Guedes ameaça deputados e diz que ‘eles podem acabar parando lá no Sérgio Moro’

Segundo ministro da Economia, métodos tradicionais seriam responsáveis por levar deputados e senadores à Justiça; cientista político aponta falha nesse tipo de raciocínio

Ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Jornal GGN – O ministro da Economia, Paulo Guedes, protagonizou mais uma situação incômoda entre o Executivo e o Legislativo. Segundo apuração do jornal O Globo, durante uma reunião do presidente Jair Bolsonaro com o governador de Roraima, Antônio Denarium (PSL), o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) e deputados daquele estado, em um determinado momento em que falavam sobre a negociação de cargos cedidos em negociação com o governo Guedes soltou que eles “iam acabar parando lá no Sérgio Moro”.

O jornal conta que confirmou o relato com três parlamentares que estavam na reunião que aconteceu na segunda-feira (22). O encontro foi promovido para debater assuntos fundiários do Estado e o projeto de um linhão para tirar a dependência de Roraima da energia comprada da Venezuela.

No desenrolar da discussão, surgiu a dúvida sobre a nomeação do superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. O governador falou que já tinha um acordo sobre o indicado, mas o deputado Hiran Gonçalves (PP-RR), coordenador de bancada, interrompeu explicando que na realidade ainda não tinham fechado um entendimento.

“Foi aí que Paulo Guedes, que tinha chegado na reunião já no meio fez a crítica aos parlamentares. O ministro disse que os deputados se elegem no primeiro mandato com uma visão idealista e com o tempo acabam entrando nos métodos tradicionais da política. Concluiu dizendo que quando continuam nessas negociações de cargos acabam avalizando pessoas que cometem delitos e eles próprios iam “acabar parando lá no Sérgio Moro”, em uma clara referência aos crimes investigados na Lava-Jato pelo hoje ministro da Justiça”, escreveram os repórteres Eduardo Bresciani e Bruno Góes, do O Globo.

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Ainda segundo o jornal, logo após a fala de Guedes, o deputado e líder do PRB, Johnatan de Jesus (RR) teve que explicar para o ministro que o governo não executa o poder sozinho e, ainda, que deveria parar de achar que somente o Planalto tem competência para escolher os nomes para funções e cargos. Ele arrematou que a construção política acontece com os demais poderes, e isso inclui a ocupação de cargos importantes nos estados.

Ao perceber a saia justa, Guedes se desculpou dizendo que não teve intenção de ofender.

Em março, o GGN divulgou trechos da análise do professor aposentado da USP e docente na escola de economia da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Limongi, divulgadas em um artigo na Folha de S.Paulo, explicando que ao negar a necessidade de acordo com os partidos no Congresso, Bolsonaro e seu governo põe em risco a própria governabilidade.

“Não há relação necessária entre governo de coalizão e corrupção. Não há dúvidas de que, no Brasil, as duas coisas conviveram no passado recente, mas daí a concluir que uma coisa leva à outra é a mais pura bobagem. A relação está longe de ser causal. Há corrupção sem o tal do presidencialismo de coalizão”, pontuou Limongi.

O professor destacou ainda que esse não é um fenômeno puramente brasileiro. “Em um grande número de países não se escapa da necessidade de partilhar o poder”.

“Toda e qualquer proposta legislativa do presidente precisa ser aprovada por uma maioria. Se o partido do presidente não controla a maioria das cadeiras, tem que conseguir apoio de parlamentares dos demais partidos”.

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No início de março, após perceber que a retórica de atacar o jogo de forças com o poder Legislativo estava sendo um dos fatores que paralisaram o desempenho do governo nos primeiros três meses, o governo, na figura do vice-presidente Hailton Mourão, admitiu à imprensa que poderia oferecer aos partidos políticos cargos em órgãos federais nos estados ou nos ministérios.

“No momento em que esses partidos estejam concordando com o que o governo pretende fazer, é óbvio que terão algum tipo de participação, seja cargos nos estados ou em algum ministério, isso é decisão do presidente”, disse segundo informações da Agência Brasil.

2 comentários

  1. A frase de Limongi é incrivel, pois deixa bem claro o que todos sempre souberam

    “Não há relação necessária entre governo de coalizão e corrupção. Não há dúvidas de que, no Brasil, as duas coisas conviveram no passado recente, mas daí a concluir que uma coisa leva à outra é a mais pura bobagem. A relação está longe de ser causal. ”

    Mas que usaram para criminalizar a política quando era conveniente. E usaram isto como mote eleitoral. Tem dito que defendem a nova política, e agora querem passar um verniz escondendo que tudo esta pior do que antes, pois não se atende a partidos, mas sim a amigos. Hoje tem na camara um partido que é formado por bancadas lobbyistas. A bancada do agro negocio, da bala e da bíblia. Cada uma delas defendendo interesses próprios, e esta é a coalizao. Será que evoluimos ou involuimos?

  2. O canal do Bob Fernandes publicou um vídeo com entrevista com a professora do instituto de economia da UniCamp, Simone Deos e depois ela fazendo algumas perguntas ao professor Randall Wray, um dos principais estudiosos da (MMT) Teoria da Moeda Moderna que preconiza entre outras coisas a questão do pleno emprego e que os ajudou a preverem cenas que levaram à crise de 2007/8. Dinheiro foi criação do estado e não parece ser funcional o mercado geri-lo.

    Simone Deos ouve Randall Wray: Nova Teoria Econômica cresce no Partido Democrata e nos EUA

    https://www.youtube.com/watch?v=mus7GUOhjvw

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