Entenda porque o capitalismo rentista ameaça a democracia, por Martin Wolf

'Economia não está mais beneficiando igualmente a todos, gerando um perigoso avanço populista, que ameaça destruir a democracia liberal', pondera jornalista britânico

Bolsa de Valores. Foto: Agência Brasil

Jornal GGN – De 1948 a 1973, a renda familiar mediana real nos Estados Unidos cresceu anualmente 3%. Com esse percentual havia uma probabilidade de 96% de que uma criança teria uma renda maior que a de seus pais. Desde 1973, porém, a família mediana viu sua renda real crescer somente 0,4% anualmente. Em decorrência disso, 28% das crianças terão renda inferior à de seus pais.

De 1980 a 2014, a renda do 1% dos americanos mais ricos saltou de 11% para 20%. Entre 1998 e 2016, a relação entre a remuneração média dos executivos-chefes e a da média dos trabalhadores subiu de 48 para 1. Nos Estados Unidos, essa relação subiu de 42 para 1, em 1980, para 347 para 1 em 2017.

O que esses dados significam? Que a explosão da atividade financeira que ocorre desde 1980 não se reverteu em crescimento da produtividade, aumentando a concentração cresceu, mesmo nos países mais ricos.

Esses dados estão no artigo “Capitalismo rentista ameaça a democracia”, do jornalista britânico Martin Wolf, produzido para o Financial Times e traduzido no Valor Econômico.

“Se acompanharmos o debate político em muitos países, notadamente nos EUA e no Reino Unido, concluiremos que essa decepção [com o baixo crescimento da renda populacional] é principalmente culpa dos produtos importados da China ou dos imigrantes de baixo salário, ou de ambos. Os estrangeiros são bodes expiatórios ideais”, escreve.

“Mas a ideia de que a crescente desigualdade e a lenta expansão da produtividade se devem aos estrangeiros é, simplesmente, falsa. Todos os países ocidentais de alta renda fazem hoje mais transações comerciais com os países emergentes do que há 40 anos. Mas os aumentos da desigualdade variaram significativamente. O resultado depende do comportamento das instituições da economia de mercado e das opções de políticas internas”, explica.

O articulista prossegue trazendo a conclusão dos trabalhos sobre o panorama mundial do economista Elhanan Helpman, de Harvard. Segundo ele, “a globalização, sob a forma de comércio exterior e de terceirização no exterior, não tem contribuído de forma relevante para o aumento da desigualdade. Vários estudos sobre diferentes acontecimentos no mundo inteiro apontam para essa conclusão”.

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“A transferência do local de produção de boa parte da indústria, principalmente para a China, pode ter reduzido um pouco os investimentos nas economias de alta renda. Mas esse efeito não teve força suficiente para diminuir significativamente o crescimento da produtividade. Pelo contrário, a mudança da divisão de trabalho global induziu países de alta renda a se especializarem em setores intensivos em qualificação, onde há mais potencial para uma expansão acelerada da produtividade”, pontua Wolf.

“O impacto econômico da imigração também é pequeno, por maior que possa ser o “choque do estrangeiro” nos domínios político e cultural. Pesquisas sugerem enfaticamente que o efeito da imigração sobre a renda real da população nativa e sobre a situação fiscal dos países que os recebem é pequeno e, algumas vezes, positivo”, destaca o articulista avaliando que o foco no prejuízo causado pelo comércio exterior e pela migração “é politicamente útil”, mas equivocado.

A mudança de cenário depende de um exame sobre o “próprio capitalismo rentista”. “As finanças desempenham papel central, com várias dimensões. O setor financeiro liberalizado tende a entrar em processo de metástase, como um câncer. Assim, a capacidade desse setor de criar crédito e dinheiro é o que financia suas próprias atividades, receitas e lucros (muitas vezes ilusórios)”, prossegue.

Um estudo de 2015 para o Banco de Compensações Internacionais (BIS), Stephen Cecchetti e Enisse Kharroubi concluíram que “um setor financeiro de crescimento acelerado é prejudicial ao crescimento da produtividade agregada”. Eles explicam que, quando um setor financeiro cresce rapidamente, contrata pessoas talentosas que passam então a conceder empréstimos lastreados em imóveis, porque isso gera garantias. “Isso representa uma dispersão de recursos humanos talentosos para direções improdutivas, inúteis”, completa Wolf.

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“É por isso que nenhum governo atual ousa permitir que o setor financeiro, supostamente dirigido pelo mercado, opere desassistido e sem comando. Mas isso, por sua vez, cria enormes oportunidades de ganho com a irresponsabilidade: jogando a moeda, se der cara, eles ganham; se der coroa, todos perdemos. Novas crises são inevitáveis”, ressalta. Clique aqui para ler seu artigo na íntegra.

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