Dilma e as pegadinhas

Por Márcio Xavier

Nassif, vc foi citado neste ótimo texto que está no Terra Magazine:

Do Terra Magazine

Em entrevistas, uma Dilma marota navega por pegadinhas

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA) 

Veio de uma colega de hidroginástica – segunda idade avançada. Lá pelas tantas me informou do intenso constrangimento daquele ‘casal 20’ de apresentadores com relação à entrevista da Dilma na tevê, pois eles são petistas convictos. Mas Irá! Você tá de gozação né? Era só o que faltava. E ela, entre halteres e respingos – não! eu sei de fonte limpa.

Como entender o caso? Será que tem mesmo fontes privilegiadas? Ou é mais um exemplo dessa condição atual de perda da noção de distância entre espetáculo e espectadores, virtual e real – alucinando uma proximidade fantástica que não existe? A propósito, Irá não precisa mentir, fala tudo que pensa.

E se fosse verdade? Se estivéssemos diante de um cenário onde um script master é consagrado pela emissora e todos sendo obrigados a segui-lo? Nesse caso precisaríamos iniciar um movimento de solidariedade aos constrangidos jornalistas, que não podem exercer o mais elementar direito de liberdade de expressão em seus próprios programas.

E logo fico a imaginar a ciranda de constrangimentos a rodar e rodar. Se e se…, será que já pressionaram a Cristiana? Sempre a via com muito equilíbrio, mas há poucas semanas parecia estar deslizando na corda bamba dessa pressão.

Analiso um a um os envolvidos que aparecem na minha tela. Fica mesmo a impressão de que certos debates são montados às pressas para impingir a verdade da casa – e a ansiedade de fazê-la emergir acaba crispando um pouco o sorriso da “entrevistadora”.

Quando um determinado tema entra em pauta, percebemos que todos os colunistas e apresentadores são convocados a dar sua ‘contribuição’. Tudo muito bem ensaiado.

Ontem mesmo foi a vez de outro William, a quem muito admiro pela postura elegante e esclarecida, e novamente com a Dilma em cadeia nacional. Hoje cedo Luis Nassif registrava em seu blog o disparate das perguntas, segundo ele, um teatro armado para virtualizar a campanha.

Na verdade, as perguntas excluíram qualquer peso temático que levasse ao aprofundamento de propostas de governo, ou acerca de polaridades que nos afligem (social democracia versus mercadismo do BC; governo eficiente e participação popular, vulnerabilidades da economia aparentemente pujante etc.), nada disso, lembrou Nassif.

No cardápio, cinco temas que mais parecem pegadinhas: a mudança física de Dilma (o script quer mostrar uma candidata de duas caras); Zé Dirceu no debate; cargos para os aliados; quebra de sigilos; presos de Cuba; Narco e Farcs.

Do ponto de vista da oposição, isso está sendo um desserviço de grande monta, e uma preciosa oportunidade perdida. Não se faz mais emissora como antigamente? Ou será que foi o povo que mudou?

E uma Dilma marota, agora mais confiante, com pesquisas e exposição pública, navega tranquilamente pelas pegadinhas, dá respostas convincentes quase sempre para a câmera certa, mostra conhecimento profundo da perspectiva de governo e de vez em quando ainda faz chacota… (“vocês sabem que eu tenho fama de exigente!”).

Olha que o William não rejeita tiradas de humor, assisto-o de longa data. Mas o controle era tal, que nem mesmo um pequeno músculo de vibração simpática foi movido em seu rosto, ao longo de longos vinte minutos. Coitados! Dele e de nós!

E dizem que nem existe mais esse negócio de direita e esquerda – apenas miseráveis e barões – então de que estamos falando mesmo? Do que tenta nos salvar a dedicada emissora ao lançar mão de seu “direito divino” de utilizar esse tipo de script?

Escrevo essas linhas para manifestar minha profunda solidariedade a todos que estão envolvidos na execução desse script ainda mal sucedido, e que engolem suas opiniões próprias em favor da causa. O Mervinho, por exemplo, quanta profundidade e iluminação salpicam daquelas aparentes gagueiras interpretativas. Seria também petista convicto?

Só perguntando a Irá…

PS – Qualquer semelhança com personagens reais é mera coincidência

Paulo Costa Lima é compositor, pesquisador CNPq, professor-doutor da Escola de Música da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia. Apresentou obras em festivais no Carnegie Hall, Lincoln Center, Musikhaus (Berlim), Sala Rode Pomp, São Paulo, Cecília Meirelles, TCA, entre outras. 

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