Celso Amorim e a antidiplomacia bolsonariana, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ao hostilizar a Venezuela e nomear seu filho embaixador do Brasil nos EUA, Jair Bolsonaro está deixando bem claro que a intenção dele é destruir qualquer possibilidade de integração sul-americana

Foto: Agência Brasil

Um dos argumentos utilizados para a nomeação de Eduardo Bolsonaro como embaixador do Brasil nos EUA seria a necessidade da pessoa não ter demonstrado hostilidade contra aquele país ou qualquer proximidade com a Venezuela. No imaginário do autoproclamado Trump brasileiro, as relações entre os dois países estavam abaladas em razão da política externa dos governos petistas.

Como tudo que é secretado em público pela família Bolsonaro esse suposto abalo nas relações Brasil/EUA é fake. Para demonstrar isso recorrerei ao livro de um especialista no assunto que protagonizou um dos melhores momentos da diplomacia brasileira nos últimos 100 anos.

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Durante vários anos Brasil, Estados Unidos, União Europeia e dezenas de outros países debateram questões relativas ao comércio internacional. Esse debate foi chamado de Rodada Doha. Ela terminou sem um acordo geral de comércio em razão de diversos problemas, vários deles alheios à posição diplomática brasileira.

Cada país ou grupo de países defendia seus próprios interesses durante a Rodada. Harmonizar todos eles não era uma tarefa fácil, pois cada nação persegue seus interesses e vários deles são conflitantes. As negociações intensas foram conduzidas pelo Itamaraty de maneira extremamente profissional.

O Brasil queria exportar mais alimentos, mas não desejava ver sua indústria exposta a uma inundação de produtos industrializados europeus mais sofisticados e competitivos. A União Europeia temia o vigor da agroindústria brasileira, tinha que lidar com seus desequilíbrios internos e desejava uma abertura comercial grande para os seus produtos industrializados. Os norte-americanos queriam conquistar novos mercados sem abrir mão dos subsídios concedidos aos seus agricultores.

A Rodada Doha foi concluída sem ganhos, nem perdas. A diplomacia brasileira se esforçou para fazer o que era melhor. O mesmo pode ser dito da diplomacia dos EUA, da Europa e dos demais países. Apesar da irritação da imprensa brasileira, as relações entre Brasil e EUA eram e continuaram sendo amistosas. Prova disso é um episódio narrado por Celso Amorim:

“Em 19 de setembro, enquanto aguardávamos a abertura do debate geral situada atrás do pódio do saguão da Assembleia, ocorreu um breve encontro entre os dois primeiros oradores: o presidente brasileiro e o norte-americano. Depois de trocar cumprimentos com Lula, Bush dirigiu-se a mim perguntando se eu continuava a ‘usar dois chapéus’ e indagou como andava a Rodada. Disse-lhe o que pensava: referi-me à necessidade de um gesto mais ousado de Washington especialmente quanto a subsídios internos. ‘Oh, como sempre’, ele comentou, já andando. ´É sempre culpa do Bush’. ‘Não, presidente’, retruquei. ‘Queremos que seja mérito do Bush; queremos que seja a Rodada Bush’ (pensei mesmo em mencionar a Rodada Kennedy, mas não o fiz, pois me pareceu que a comparação seria por demais irreverente). O presidente norte-americano deu uns tapinhas carinhosos no meu rosto e foi cumprimentar os funcionários que se aglomeravam no canto da sala.” (Teerã, Ramalá e Doha – memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim, Benvirá, 2a edição, São Paulo, 2018, p. 385)

O colapso da Rodada Doha foi uma fatalidade. Ninguém ganhou o que queria. Entretanto, nenhum país perdeu o que desejava conservar. A diplomacia é diferente da guerra. Nela não se aplica o argumento que, segundo Tucídides, os atenienses teriam empregado para devastar a ilha de Melos: “O justo, nas discussões entre os homens, só prevalece quando os interesses de ambos os lados são compatíveis, e que os fortes exercem o poder e os fracos se submetem.”

O justo na diplomacia é um acordo que harmonize pacificamente todos os interesses. Para que todos ganhem algo é preciso que todos cedam algo. A supremacia militar dos EUA não pode ser considerado um argumento diplomático para os norte-americanos imporem seus interesses em todos os países. A riqueza da União Europeia não justificaria a submissão do Brasil aos interesses europeus com prejuízo para os industriais brasileiros.

O Brasil tem seus próprios interesses e é uma estupidez acreditar que eles serão melhor defendidos pelos norte-americanos. Afinal, os únicos interesses que eles defendem são os dos EUA. Assim como nenhum governante norte-americano jamais bateu continência para a bandeira do Brasil, nenhum presidente brasileiro deveria bater continência para a American flag como fez Jair Bolsonaro.

A diplomacia deve ser um espaço de negociações e não para a imposição forçada de interesses e/ou ideologias. Ao contrário do que a imprensa brasileira disse no calor da Rodada Doha, os governos Lula e Dilma nunca hostilizaram os EUA. Eles defenderam os interesses brasileiros, o que é muito diferente. Quem está tentando impor uma diplomacia totalmente contaminada pela ideologia é o governo Bolsonaro. Na verdade, a família Bolsonaro nem mesmo se dá ao trabalho de disfarçar seu amor servil pelos EUA e seu ódio irracional pela Venezuela.

A hostilidade que os Bolsonaro devotam à maioria dos venezuelanos que elegeu Nicolás Maduro é algo que tem tudo para desestabilizar a América Latina. A nomeação de um inimigo declarado da Venezuela como embaixador do Brasil nos EUA vai aumentar desnecessariamente a tensão na região. Afinal, os norte-americanos estão ameaçando invadir nosso vizinho e a presença oficial de Eduardo Bolsonaro nos EUA pode ser encarada como uma provocação pela Venezuela. Seria a nomeação desse embaixador sem qualquer experiência diplomática ou qualificação profissional o prenúncio da organização de uma entente militar binacional contra os venezuelanos?

Brasil e Venezuela são Estados soberanos. A tentativa dos Bolsonaro de impor os interesses norte-americanos goela abaixo dos venezuelanos será sempre encarada como fruto de uma demonstração inaceitável da superioridade brasileira. Nunca é demais prestar atenção naquilo que os atenienses teriam dito aos seus adversários em potencial antes da Guerra do Peloponeso:

“Feridos em seus direitos, parece, os homens se encolerizam mais do que quando sofrem violência: aquilo lhes parece a superação por um igual e isso, a coerção por um superior.” (História da Guerra do Peloponeso, Livro I – Edição bilíngüe, Tucídides, Martins Fontes, Sao Paulo, 2013, p. 105)

A seriedade de Celso Amorim à frente da diplomacia brasileira é um fato incontestável. Diplomata de carreira, ele sempre defendeu os interesses do Brasil tomando o cuidado de não hostilizar qualquer potência estrangeira. Ao se referir à visita do presidente George W. Bush ao Brasil durante o governo Lula ele diz o seguinte:

“Antes de passar aos três encontros (Amorim-Rice, Lula-Bush, Amorim-Schwab), realizados nessa ordem), reproduzo aqui trechos de uma nota que ilustram minhas dúvidas sobre como conduzir uma relação cooperativa com os Estados Unidos, inclusive quanto à América do Sul. Embora a nota se refira provavelmente à conversa que iria ter com a Secretária de Estado – e, portanto, em um tom mais político -, ainda assim é relevante para alguns aspectos do relacionamento comercial que repercutiam em nossas atitudes frente à OMC, inclusive em relação a projetos regionais, como a ALCA. Segue o trecho em questão: ‘A tentação de todos os governos brasileiros [desde Joaquim Nabuco, poderia ser dito] sempre foi a de ter uma relação privilegiada com os Estados Unidos, como objetivo principal, se não único, de ressaltar nossa superioridade vis-à-vis nossos vizinhos da América do Sul/América Latina. Hoje, a integração da América do Sul é a prioridade da política externa brasileira (…) O Brasil não quer o papel de ‘substituto’ (surrogate) ou agente dos Estados Unidos na região. Queremos sobretudo fortalecer a América do Sul (…) Podemos ter parcerias [com os Estados Unidos em benefício de outros países da América do Sul/América Latina], mas [essas parcerias] têm de ser muito bem calibradas. Não há por que importar [ou assumir] a carga psicológica do antiamericanismo.” (Teerã, Ramalá e Doha – memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim, Benvirá, 2a edição, São Paulo, 2018, p. 394/395)

Ao hostilizar a Venezuela e nomear seu filho embaixador do Brasil nos EUA, Jair Bolsonaro está deixando bem claro que a intenção dele é destruir qualquer possibilidade de integração sul-americana. A ambição principal do bolsonarismo é transformar o Brasil numa potência regional que aceita o julgo norte-americano e o impõe aos países vizinhos como se os brasileiros tivessem uma vocação natural para comandar povos latino-americanos inferiores.

O ônus das loucuras diplomáticas brasileiras serão suportadas principalmente pelos empresários brasileiros (que serão impedidos de obter lucros exportando e de importando dos vizinhos hostilizados) e pelos militares que morrerão numa guerra que interessa mais aos EUA (país que está longe) do que ao Brasil (país geograficamente confinado na América do Sul). Um partido impugnou a nomeação de Eduardo Bolsonaro no STF. Espero que os ministros do STF tenham o bom senso de proibir esse ato administrativo lesivo aos interesses de longo prazo da nação brasileira.

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