De Posto Ipiranga a Tchuchuca, por Jorge Alexandre Neves

Sobre as desventuras de Paulo Guedes. Ministro da "superpasta" da Economia vem colecionando uma série de revés tanto por sua própria falta de experiência quanto por decisões do chefe

Paulo Guedes em audiência no Senado para explicar reforma da Previdência. Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado, divulgação

Por Jorge Alexandre Neves

O ministro da economia, Paulo Guedes, era o todo poderoso “Posto Ipiranga” do então candidato a presidente da república, Jair Bolsonaro. Com a vitória e a posse do novo presidente, virou o novo superministro da economia, uma pasta vitaminada pela fusão de vários ministérios. Em três meses, contudo, sua posição já não é assim mais tão reluzente.

Já no segundo mês de governo, o ministro Guedes foi obrigado a voltar atrás na decisão de reduzir as alíquotas de impostos de importação que incidem sobre o leite em pó. De lá para cá, é uma desventura atrás da outra.

Teve que engolir uma falsa reforma da previdência (ou do sistema de proteção, como se queira) dos militares. Em outra coluna, eu havia previsto que painho não iria passar na volta. Até passou, mas não comprou nada. O ministro Guedes foi contrariado, mais uma vez. Terminou sugerindo aos congressistas que façam o que ele não teve autoridade ou vontade suficiente para fazer.

Diante de uma enorme inapetência do presidente Bolsonaro para batalhar por seu projeto de reforma da presidência, arregaçou as mangas e foi ele mesmo enfrentar os parlamentares e tentar convencê-los a votar a favor de uma reforma que não conta com o apoio nem mesmo de seu chefe máximo. Péssima decisão, a desgraceira generalizou-se quando o ministro chamou para si um papel para o qual não tem mínima capacidade de desempenhar. Sua participação em sessão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado foi desastrosa. A subsequente, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, foi ainda pior.

Para começar, o ministro Guedes parece desconhecer por completo a liturgia que rege as casas legislativas. Proposital ou não, sua postura foi extremamente grosseira e deselegante. No Senado, o presidente da Comissão conseguiu evitar que a coisa acabasse descambando para a baixaria, ao tomar um mínimo de iniciativa de coibir o comportamento desprovido de urbanidade, por parte do ministro. Na Câmara, porém, o presidente da CCJ é um rapaz recém-desmamado, em seu primeiro mandato legislativo, que é absolutamente incapaz de dar conta da sua missão institucional e, como seria previsível, nada fez para coibir o comportamento inadequado do ministro. Não poderia ter dado em outra, tudo descambou para a baixaria. Era visível a crescente irritação de parlamentares com o comportamento do ministro. Alguém iria terminar passando um pouco da linha da civilidade com ele. O primeiro a fazê-lo, o deputado Zeca Dirceu (PT), terminou conseguindo fazê-lo perder completamente as estribeiras e revelar de vez toda a sua misoginia que já se anunciava desde o início da sessão. Como castigo pelo total despreparo para cumprir aquela missão, ganhou a alcunha de Tchuchuca, que já colou e deverá acompanha-lo até o leito de morte. O veredicto final foi dado por um juiz insuspeito quanto a seu apreço pelo ministro e pelo seu projeto, o chamado “mercado”, que lhe presenteou ao final do dia com um aumento significativo do dólar e uma queda ainda maior do IBOVESPA. A participação do ministro na CCJ havia sido um desastre!

Pouco tempo depois da pisa que levou na Câmara, o ministro Guedes teve um novo grande dessabor. Foi obrigado a ouvir o presidente Bolsonaro extirpar a capitalização da reforma. Logo ela, a medida que claramente mais interessa ao ministro Guedes e seus colegas do “mercado”. Assim como no caso do leite em pó e do projeto dos militares, o ministro Guedes se calou e, mais uma vez, parece ter se resignado.

Outro ministro do governo Bolsonaro – Vélez Rodriguez, do MEC – também aguentou todo tipo de humilhação para se agarrar ao cargo. Acaba de ser exonerado pelo presidente da república. O ministro Guedes que – que se comporta como tigrão não apenas com os pobres, mas também com parlamentares e jornalistas – tem agido como tchuchuca não apenas com o “mercado”, mas também com o presidente Bolsonaro. Dele, aceita qualquer humilhação! Como dizia minha vó, quem muito se abaixa…

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