A vantagem de Cristina Kirchner nas eleições

Da Carta Maior

Ampla vantagem de Cristina desenha eleição antecipada na Argentina

A presidenta Cristina Kirchner teve uma vitória arrasadora nas inéditas eleições primárias da Argentina realizadas domingo. Cristina obteve 50,07% dos votos, quase 38 pontos de vantagem sobre o radical Ricardo Alfonsín, que recebeu 12,17%. As primárias foram realizadas para definir as listas de candidatos para cargos executivos e legislativos nas eleições gerais de 23 de outubro. O artigo é de Martín Granovsky.

Martín Granovsky – Página/12

Cristina Fernández de Kirchner obteve domingo uma diferença tão ampla e as forças de oposição ficaram tão fragmentadas que será difícil considerar as primárias simplesmente como uma grande pesquisa. Elas representaram uma eleição antecipada que, salvo uma hecatombe, parece indicar um cenário irreversível de hoje até 23 de outubro. O alto nível de comparecimento, superior a 70%, como o de uma eleição presidencial das mais participativas, empresta ainda mais força aos resultados.

Ao contrário do que ocorreu na eleição da Capital Federal, onde os candidatos obtiveram no primeiro turno mais de 70% dos votos, no domingo não houve polarização. Também ao contrário das eleições realizadas em Santa Fé, onde Antonio Bonfatti ganhou por pouco mais de 3%, a fórmula CFK – Amado Boudou obteve, em nível nacional, quase o mesmo que a soma do segundo, terceiro, quarto e quinto lugar (Alberto Rodríguez Saá). A diferença entre primeiro e segundo foi maior que a de José Manuel de la Sota sobre Luiz Juez. Mais ainda: Cristina ganhou ontem na capital (Mauricio Macri não disse em quem votaria), em Córdoba (o Partido Justicialista cordobés recomendou votar em Cristina, Rodríguez Saá ou Eduardo Duhalde) e em Santa Fé, nada menos que o território de Hermes Binner.

Além disso, outra vez ficou provado que os grandes meios de comunicação influem o mesmo que um partido político ou um grupo econômico tradicional, mas não determinam um resultado. Isso já havia ocorrido nas eleições do Brasil, Peru, Bolívia e Uruguai.

Com resultados positivos em todo o país, exceto em San Luis, a diferença de mais de 40 pontos na província de Buenos Aires em favor do governo terminou de inclinar a balança nacional e foi fundamental para converter a pesquisa em eleição antecipada, consagrando uma parceria. Assim, a primeira figura, Cristina Kirchner, se apoia no voto bonaerense e a popularidade da segunda figura, Daniel Scioli, o governador bonaerense depende do peso da Presidenta. Este foi e será o marco das tensões daqui até 2015. Em todo caso, como costuma acontecer na democracia, a luta será por mudar as proporções e ninguém agirá de maneira autodestrutiva.

Leia também:  Irlanda é primeiro na UE a reimpor lockdown, mas com escolas abertas

Tanto Cristina como Scioli cultivaram ontem seu perfil, que será reforçado até o dia 23 de outubro.

No Hotel Intercontinental, o mesmo lugar onde, em 2009, o kirchnerismo sofreu o golpe da derrota legislativa na província de Buenos Aires, quando Francisco de Narváez mordeu os votos peronistas do segundo cinturão da região metropolitana, a Presidenta invocou a Néstor Kirchner e, desta vez com sua filha Florencia ao lado, felicitou aos eleitores “sem distinções” enquanto buscava deixar claros estes pontos:

– As primárias são “uma forma de ampliar a democracia e aprofundar a mudança”.

– A presença similar a de uma eleição regular revela, disse, “um grau de maturidade importante da sociedade argentina”.

– Saudou a “todas as outras forças políticas, em todos os partidos, em todas as províncias, porque também contribuíram para a ampliação da democracia”.

– “Não esperem de mim nesta noite maravilhosa nenhuma palavra que ofenda, que menospreze”, advertiu.

– Pela lei de meios (de comunicação) e pela reforma política todos os partidos políticos puderam ter acesso democraticamente, pela primeira vez desde 1983, aos meios audiovisuais”, disse. “Até esta eleição, só podiam ter acesso à grande mídia os que tinham dinheiro para fazê-lo”.

– “É central construir a autonomia da política em relação ao poder econômico”.

– “Não só a democracia política, mas também a democracia econômica são grandes construtoras de igualdade”.

– “Não há nada que agradecer, porque não é uma concessão graciosa mas sim uma obrigação”.

– “Peço mais humildade que nunca. Mais trabalho do que nunca. Como disse Amado (Boudou) no Coliseu, também para o que resta por fazer. Por isso quero fazer uma convocação aos argentinos e a todas forças políticas. O mundo está passando por uma grande turbulência. Os governantes devem ter a sabedoria de seguir construindo os instrumentos que permitiram superar com êxito o desastre de 2008, a crise de 2009 e estar na situação de hoje. Devemos fazer aqui dentro o que estão fazendo os países da Unasul. Com distintas ideias, concordaram em se unir para adotar medidas que evitem dilapidar ou destruir o que construímos nestes anos”.

– “O mundo está difícil, mas se conseguirmos não discutir sobre as coisas que já estão resolvidas e se escutarmos o que diz a sociedade através das urnas, vamos conseguir nos equivocar um pouco menos”.

Leia também:  Brasil vai pagar mais caro pelo 5G com banimento da Huawei, diz presidente

– “É um grande triunfo do amor e eu gosto muito de todos vocês. O compromisso é trabalhar cada vez mais por todas as coisas que nos faltam”, encerrou antes de soar “Dar es dar”, de Fito Páez, e a Marcha Peronista.

Scioli apelou às ondas de paz e amor com o Coro Kennedy entre a alegria da cor laranja. Logo em seguida, como se fosse um peronista desde criancinha, armou o ritual de seu discurso de triunfo. Pero dele, sua mulher, Karina Rabolini. E, ao lado, o candidato a vice-governador, Gabriel Mariotto, e o encarregado da descentralização Santiago Montoya, o único arrecadador de impostos popular da Argentina. Citou Mariotto em uma parte do discurso, improvisado na primeira pessoa do plural. A Cristina, prometeu colaboração. E agradeceu a Néstor Kirchner, que o derrotou na fórmula em 2003 e o impulsionou a Buenos Aires em 2007, quando Scioli já estava preparado para competir com Macri pela candidatura a chefe de governo.

A tática de Ricardo Alfonsín, talvez meio fora de perfil por sua aliança com De Narváez, ainda que ninguém saiba se não teria obtidos ainda menos votos sem ela, foi só dizer que a campanha recém está começando e que o dia 23 de outubro está logo aí na frente.

De Narváez, candidato a governador bonaerense de Alfonsín, correu na mesma direção. Inclusive propôs um debate de todos os candidatos na Universidade Nacional de La Plata e destacou que os dois mais votados tinham sido Scioli e ele. Na hora em que falou, os votos apurados na província apontavam 30 pontos em favor de Scioli para governador. Com essa diferença não parece que um debate (ou o debate dos debates) possa compensar a diferença registrada no domingo.

A meta de Eduardo Duhalde, está visto, é destronar Ricardo Alfonsín.

“Vi Ricardo Alfonsín exultante, mas ver quando terminar a eleição, porque os argentinos vão votar quase de maneira massiva a quem entrar por segundo”, disse. Isso esteve por ocorrer em 2003, quando as pesquisas davam Kirchner como vencedor com 70% em um segundo turno contra Carlos Menem. Mas Menem havia obtido uma vantagem de 2%, não uma margem largamente superior aos 30 pontos.

“Os bunkers dos partidos políticos costumam receber apenas as boas notícias”, disse Duhalde aos jornalistas. “E eu espero que as boas notícias cheguem quando vocês estiverem dormindo, às duas ou três da manhã. O governo fez uma eleição muito boa na província e eu o felicito por isso. Creio que estaremos em um segundo turno a partir de outubro”. Depois acrescentou: “Sou do peronismo de Juan Perón e de Eva Perón, que não crê nas agressões e crê que a irmandade dos argentinos é uma revolução em si mesmo”. E mencionou, sem dar dados, que havia visto tremular “bandeiras que nada tem a ver com a nacionalidade, de organizações que foram subversivas”. Nos dias de hoje, esse tipo de discurso só é escutado na América do Sul no Ministério da Educação e no Instituto do Livro do Chile.

Binner, que superou Miguel Del Sel em Santa Fé, em 24 de julho, e ontem derrotou Cristina, conseguiu construir uma força de centroesquerda com cerca de 10% dos votos em nível nacional. Sua estratégia revelou-se exitosa ao não se aliar com Alfonsín – cujos alguns eleitores potenciais talvez tenham rendido votos a Binner, sobretudo na província de Buenos Aires – e ao não ceder na negociação com Fernando “Pino” Solanas, de atuação muito pobre pelo resultado de sua candidata Alcira Argumedo.

Leia também:  Johnson diz que Brexit pode ocorrer sem acordo com União Europeia

Adrián Pérez apareceu só, sem Elisa Carrió ao lado, para reconhecer sem voltas o pobre resultado de uma Coalizão Cívica que mal superou os 3%. Jorge Altamari conseguiu superar o piso mínimo e poderá competir em outubro.

Três anos depois da crise de 2008 e dois depois da derrota bonaerense de 2009, uma Cristina que, em 2010 não seria candidata, porque o candidato do governo era até sua morte, dia 27 de outubro, Néstor Kirchner, teve seu nome revalidado com uma cifra superior a 45%, índice que garantiu sua eleição para a presidência no primeiro turno em 2007.

Seu desafio agora, até o dia 23 de outubro, é manter a cifra de domingo ou, pelo menos, não baixar do índice conquistado em 2007. Isso se o resultado das primárias deste domingo foi mesmo uma eleição antecipada.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome