Exclusivo: Imposições da UE podem fortalecer ainda mais extrema-direita italiana

"As razões que fizeram a Liga crescer estão em Bruxelas, na União Europeia, e na dificuldade do povo italiano, assim como em qualquer país da Europa", aponta professor da Itália

Berlusconi, líder do Força Itália, secando a testa de Matteo Salvini, da Liga (extrema-direita). Foto: ANSA

Jornal GGN – As imposições fiscais da União Europeia sobre os países-membros é uma das chaves para entender o fortalecimento de partidos nacionalistas à extrema-direita na Europa. É isso que aponta o professor Jacopo Paffarini.

Em entrevista ao GGN, da Itália, o doutor em Direito Público pela Università degli Studi di Perugia (Itália), e professor permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito IMED (Brasil), pondera que é muito cedo para dizer que o novo governo de centro-esquerda, anunciado recentemente, será bem sucedido. 

A Itália deve fechar 2019 em recessão. A economia do país está 10% abaixo de onde se encontrava antes da recessão de 2008 e o desemprego entre os jovens supera os 30%. 

“Uma das exigência da UE é que a déficit entre o PIB e a despesa de um país do bloco não seja superior a 3%, isso para manter a inflação sob controle. O problema é que isso prejudica a políticas de crédito e expansivas que poderiam fortalecer o mercado de trabalho e contribuir com o consumo”, pontua Paffarini.

Os partidos italianos Movimento 5 Estrelas (M5S), de Luigi de Maio, e Democrático, de Nicola Zingaretti, anunciaram nesta quinta-feira (29) um acordo para a constituição de um governo centro-esquerda, reconduzindo ao cargo o primeiro-ministro Giuseppe Conte.

A nova coalizão é apontada como uma derrota de Matteo Salvini, o líder da Liga, partido de extrema direita que, até meados de agosto, fazia parte da composição do governo italiano junto com o M5S.

O cisma entre os dois partidos – Liga e M5S – aconteceu por uma série de desacordos entre as duas siglas, que culminou na renúncia do primeiro-ministro Giuseppe Conte, no dia 20 de agosto, convidado no ano passado para assumir a liderança da coalizão por demonstrar equilíbrio. Conte é professor universitário e jurista.

Apesar de ter assumido a maior parte das cadeiras no Parlamento Italiano, nas eleições do ano passado, o M5S não havia obtido uma quantidade suficiente de representantes para compor um governo sozinho. Por essa razão, a sigla se aliou à Liga de Salvini. Os dois partidos têm em comum o discurso anti-União Europeia e também são favoráveis ao aumento de investimentos públicos para reaquecer a economia da Itália.

Já o Partido Democrático, que governou o país antes de 2018, sempre defendeu a União Europeia, portanto a submissão do país às medidas restritivas do bloco.

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Entre os desacordos que geraram a crise entre Liga e M5S está a construção da linha de trem de alta velocidade que ligará Turim, na Itália, a Lyon, na França. O partido de Salvini, apesar de anti-União Europeia, sempre defendeu a obra, considerando os interesses dos empresários italianos. Já o M5S vem se posicionando contrário ao trem, especialmente por questões ambientais, defendendo que o país deveria incentivar outros empreendimentos de infraestrutura.

O partido de Luigi de Maio tentou apresentar uma moção de oposição à obra no Senado, que foi rejeitada com o apoio da Liga. Nos últimos meses, Salvini aumentou o tom dos discursos contrários às posições do M5S, especialmente após a vitória da Liga nas eleições para o Parlamento Europeu, que passou a assumir a liderança na representação italiana no bloco com 30% dos votos, enquanto o M5S, acabou em terceiro.

Além disso, pesquisas recentes conferem ao líder da Liga mais de 36% de intenção de votos na Itália. Salvini, portanto, desejava quebrar a coalizão com o M5S para que as eleições gerais na Itália fossem antecipadas. Mas seus planos foram frustrados com o anúncio do acordo entre o partido de Luigi de Maio e o Democrático.

Por outro lado, são vários os fatores que pesam mais contra o sucesso da coalizão M5S-Partido Democrático do que os que pesavam contra a coalizão M5S-Liga, observa Paffarini. A primeira delas é que o Movimento 5 Estrelas conseguiu eleger mais parlamentares nas eleições passadas criticando o então governo, do Partido Democrático.

“A confusão que está atravessando atualmente a Itália é devido ao fato de que o Movimento 5 Estrelas escolheu dialogar com um partido que não tem uma tendência anti-europeísta. Ao contrário, o Partido Democrático, que no exterior é descrito como um partido de esquerda, e na verdade vem de uma composição de parte da esquerda com partidos de centro, da velha democracia cristã, é muito perto das posições da União Europeia”, explica o professor.

O pesquisador ressalta que o M5S participou pela primeira vez das eleições no país em 2014. “Esse partido ganhou força com as palavras transparência, luta contra corrupção, democracia digital e com a ideia de levar ao Parlamento pessoas que não representassem a velha política”, completa.

Na esteira do fraco crescimento econômico da Itália, que vem se arrastando desde 2008, o partido passou a defender a ruptura com a União Europeia, atacando diretamente as propostas impostas pelo Banco Central Europeu.

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A Liga, por sua vez, nasceu em 1991 como “Liga Norte”, um ano antes da Operação Mãos Limpas, investigação judicial de grande envergadura que inspirou a Lava Jato aqui no Brasil e levou à extinção muitos partidos políticos acusados de corrupção.

“Os primeiros líderes da Liga eram muito próximos ao partido de Silvio Berlusconi [Forza Italia]. Primeiro eles eram a favor da separação entre o Norte e Sul da Itália, por isso nasceram como ‘Liga Norte'”, conta Paffarini.

“Eles usavam palavras como ‘o pessoal do Sul da Itália não trabalha, só querem assistencialismo’ e ‘o pessoal do Norte está dando recursos e contribuindo mais'”.

Matteo Salvini foi eleito presidente do partido em setembro de 2013, adotando um discurso fortemente populista contra os imigrantes e refugiados, mas com um diferencial em relação aos líderes anteriores: ele deixou de lado o discurso separatista e passou a falar de integração da Itália em um Estado único e forte, contra a União Europeia. Desde então o partido passou a se chamar apenas “Liga”.

Jacobo Paffarini destaca que esse discurso de Salvini conquistou boa parte da população italiana, especialmente por conta da política de crédito imposta pela União Europeia.

“É uma receita econômica que, desde a fundação da UE está levando para a frente a Alemanha, primeiramente. E é sobre isso que a Liga se posicionou no quadro político Europeu, como um dos partidos de dentro do mesmo Parlamento Europeu, soberanistas e anti-austeridade”, explica o professor.

A questão, porém, é que ao mesmo tempo que a Liga defende a anti-austeridade, mostra-se também contrária ao fortalecimento das instituições democráticas na Europa. O M5S, que apresenta uma proposta de democracia direta no país, por outro lado, não tem sustentando força suficiente para atuar no Parlamento, justamente porque seus representantes são inexperientes na política.

Outro ponto explorado nos discursos de Salvini é a questão dos imigrantes. A Itália é um dos países que mais recebem refugiados por causa da costa marítima.

Antes da queda da coalizão M5S-Liga, além de vice-primeiro ministro, Salvini atuou como ministro das Relações Exteriores e chegou a impedir a entrada, na costa italiana, de barcos de outros países europeus com refugiados. Seu discurso era que se determina embarcação era de uma ONG espanhola, por exemplo, os imigrantes deveriam ir para a Espanha.

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No âmbito da União Europeia, porém, a Itália deve responder ao tratado de Dublin, segundo o qual todo imigrante que alcança o território de algum país do bloco deve ser atendido e cadastrado.

“Salvini passou a explorar o discurso que a União Europeia estava deixando a Itália sozinha na recepção dos imigrantes. Um discurso populista acertado, digamos, porque, ao mesmo tempo que o país precisa dar conta da emergência migratória, tem pouco dinheiro à disposição para receber os imigrantes, dar comida, destacar pessoal para atender nos centros de acolhidas, que mais parecem uma prisão, porque os processos acabam sendo demorados para atender o volume”, explica Jacobo Paffarini.

“Essa situação que está se verificando na Itália hoje é um alarme para a União Europeia que, junto com a situação do Reino Unido sobre o Brexit, leva à discussão de reforma dos tratados”.

“Por isso digo que as razões que levam ao crescimento da Liga estão hoje lá em Bruxelas, na União Europeia, estão nas dificuldades do povo italiano, assim como [da população] de qualquer país da Europa”, pondera o professor lembrando que todo país tem o seu Salvini.

Diante desse cenário, uma das leituras feitas por analistas políticos é que, sem a recuperação econômica e com a política de austeridade imposta pela União Europeia, a nova coalizão M5S-Partido Democrático pode não conseguir realizar um governo bem sucedido, no sentido de atender aos anseios da população italiana, resultando no fortalecimento ainda maior da Liga de Salvini.

“Esse novo governo terá que lidar com essa situação [de dificuldade de crescimento do PIB]. Então, provavelmente, terá que aumentar impostos e cortar talvez mais recursos da Saúde e Educação, porque, digamos, toda a gordura já foi cortada”, avalia Paffarini.

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1 comentário

  1. Estão ocorrendo mudanças na União Europeia que levarão à revisão das políticas restritivas do passado. Tanto o PD quanto o M5S votaram a favor da nova presidência da UE e certamente terão a vida facilitada caso formem o governo. Nesse momento de embate entre os EUA e a China, no plano comercial, e entre os EUA e a Rússia, no plano político-militar, é necessário fortalecer a União Europeia e isso passa pela derrota dos movimentos soberanistas anti-UE, como no caso da Liga de Salvini.

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