Cristina Kirchner e as eleições argentinas

De CartaCapital

Cristina Kirchner na disputa eleitoral

The Economist 23 de junho de 2011 às 10:39h

Uma análise sobre o presente e o futuro da candidata à reeleição presidencial na Argentina, Cristina Kirchner. Por The Economist. Foto: Juan Mabromata/AFP

Após meses de expectativas, a presidente da Argentina Cristina Fernández Kirchner finalmente anunciou sua candidatura à reeleição. Com o crescimento de sua popularidade após a morte de seu marido no ano passado e com a oposição dividida, ela poderia cumprir um novo mandato com relativa facilidade nas eleições de 23 de outubro. As maiores questões são se a votação poderia levá-la a um segundo turno, o que no momento parece improvável, e quais mudanças na política, se houver, ela fará em seu segundo mandato por mais quatro anos.

O prazo final para que Cristina anunciasse sua recandidatura era o dia 25 de junho, mas ela antecipou o anúncio de seus planos, embora há meses já houvesse sinais de sua participação na disputa. Em seu discurso público ocorrido em 21 de junho, ela evocou a memória de seu marido e antecessor, Néstor Kirchner. Sua morte colocou uma nuvem sobre os planos futuros da esposa, o que levou a uma especulação sobre a saída dela da disputa eleitoral pela ausência do apoio de seu marido, que era como um copresidente virtual. Mas qualquer pensamento de que o “kirchnerismo” iria desaparecer após a morte de Néstor foi prematuro, e Cristina provou ser capaz de continuar governando sozinha e manter a combinação de política econômica heterodoxa mista, o que caracterizava o casal.

Forte crescimento, investimento atrasado

Na verdade, em vez de esmorecer o “kirchnerismo” após assumir o cargo em 2007, Cristina manteve as políticas intervencionistas de seu marido, nacionalizando o sistema de previdência privada, batendo de frente com várias empresas e indústrias (incluindo o poderoso setor agrícola) e continuando, é no que se acredita, a manipular dados econômicos para ocultar a verdadeira extensão do problema inflacionário na Argentina.

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Desde a morte de seu marido, ela também manteve níveis elevados de gastos públicos com programas sociais e o crescimento global, que também tem sido impulsionado pelos preços altos das commodities e a forte demanda por exportação argentina. A economia cresceu em média 5,6% por ano entre 2008 e 2010, numa sequência de crescimento anual de 8,8% de 2003 a 2007, durante o governo Néstor Kirchner. O crescimento do PIB no ano passado foi de 9,2% e a Economist Intelligence Unit espera que em 2011 seja de 6,9%.

No entanto, uma política econômica intervencionista, inflação alta (25 – 30% anualmente, de acordo com estimativas privadas) e a falta de confiança nas estatísticas econômicas do governo (que colocou a inflação nos 8%) têm contribuído para uma queda no investimento privado, especialmente os estrangeiros, nos últimos anos. Além disso, a Argentina não está totalmente reinserida no mercado internacional de capitais. Embora o casal Kirchner, em 2010, tenha reestruturado a dívida de 2002 e feito uma troca de dívida em 2005, a Argentina tem ainda que pagar débitos e atrasos devidos ao Clube de Paris de Credores Bilaterais.

Cristina não aparenta, ainda, preocupação com os desafios já que busca sua reeleição. Com alto índice de votação nas pesquisas, ela se sobressai ante seu principal rival que seria Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raul Alfonsín (1983-89) do Partido União Cívica Radical. Ela pode ser capaz de vencer em primeiro turno. Uma pesquisa feita no início de junho pelo CEOP, instituto que realiza pesquisas de opinião pública na Argentina, deu a ela 48% dos votos contra 13% para Alfonsín. Também na disputa está um membro do governo do Partido Peronista Eduardo Duhalde (que foi presidente interino durante o caos que seguiu a crise econômica de 2001-2002); ele tem o apoio de apenas 7% do eleitorado.

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Para ganhar a eleição definitivamente o candidato deve ter mais de 45% dos votos ou 40% em uma margem de erro de 10 pontos percentuais sobre o seu rival mais próximo. Atualmente, Cristina Kirchner aparece no caminho certo para atingir esse limite, mas se preciso um segundo turno acontecerá em novembro.

Alguns riscos existem

Cristina está se beneficiando de um crescimento econômico robusto e, apesar das preocupações com a criminalidade e a inflação continue dominando as pesquisa de opinião pública, os eleitores estão protegidos dos efeitos da inflação por meio de transferências, subsídios e acordos salariais generosos. O governo também tomou medidas para reconhecer o problema da criminalidade (que  até recentemente, havia sido exagerado pelo setor da mídia privada). No entanto,  há riscos que podem levar Cristina a tropeçar. Para ganhar as eleições em primeiro turno, ela terá de manter-se nas pesquisas acima dos 40%, e isso pode ser difícil sem receber o apoio das classes médias urbanas, que abandonaram os Kirchner nas eleições legislativas ocorridas em 2009 e ainda estão adiadas por uma postura de confronto do governo e por tendências autocráticas. Além disso, Cristina tem  cortejado integrantes da esquerda não peronista, e isso poderia aliená-la da sua base peronista tradicional.

Há também uma discórdia substancial dentro de sua base. Nos últimos meses a presidente se distanciou de Hugo Moyano, o líder da divisão radical do principal sindicato da confederação, a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). Sua retórica dura contra os sindicatos poderia apelar para a classe média, mas poderia ser vista como uma traição ao trabalho organizado.

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Finalmente, um escândalo envolvendo o grupo de direitos humanos Mães da Praça de Maio, que tem laços estreitos com o casal Kirchner, também poderia ser prejudicial para a presidenta. O grupo está sendo investigado por lavagem de dinheiro e fraude.

Mantendo o caminho

Caso qualquer desses riscos force a eleição para o segundo turno, a corrida presidencial se tornaria mais competitiva e, portanto, menos certa. No entanto, embora o resultado pudesse estar perto e mesmo que a oposição consiga criar uma aliança, as previsões da Economist Intelligence Unit dão Cristina Kirchner como reeleita.

Nessa base, esperamos que a atual política de economia mista seja mantida. As políticas fiscal e monetária continuarão soltas, os esforços para conter a inflação continuarão restritos ao nível das empresa, para isso, os controles serão transferidos com o intuito de controlar as distorções econômicas, e o quadro jurídico continuará a ser corroído pelo intervencionismo imprevisível do governo  e o capitalismo de compadres.

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