Há 33 anos, americanos que vieram ao Brasil explorar a escravidão são exaltados

Pelo menos 100 grupos da sociedade civil brasileira já assinaram manifesto criticando o uso de “símbolos que exaltam a supremacia branca” em evento organizado em São Paulo por descendentes de confederados

Foto: Jordan Brasher

Jornal GGN – Na mesma semana em que o presidente Jair Bolsonaro afirmou em entrevista à Luciana Gimenez que o racismo no Brasil é “uma coisa rara”, o portal The Conversation publica um artigo assinado pelo pesquisador Jordan Brasher, que há anos estuda a relação de uma comunidade ao sul de São Paulo com a memória de americanos que deixaram os Estados Unidos para explorar a escravidão em solo tupiniquim, logo após a Guerra Civil.

Há 33 anos, descendentes dos confederados promovem em Santa Bárbara d’Oeste a chamada “Festa Confederada”, que Brasher registrou na foto acima.

De dois anos para cá, movimentos negros passaram a entrar em contato com a organização e pedir que o símbolo dos confederados – a bandeira sulista que remete à escravidão e derramamento de sangue – seja abandonado. Os organizadores não cederam, e os movimentos passaram a protestar na porta do cemitério que recebe a festa anualmente.

Segundo o autor, há evidências históricas, inclusive apresentadas por pesquisadores brasileiros, de que confederados (não há dados precisos sobre quantos deles) vieram ao Brasil após a Guerra Civil de olho no mercado escravagista. Aqui, adquiriram negros por um preço menor do que nos Estados Unidos (que aboliu a escravidão duas décadas antes do Brasil).

Em defesa da causa, os brasileiros descendentes dos confederados argumentam que a Guerra de Secessão não tinha no centro do debate o escravagismo defendido pelos países sulistas contra o norte industrializado, mas ideais liberais. Além disso, afirmam que o atrativo do Brasil, à época, era a promessa de vantagens para os americanos do negócio agrário que aqui se instalassem com as tecnologias da época.

Para Brasher, a festa é controversa por esses motivos. O que não é controverso, contrariando a visão de Bolsonaro, é que o “racismo é um problema social persistente no Brasil multicultural, onde cerca de metade da população é de ascendência africana. Os brasileiros brancos, em média, ganham o dobro dos negros brasileiros, e dois terços de todos os prisioneiros são negros.”

O GGN reproduz o artigo completo contando a história da Festa Confederado abaixo.

Por Jordan Brasher

No The Conversation

O longo e estranho caso de amor do Brasil com a Confederação inflama a tensão racial

O aroma de frango frito e biscoitos despertou meu apetite enquanto os sons country de Alison Krauss, Alan Jackson e Johnny Cash tocavam nos alto-falantes.

Esta poderia ter sido uma feira de condado perto de casa, no Tennessee, mas não foi. Eu estava em um cemitério no interior do Brasil, na “ Festa Confederada ” – uma festa anual do patrimônio sul dos EUA, realizada todo mês de abril em Santa Bárbara d’Oeste, no estado de São Paulo.

Uma placa explicando “O que a bandeira confederada realmente significa” em inglês e português recebeu os cerca de 2.500 visitantes – a maioria deles brancos – na entrada do Cemitério Americano. No interior, as mulheres que usavam saias de aro estilo Antebellum dançavam com homens vestidos de uniformes confederados cinzentos.

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Nos arredores do cemitério havia ativistas negros protestando contra a festa do dia 28 de abril com placas e faixas dizendo: “Abaixo a bandeira da Confederação”.

Como um debate americano sobre o racismo chegou ao Brasil? Essa é uma questão emaranhada que eu estou desvendando na minha pesquisa de dissertação sobre a história e o significado dos símbolos da Confederação no Brasil.

A Confederação chega ao Brasil

O Brasil tem um longo e estranho relacionamento com a Confederação dos Estados Unidos.

Depois que a Guerra Civil terminou em 1865, acabando com a escravidão nos Estados Unidos, cerca de 8.000 a 10.000 soldados do sul e suas famílias deixaram a Confederação vencida e foram para o Brasil.

Lá, a escravidão ainda era legal. Aproximadamente 40% dos quase 11 milhões de africanos trazidos à força pelo Atlântico entre 1517 e 1867 foram trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar no Brasil. Foi o último país do hemisfério ocidental a abolir formalmente a escravidão, em 1888 – 23 anos depois dos Estados Unidos.

A escravidão legal pode ter sido um atrativo para os soldados confederados que migraram para o Brasil após a abolição.

O economista político brasileiro Célio Antonio Alcântara Silva analisou cartas enviadas a consulados e vice-consulados brasileiros nos Estados Unidos no final da Guerra Civil e descobriu que 74% dos sulistas que perguntavam sobre emigração eram donos de escravos.

Naquela época, 25% dos lares brancos do sul possuíam escravos. Isso significa que as pessoas interessadas em se mudar para o Brasil na década de 1860 representavam desproporcionalmente uma fatia relativamente pequena de escravos da população do sul livre.

Como o número exato de famílias confederadas que migraram para o Brasil é desconhecido, é impossível afirmar com certeza quantos ingressaram novamente ao tráfico de escravos na chegada. A pesquisa de Silva encontra registros de 54 famílias confederadas que adquiriram, no total, 536 africanos escravizados no Brasil.

A historiadora brasileira Luciana da Cruz Brito também encontrou evidências nos jornais Confederados de 150 anos de idade que ela descobriu que a escravidão atraiu sulistas brancos para o Brasil.

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Em um deles, um norte-americano chamado Charles Gunter escreveu sobre seu desejo de comprar escravos no Brasil a um preço menor do que ele poderia nos EUA. Outro confederado, James Gaston, expressou desapontamento por não poder trazer afro-americanos recém-libertados para o Brasil.

Experiência Rural

Apesar desses registros históricos, muitos descendentes dos Confederados contestam que a escravidão trouxe seus antepassados ​​para o Brasil.

Já na década de 1860, o Brasil estava recrutando ativamente proprietários de plantações da América do Sul, parte de uma política de imigração que visava atrair europeus, europeus-americanos e outros migrantes “brancos”. Segundo os historiadores Cyrus e James Dawsey, que nasceram e cresceram perto de comunidades confederadas em São Paulo, o imperador brasileiro Dom Pedro II também prometeu terras baratas a qualquer agricultor americano que viesse com um arado – uma tecnologia que o Brasil carecia.

De qualquer forma, milhares de sulistas brancos fizeram do Brasil seu novo lar depois da Guerra Civil. No estado de São Paulo, eles estabeleceram uma comunidade um tanto fechada e culturalmente homogênea que manteve suas tradições do sul por gerações.

Os confederados do Brasil continuaram a falar inglês e a praticar suas crenças batistas, metodistas e presbiterianas, introduzindo o protestantismo no país católico.

Até hoje, muitos descendentes do Confederado ainda descrevem a Guerra Civil como a “Guerra da Secessão” – um dos nomes originais do sul.

E, desde 1986, no Cemitério Americano, onde seus ancestrais foram enterrados – como protestantes, foram impedidos de serem sepultados ao lado de católicos – a Fraternidade de Descendentes Americanos realizou uma celebração anual de baixo perfil de sua herança sulista.

Racismo e o legado de Charlottesville no Brasil

Por três décadas, a Festa Confederada do Brasil foi relativamente incontroverso.

Isso mudou depois dos eventos em Charlottesville, Virgínia, em agosto de 2017, quando uma manifestante anti-racista Heather Heyer foi assassinada por um supremacista branco na marcha “Unite the Right”, protestando contra a remoção planejada de uma estátua do general confederado Robert E. Lee.

O racismo é um problema social persistente no Brasil multicultural, onde cerca de metade da população é de ascendência africana. Os brasileiros brancos, em média, ganham o dobro dos negros brasileiros, e dois terços de todos os prisioneiros são negros.

Esforços desde 2010 para estabelecer cotas raciais para admissões em universidades e empregos no governo têm sido controversos. Em um país onde as pessoas usam dezenas de categorias para identificar sua raça, as alegações de fraude e as perguntas sobre quem é e quem não é negro afetaram o sistema de ação afirmativa.

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Um mês depois da violência em Charlottesville, ativistas negros em São Paulo organizaram um debate público com a Fraternidade de Descendentes Americanos, que organiza a Festa Confederada anualmente. Os ativistas queriam discutir a adoção dos símbolos da Confederação.

“Você pode deixar a bandeira para trás”, disse a professora Claúdia Monteiro da UNEGRO, uma organização membro do Movimento Nacional Unificado Negro do Brasil . “Pessoas negras não podem. O estigma [representa] está na cor da nossa pele.”

A Fraternidade dos Descendentes Americanos insiste que seu grupo não representa o racismo. Em um boletim de 2018, a organização declarou que “não discrimina com base em raça, sexo, cor, idade, religião ou qualquer outra base”.

Marcelo Dodson, ex-presidente da Fraternidade de Descendentes Americanos, disse no debate de 2017 que a Guerra Civil foi uma batalha não pela escravidão, mas pelo governo pequeno, impostos baixos, comércio livre e direitos dos estados – uma posição que muitos defensores americanos da “causa perdida” da Confederação também defendem.

A cultura confederada vive

O diálogo de 2017 entre ativistas negros e confederados, que foi filmado e postado no YouTube, não resolveu seu desacordo .

No ano passado, os visitantes da Festa Confederada foram recebidos por manifestantes que disseram que a bandeira confederada era um símbolo de opressão.

Este ano, ativistas negros do lado de fora do cemitério de Santa Bárbara d’Oeste transmitiram a mesma mensagem, dizendo que “muito sangue” foi derramado sob os auspícios da bandeira da Confederação. Eles também tocaram bateria e praticaram a capoeira, uma dança afro-brasileira e uma forma de arte marcial, em uma exibição das profundas raízes africanas do Brasil.

Uma semana depois da Festa Confederada, pelo menos 100 grupos da sociedade civil de todo o país assinaram um manifesto criticando o uso do evento de “símbolos que elevam a supremacia branca” – um sinal da crescente consciência brasileira sobre a complicada e controversa história da Confederação Americana.

Jordan Brasher é membro da Associação Americana de Geógrafos.

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5 comentários

    • Prezado senhor,
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  1. Inúmeros descendentes de imigrantes festejam suas raízes Brasil afora. Os dos confederados estão apenas fazendo isso, nada mais. Aí aparece um sujeito de uma “entidade” qualquer e, baseando-se em relações da festa com o racismo que só existem em sua cabeça, quer determinar o que o pessoal pode fazer ou não. É muita prepotência. Depois se espantam que candidatos que prometem acabar com os abusos dessa gente arrogante acabem eleitos.

  2. É muita artificialidade.

    Caipira é cultura (Salve Rolando Boldrin! Viva Inezita Barroso!), “country”, simulacro posudo;
    Negro tá virando “nigger”…

    “Nós canto-falamos como negros que sofrem horrores no Harlem…”
    Caetano in “Língua”

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