Fire in the hole: Unabomber e Breivik comandam o imaginário do novo Itamaraty, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Qualquer pessoa que comparar os delírios de Ernesto Araújo com os discursos de Celso Amorim ficará deprimido

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

No confuso discurso que proferiu há alguns dias, o Chanceler brasileiro disse que:

“In an information society, whoever controls the discourse controls the power.”

Numa sociedade da informação, quem controla o discurso realmente controla o poder?

A resposta é não. Pois, numa sociedade de informação o discurso é menos importante do que os meios tecnológicos que possibilitam a expansão do discurso ao infinito. Por isso, o poder dos donos da Google, Facebook e Windows é infinitamente maior do que aquele que é desfrutado pelos usuários dos serviços que eles garantem ao público.

Informação é poder. Mas existem outras fontes de poder que não precisam ser vistas pelo público. O poder de um bilhetinho escrito por Donald Trump contendo uma diretriz política que será escondida do público é certamente maior do que qualquer texto publicado na internet (e até mesmo do que qualquer discurso feito por Ernesto Araujo).

Dinheiro é poder. O comando de vastos exércitos mecanizados é poder. Os EUA tem poder para romper um tratado com a Rússia, mas não tem como impedir o Kremlin de reagir de uma forma agressiva. Os meios de produção da morte em escala planetária certamente supera qualquer outro poder econômico ou midiático.

Ernesto Araújo localiza o poder no discurso. Todos os meios discursivos podem deixar de existir se dois homens poderosos resolverem exercitar os músculos dos Leviatãs que comandam. Nem mesmo o Google, o Facebook e o Windows conseguirão sobreviver a catastrófica guerra nuclear que está sendo encenada na coxia por norte-americanos e russos.

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O mais interessante dessa frase, entretanto, é sua origem. O poder do discurso pressuposto tanto no Manifesto do Unabomber quanto no do terrorista Anders Breivik.

É evidente o ódio irracional que esses dois terroristas nutrem contra qualquer coisa que não espelhe suas próprias crenças. Ambos atacaram ferozmente a esquerda, o marxismo, o multiculturalismo, o globalismo, a tolerância sexual e religiosa.

Anders Behring Breivik disse “Sou um dos muitos destruidores do marxismo e, assim, um herói da Europa, salvador de nosso povo e da cristandade. Um exemplo perfeito que deveria ser copiado, aplaudido e celebrado. Saberei que fiz tudo para deter o genocídio cultural e demográfico dos europeus e reverter a islamisação da Europa.”

As palavras de Breivik ecoam as do Unabomber “Os esquerdistas tendem a odiar qualquer coisa que transmita a imagem de ser forte, bom e bem-sucedido. Eles odeiam os EUA, odeiam a civilização ocidental, odeiam os homens brancos, odeiam o que é racional.” Um pouco adiante o Unabomber afirma que “Se nossa sociedade não tivesse nenhum problema, os esquerdistas teriam que inventar problemas para conseguir armar confusão.”

Ambos rejeitam uma tese central do maquiavelismo “…um príncipe deve valorizar os grandes mas não se fazer odiar pelo povo.” (O príncipe, Maquiavel, capítulo 19, Martins Fontes, São Paulo, 2004, p. 90). Consciente de que o poder de Roma foi construído mediante a otimização política das disputas entre patrícios e plebeus, Maquiavel nunca defendeu a criação de uma sociedade sem classes. Muito pelo contrário, ele sugere que o príncipe deve se equilibrar entre os poderosos e o povo preservando virtuosamente o conflito entre essas duas classes.

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Ao que parece, a existência de conflitos políticos/econômicos/sociais/religiosos/sexuai incomodam demais psicopatas como o Unabomber e Anders Breivik. Ambos sonham com uma sociedade forte, una e uniforme. A utilização da violência para purgar as diferenças (sejam ela verdadeiras ou imaginadas pelos esquerdistas e/ou infiéis) seria, portanto, recomendável.

É possível encontrar as sementes do ódio irracional desses dois terroristas famosos nas palavras de Ernesto Araujo “In general we can say that globalism is what came to be the amalgam of the globalized economy with cultural marxism infliltrated in the institutions. So, basically, economic globalization hijacked by cultural marxism.” Ele faz questão de demonizar o governo de esquerda da Venezuela “…we can say that 21st century socialism is basically that: gramscianism meets the drug cartels…” omitindo as relações notórias entre os paramilitares de extrema-direita colombiana e o tráfico internacional de drogas. O tráfico de drogas promovido pela CIA é um fato que também não consegue entrar na ideologia do chanceler brasileiro.

Unabomber e Breivik rejeitam a globalização. Na globalização imaginada por Ernesto Araújo todo espaço internacional deve ser ocupado por outra ideologia “…in Brazil, in the US, people fight for something else than the economy, something else than just getting rid of corruption.” A rejeição de uma classe social (de uma ideologia ou de outra religião) não a faz desaparecer da sociedade, nem a pacifica. Um Estado que se recusa a reconhecer o poder dos outros Estados de definir como bem entenderem suas relações comerciais internacionais só conseguirá uma coisa: ser excluído do concerto das nações.

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O poder não se localiza no discurso, nem precisa se expressar através dele. Mas desde o tempo em que Maquiavel cumpria missões diplomáticas a serviço de sua amada república florentina o discurso tem uma virtude: ele pode construir ou destruir as realidades que ainda estão sendo imaginadas pelos diplomatas.

Nós já sabemos qual é a realidade que incomoda o chanceler brasileiro. Se essa realidade existe ou não apenas como uma paranoia de Ernesto Araújo é uma outra questão (sobre isso seria preciso escrever outro artigo). Qual é a realidade Ernesto ‘Unabomber Breivik’ Araujo pretende criar? Isso nós ficaremos sabendo quando ele começar a explodir bombas para realizar seus delírios ideológicos anticomunistas.

Qualquer pessoa que comparar os delírios de Ernesto Araújo com os discursos de Celso Amorim ficará deprimido. O Itamaraty era um prédio anexo do Olimpo, conduzido com elegância por um diplomata extremamente pragmático que colocava o foco de sua atuação nas vantagens comerciais e econômicas que seriam obtidas pelo Brasil. Em pouco tempo ele se tornou um puxadinho do Inferno conduzido por um homem que coloca a ideologia na frente da economia e que enxerga um mundo povoado por demônios que precisam ser exorcizados à qualquer custo.

Os prejuízos que essa diplomacia está causando aos negócios brasileiros certamente não deixarão de ser percebidos pelos capitalistas brasileiros, eu suponho.

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