todos. Porém, defende ser inegável observar que temos mais possibilidades em nossas existências do que há tempos atrás (muitas vezes descritos como “gloriosos”). Mesmo que sua análise soe otimista ao extremo para tempos intensos como o atual, Pinker evidencia que, paradoxalmente, as inseguranças contemporâneas encontram mais respostas no obscurantismo e no anti-intelectualismo devido à estrutura simplista e pouco complexa das respostas oferecidas aos desafios contemporâneos. Para limitar esse risco, precisamos de um “novo Iluminismo”, um movimento de valorização da razão como potencializadora do florescimento humano. Sem isso, podemos nos aproximar dos períodos de irracionalidade e violência que observamos no século XX, onde “o sono da razão gerou monstros”.

As sugestões apresentadas, porém, parecem não reconhecer as dificuldades de um tempo onde presente e futuro ameaçam: como ser realista e racional em tempos de pessimismo e medo? Teremos trabalho para produzir nossas vidas? Recursos naturais e financeiros para atender nossas necessidades? Liberdade para expressar nossos desejos e preferências? Igualdade perante as leis que regem nossos países? Estabilidade para coexistir com alguma segurança? Ao assistir o documentário de Petra Costa, todas essas questões vêm à mente. Independentemente de nossas convicções, é difícil não ficar impactado com a política que rege nossas vidas. A razão, aqui, tem dificuldade para manter seu tom, produzir reflexões que leiam a situação detidamente e imagine alternativas. Pensamos em nosso cotidiano, nosso futuro, nossos filhos e nas nossas expectativas de legislar sobre a própria vida, como um dia sugeriu Espinosa. Podemos ver e compreender que as tensões que nos assolam não são exclusivas dessa “terra onde reina o desatino”, mas estão presentes em todo o mundo paradoxal no qual estamos inseridos com cada vez menos certezas. Democracia em vertigem nos faz pensar e perguntar sobre tudo isso. E – o que é assustador – a não concluir nada.

REFERÊNCIAS

-ABRANCHES, Sérgio. A era do imprevisto: A grande transição do Século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
-ACHEN, Christopher; BARTELS, Larry. Democracy for realists: Why elections do not produce responsive government. Princeton: Princeton University Press, 2017.
-DAVIES, William. Nervous States: How Feeling Took Over the World. Nova York: Random House, 2018.
-DIAMOND, Larry. The spirit of democracy: The struggle to build free societies throughout the world. Londres: Macmillan, 2008.
-ESPINOSA, Baruch de. Tratado Teleólogico-Politico. Tradução, Introdução e Notas de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (1670)
-GOMES, Dias. O bem-amado. Rio de Janeiro: Ediouro, 1980.
-HEATH, Joseph. Enlightenment 2.0. Montreal: HarperCollins Canada, 2014.
-MÜLLER, Jan-Werner. What is populism? Londres: Penguin UK, 2017.
-NUSSBAUM, Martha. The monarchy of fear: A philosopher looks at our political crisis. Cambridge: Oxford University Press, 2018.
-PINKER, Steven. O Novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo. Tradução de Laura Teixeira Motta e Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
-SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
-TOOZE, Adam. Crashed: How a decade of financial crises changed the world. Nova York: Penguin, 2018.
-WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. “Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making.” Council of Europe Report. DGI, Vol. 9, 2017.
-ZAKARIA, Fareed. “The rise of illiberal democracy”. Foreign Affairs, Vol. 76, p. 22, 1997.

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José Costa Júnior é professor de filosofia e ciências sociais do Instituto Federal de Minas Gerais, no campus Ponte Nova. Doutor em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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1 comentário

  1. O autor esquece que nem citando todos os intelectuais que escolher sabe-se lá por qual razão poderão esconder o fato de que nada disso precisava estar acontecendo no Brasil senão fosse pelo canalha Ciro Gomes ter fugido para Paris em lugar de defender a democracia. A turma do voto nulo de 2018 está condenada a ter que justificar isso.

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