Como compreender, e resistir, o bolsonarismo gay?, por Gustavo Hessmann

Além de nos ajudarem a compreender de que maneira um gay pode vir a se tornar bolsonarista, Freire e Boal nos sugerem medidas que indicam um meio de resistência ao bolsonarismo gay

Por Gustavo Hessmann Dalaqua*

Como é possível compreender o bolsonarismo gay? O que leva um gay a apoiar um político homofóbico? Desde já, devo alertar que, ao investigar essa questão, emprego uma abordagem normativa, e não neutra, pois parto da norma de que, em uma democracia, todos os cidadãos devem – independentemente de classe social, raça, religião, origem geográfica, gênero ou sexualidade – ser igualmente valorizados. A democracia, enquanto regime calcado no princípio do igual valor dos cidadãos, vai contra a existência de toda prática opressiva que inferioriza alguém por conta de sua raça, gênero, classe etc. Devo também esclarecer de antemão que minha resposta à questão baseia-se no conhecimento que obtive a partir dos gays bolsonaristas que conheci pessoalmente.

Não tenho a pretensão de afirmar que minha resposta vale para todos os LGBTQ+ que apoiam Bolsonaro, até porque não travei contato íntimo com bissexuais ou transexuais bolsonaristas. Mesmo assim, suspeito que a resposta que elaboro a partir dos casos individuais que conheci ajuda a compreender um dos motivos pelos quais alguns membros de grupos subalternizados – como, por exemplo, negras e negros, indígenas, familiares de criminosos, dentre outros – acabaram por apoiar um adepto de discursos que os oprimem. Tal suspeita ganha plausibilidade uma vez que observamos que as conclusões inferidas a partir de minha experiência pessoal vão ao encontro das explicações, oferecidas por dois grandes pensadores do século XX, de por que alguns membros de grupos oprimidos apoiam aqueles que os oprimem.

Minha hipótese é a de que, ao explicar como o oprimido transforma-se em perpetuador ativo de sua própria opressão, Paulo Freire e Augusto Boal nos ajudam a entender o bolsonarismo gay. Lidos em conjunto, os dois autores nos oferecem recursos para resistir o fenômeno que o corrente texto se propõe a analisar. O itálico na frase precedente serve para destacar o duplo aspecto da questão elencada em nosso título. Nosso objetivo é não só compreender como também sugerir meios de resistência ao bolsonarismo gay.

I

Presente em quase todas as obras de Freire, o tema da internalização da opressão consta em um dos primeiros livros do autor, Educação como prática da liberdade. No “Esclarecimento” com que abre a obra, Freire (2017a, p. 53) afirma que a opressão incute nos oprimidos uma “sombra” que bloqueia o advento da liberdade. A metáfora da “sombra” seria utilizada por Freire ao longo de toda a vida. Ao elaborá-la, Freire visava realçar o mecanismo psíquico de internalização da opressão que explica por que grupos subalternizados acabam por apoiar aqueles que os oprimem. A “sombra” denota a introjeção dos discursos hierarquizantes, inventados pelos opressores, que cumprem duas funções cruciais para a sustentação de uma sociedade opressora.

Em primeiro lugar, a “sombra” torna mais fácil para o opressor agir a favor da opressão, pois fornece uma narrativa que justifica seus privilégios e que o torna insensível à injustiça sofrida pelo oprimido. É muito mais fácil para uma pessoa rica, por exemplo, não se sensibilizar ao ver um sem-teto quando ela endossa o discurso da meritocracia, segundo o qual a culpa da pobreza é dos próprios pobres (que são preguiçosos, viciados etc.) e segundo o qual a riqueza é fruto do mérito, quer dizer, do trabalho árduo. Outrossim, é também mais fácil para um heterossexual agir a favor da opressão homofóbica quando ele introjetou o discurso segundo o qual os homossexuais são inferiores porque constituem uma aberração.

Antes de passar em revista o segundo aspecto da “sombra” que é indispensável para a sobrevivência de um regime opressor, cabe destacar que, na esteira de Freire, não entendemos ser possível agir de maneira indiferente à opressão. Quem se diz indiferente à 3 pobreza ou à homofobia – para retomar os exemplos do parágrafo anterior –, em verdade, contribui para que esses dois eixos de opressão continuem vigentes. Na sociedade opressora em que vivemos, não agir contra a homofobia ou a pobreza, na prática, equivale a apoiá-las.

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Em segundo lugar, a “sombra” contribui para a manutenção da opressão porque dociliza os oprimidos e minimiza a possibilidade de revolta. Ao internalizarem o discurso de que a pobreza se deve a falhas pessoais, os pobres tornam-se menos resistentes à opressão social. É por mérito próprio que o rico desfruta de privilégios que eles, os pobres preguiçosos, não têm. De maneira análoga, ao comprar o discurso de que seriam inferiores perante os heterossexuais, os homossexuais se conformam à subalternidade social e tendem a não resistir à opressão homofóbica. Não só tendem a não resistir como, pior ainda, tornam-se cúmplices e perpetuadores ativos da homofobia.

Segundo Freire, a internalização da opressão ocasionada pela “sombra” coloniza o desejo do oprimido, no sentido em que o faz querer ser como o opressor. A “sombra” garante que as emoções e os desejos dos oprimidos sejam manipulados de modo a fazê-los aceitar a opressão como algo natural – no limite, garante inclusive que eles sintam prazer com a opressão, destacando sua conformidade aos padrões que os subjugam como uma insígnia de superioridade e honra. Dessa maneira, a “sombra” cobre de grinaldas os grilhões da opressão e mascara a dominação que pesa sobre os oprimidos.

Para ilustrar a internalização da opressão provocada pela “sombra”, Freire (2017b, p. 45) menciona o caso de camponeses pobres que desejam que a terra seja redistribuída porque ambicionam “tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados”. Os camponeses pobres, assim como todo grupo oprimido, passaram a vida inteira ouvindo, sob as formas mais diversas, que o opressor encarnava um tipo “superior” de ser humano. Portanto, não surpreende que sintam “uma irresistível atração pelo opressor. Pelos seus padrões de vida. Participar desses padrões constitui uma incontida aspiração. Na sua alienação querem, a todo custo, parecer com o opressor” (ibid., p. 68). Quando se encontram sob o jugo da “sombra”, os camponeses pobres desejam redistribuir a terra não porque almejam acabar com a opressão, mas sim porque querem tornar-se, eles próprios, opressores.

Tendo reconstruído brevemente os apontamentos de Freire sobre a internalização da opressão, vejamos como eles nos auxiliam a compreender o que leva um gay a se tornar bolsonarista. Em primeiro lugar, Freire nos leva a perceber que a conformidade do oprimido às métricas inventadas pelos opressores gera benefícios psíquicos. Na medida em que segue as regras de conduta observadas pelos homens heterossexuais, o gay bolsonarista se sente “superior” perante os gays “afeminados”. Em segundo lugar, Freire nos ajuda a perceber que, além de aumentar sua autoestima, a “sombra” tende a tornar o oprimido insensível ao sofrimento dos demais oprimidos. Visto que concorda com a ideia de que os gays seriam “inferiores”, o gay bolsonarista não considera problemático a homofobia que se dirige àqueles gays que desrespeitam as regras de conduta estabelecidas pelo opressor.

O conforto psicológico propiciado pela “sombra” é, portanto, duplo. A presença da “sombra” na psique do gay bolsonarista, de um lado, o permite se sentir “superior” aos demais gays na medida em que ele se porta como um homem heterossexual viril – tipo de homem que, não raramente, costuma figurar entre aqueles que espancam homossexuais – e, de outro, o poupa do sofrimento que sentiria acaso se identificasse com os vários casos de agressão provocados pela homofobia. Semelhante conforto psíquico, contudo, tem seu preço. Se o oprimido apoia o discurso opressor e não trabalha para combatê-lo, cedo ou tarde esse discurso se voltará contra ele. Os agressores homofóbicos não distinguem, dentre os gays, os que são bolsonaristas dos que não são.

Freire descreve a expulsão da “sombra” do opressor, alojada na psique do oprimido, como um “parto doloroso” (ibid., p. 48). Doí para o oprimido se identificar como membro de um grupo oprimido. Doí saber que, para um número considerável de pessoas, ele faz parte de um grupo portador de uma “inferioridade ‘ontológica’” – i.e., de uma inferioridade inscrita em seu próprio ser – que justifica seu confinamento a uma posição social subalterna, ou ainda, seu extermínio (ibid., p. 189). Não causa surpresa, portanto, que os relatos de suicídio e sofrimento psíquico entre os gays não bolsonaristas tenham aumentado após a eleição de Bolsonaro. Tenho um amigo abertamente gay em Curitiba que, alguns dias depois de Bolsonaro ter obtido, naquela cidade, 62% dos votos no primeiro turno, foi espancado na rua por um grupo de homofóbicos. Poucos meses depois, ele tentou cometer suicídio. Ele me 5 disse que o caso de agressão que sofreu foi um dos fatores causadores da depressão que culminou em sua tentativa de suicídio.

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II

Embora o tema da internalização da opressão apareça já em um dos primeiros trabalhos de Boal – com efeito, em Teatro do oprimido e outras poéticas políticas, Boal (1975) investigara o modo como a opressão, ao ser internalizada, constrangia o desenvolvimento corporal dos oprimidos –, é sobretudo em O arco-íris do desejo que Boal explora o tema a contento. Como o título do livro deixa entrever, Boal (1996, p. 115) considera que o desejo humano é, tal qual um arco-íris, “caleidoscópico”. Dotado de uma riqueza infinita, o desejo humano possui inúmeros matizes. Contudo, por causa da internalização da opressão, essa riqueza do desejo humano acabou sendo atrofiada. Seguindo a esteira de Freire, Boal afirma que a opressão se perpetua não só por meios materiais (como exploração econômica e violência física), mas também por mecanismos psíquicos, tal qual a colonização do desejo. A luta contra a opressão e em prol da liberdade exige, portanto, expurgar do oprimido a opressão internalizada que o impede de conhecer plenamente seus desejos e a si próprio.

Ao passo que Freire tematiza a internalização da opressão ao apresentar a metáfora da sombra, Boal investiga o mesmo fenômeno quando introduz a metáfora do “tira na cabeça” (ibid., p. 23). Como o nome escolhido pelo autor já insinua, o “tira na cabeça” denota o cerceamento da liberdade decorrente do fato de o oprimido hospedar, dentro de si, discursos opressores. Boal explica que o processo por meio do qual os “tiras” opressores vão se formando em nossa cabeça é como uma “osmose”, no sentido em que ocorre constante e involuntariamente (ibid., p. 54). A osmose é uma reação psicológica quase que automática de qualquer um que vive em uma sociedade opressora – isto é, em uma sociedade em que nem todos os grupos sociais são tratados de maneira equânime porque alguns são hierarquizados como “superiores” a outros. Segundo Boal, a osmose se produz “em toda parte, em todas as células da vida social” (ibidem). Todavia, diferentes tipos de opressões proliferam em diferentes âmbitos sociais. Ciente disto, Boal convida os sujeitos que sofrem 6 um tipo similar de opressão a criar núcleos de interação nos quais possam, em conjunto, revisitar o passado de cada um de modo a identificar os lugares e as ocasiões em que um certo tipo de osmose ocorreu entre eles. Mediante uso da técnica do arco-íris do desejo, os núcleos conseguem combater as opressões internalizadas de seus participantes.

O modo como os núcleos criados por Boal visam reverter a internalização da opressão lembra os “círculos de cultura” propostos por Freire (2017b, p. 99). Na descrição de Freire, os círculos de cultura oferecem, sobretudo, espaços onde os oprimidos conseguem expurgar a “sombra” do opressor, alojada dentro deles, por meio do debate democrático. Tanto em Boal quanto em Freire, o que se objetiva é a formação de subjetividades democráticas – vale dizer, de mentalidades e sensibilidades que não mais hierarquizam os cidadãos em grupos “superiores” e “inferiores”. 2 Essa formação, como dissemos, corresponde a um longo e doloroso “parto”. A passagem de uma subjetividade opressora para outra democrática está longe de ser uma tarefa fácil.

Apropriando-se do vocabulário cristão, Freire (2002, p. 125) afirma que o parto doloroso por meio do qual o oprimido consegue expurgar a “sombra” de dentro de si caracteriza-se como uma “Páscoa”. A passagem de uma subjetividade autoritária para uma subjetividade democrática “exige uma profunda ressurreição” (Freire, 1980, p. 60). A reversão da internalização da opressão não é um processo persuasivo que se dá por vias estritamente intelectuais. Não se trata, aqui, de uma substituição de ideias que ocorre entre interlocutores que, após participarem de uma deliberação racional, chegariam à conclusão de que sua perspectiva do mundo estaria equivocada. A expulsão da “sombra” requer, em vez disso, uma remodelação do sujeito que mobiliza e transforma tanto seu intelecto quanto sua sensibilidade. A reversão do bolsonarismo gay demanda não apenas pensar de outra maneira, mas também deixar-se afetar de outra maneira. Nesse sentido, o desmantelamento da opressão internalizada assemelha-se mais a um processo de conversão do que a uma persuasão racional. Para uma explanação mais detida de como a luta contra a opressão, segundo Freire e Boal, visa à formação de subjetividades democráticas, cf. Dalaqua (2018 e 2019).

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Esse ponto é ressaltado em um dos relatos incluídos no vídeo “Homossexuais que apoiam Bolsonaro”, disponível no YouTube. No último depoimento do vídeo, uma jovem bolsonarista inicia seu relato declarando: “Sou homossexual, mas se pudesse, não seria. Por quê? Porque é uma vergonha”. A jovem corrobora, assim, a asserção de Boal e Freire. É por ter internalizado a visão, criada pelo opressor, de que os homossexuais seriam “inferiores” que a jovem acaba por tornar-se cúmplice de um discurso que a oprime.

Na continuação do relato, a jovem pede àqueles que tentam dissuadi-la de apoiar Bolsonaro a desistir de “mudar sua cabeça”. Segundo ela, tentar fazer com que um gay bolsonarista deixe de apoiar Bolsonaro e vote em um político como Fernando Haddad “é como tentar convencer um umbandista a virar evangélico”. A jovem reforça, assim, a tese de que a passagem de uma subjetividade bolsonarista em prol de outra mais democrática é análoga ao processo de conversão religiosa. Enquanto regime calcado na igualdade de todos os cidadãos, a democracia reclama uma espécie de religião civil de acordo com a qual todos os cidadãos – seja qual for sua classe, raça, sexualidade etc. – são portadores de igual valor. Ao exortar os oprimidos a participar de um debate público, norteado pelo princípio democrático do igual valor de todos os cidadãos, os círculos de cultura freireanos e os núcleos boalinos os permitem reverter os discursos opressivos que eles internalizaram e arquitetar estratégias subversivas contra a opressão. Além de nos ajudarem a compreender de que maneira um gay pode vir a se tornar bolsonarista, Freire e Boal nos sugerem medidas que indicam um meio de resistência ao bolsonarismo gay.

*O autor é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo e professor de filosofia na Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Participa do Coletivo Paulo Freire, projeto de extensão do curso de filosofia da Unespar que
organiza círculos de cultura.

Este manuscrito foi publicado, em dezembro de 2019, na revista HHMagazine: Humanidades em Rede (veja aqui).

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1 comentário

  1. Prezado Gustavo

    O que houve no Brasil foi a manipulação da sociedade através da palavra corrupção, no qual se criminalizou somente um partido político.

    80% da sociedade embarcou nessa manipulação patrocinada pelas elites e oligarquias do país.

    Abração

    6
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