História do golpe em Temer é digna de roteiro da Disney, diz Limongi

Foto: F. Cavalcanti
 
 
Jornal GGN – Nem a defesa de Michel Temer, nem o relator da denúncia contra o presidente na Câmara dos Deputados conseguem explicar porque supostamente Rodrigo Janot em conluio com os criminosos da JBS tentaram dar um “golpe” e tirar o peemedebista do poder. E isso ocorre porque a história de golpe em Temer é digna de quem viajou a Disney e ainda está vivendo no “mundo maravilhoso” recheado de fantasias. É o que diz Fernando Limongi, em artigo no Valor, nesta segunda (16).
 
Segundo o cientista político e professor da USP, embora o argumento do golpe seja o principal na defesa de Temer, seus advogados não conseguem criar uma narrativa plausível para sustentá-lo. Dizem que sob Janot, a Procuradoria quis dar o golpe na Presidência porque têm um “denuncismo” exarcebado nas veias.
 
Para Limongi, a desculpa do deputado Bonifácio Andrada é menos pior: ele diz que o golpe foi projetado porque, com a Constituição de 1988, os demais Poderes passaram a ter tanto peso quanto a Presidência. Inclusive o Judiciário, que vem abusando dessa premissa, afirmou Bonifácio.
 
“O golpe contra Temer, portanto, só pode ser explicado apelando para uma verdadeira loucura que teria se apossado de Janot e sua equipe. Querem destruir Temer e as instituições têm como objetivo proteger o investimento que o Valor faz na qualidade de seu jornalismo”, diz Limongi.
 
“(…) Até o momento, o presidente e seus apoiadores se mostraram incapazes de prover razões que justificariam o ataque de que se dizem vítimas. Na falta de evidências, rotulam de insanos e de conspiradores irresponsáveis os que os acusam.”
 
Por Fernando Limongi
 
No valor
 
E Temer gritou golpe
 
O deputado Bonifácio Andrada sentiu o peso da responsabilidade. Para escrever seu voto, contou com auxílio de dois netos. Um deles, o mais jovem, do alto de seus 28 anos, extasiado com a possibilidade de participar de um ‘momento histórico’, declarou que se sentia “como se tivesse ganhado um prêmio, uma viagem para a Disney”. A referência é útil para ler a produção familiar, salpicada com passagens que só podem ter sido colhidas no ‘mundo maravilhoso’ de Disney.
 
A defesa formal do presidente Michel Temer, a cargo do advogado Eduardo Pizarro Carnelós, traz em epígrafe passagem de Gabriel Garcia Marquez. A referência serve como um alerta para o leitor: o ‘realismo fantástico’ influenciou o autor do texto a ser lido.
 
A falta de compromisso com a realidade caracteriza os dois documentos. Segundo o deputado mineiro, “a denúncia pretende criminalizar as práticas que são, na realidade, simples exercício da vida política partidária”. A afirmação é repetida diversas vezes ao longo do relatório. O advogado do presidente, não menos repetitivo, é mais veemente: “O que se vê é a imputação de prática de crime pelo simples exercício da atividade política, como se esta pudesse existir sem acordos partidários”.
 
A ironia não poderia ser mais completa. Temer se vale dos argumentos mobilizados pelo PT. Bonifácio Andrada nota a similaridade e chega mesmo a estender a bandeira branca da concórdia. “Não encontramos, para que represente algo de maior monta, qualquer espécie de comprovação de acusações, neste processo contra os dois ex-presidentes [Lula e Dilma] e às lideranças dos partidos mencionados”, escreveu o parlamentar nas conclusões de seu relatório.
 
A recaída no discurso petista pré-impeachment é completa. Eduardo Carnelós, ao entregar a defesa de seu cliente à CCJ, distribuiu nota à imprensa onde afirma que “o golpe que visava à deposição do presidente precisa ser novamente frustrado. O país necessita voltar à normalidade e seguir seu curso”. Golpe? Deposição do presidente? O advogado parece desconhecer o uso feito pelo PT dos termos que emprega. Sem se dar conta das consequências políticas de suas afirmações, o advogado sustenta que existiriam forças políticas interessadas em depor Michel Temer.
 
O PT, todos sabem, chamou de golpe a deposição de Dilma. O PT, todos sabem, diz que ocorreu uma ruptura institucional com um objetivo claro: deter a inclusão social que o partido estaria promovendo. A criminalização da política seria o véu sobre o qual agiriam forças reacionárias.
 
No caso de Temer, o argumento, paradoxalmente, se repete. Mas quem estaria por detrás desta operação maquiavélica para, por meio da ‘criminalização da atividade política’, derrubar Temer? Quem quer fazê-lo? Cui bono?
 
Na história contada por Carnelós, os vilões são os irmãos Batista e o ex-procurador-geral da República. Ao descrever métodos e objetivos dos empresários, o advogado não economiza tintas: “Em sua busca frenética por comprometer Temer, os espertos empresários acabaram por gravar suas próprias conversas, as quais exalam o fétido odor das patranhas a que se dedicaram com afinco em sua busca por impunidade pela qual se propuseram pagar acusando de forma vil o presidente da República”.
 
Os motivos dos irmãos Batista, portanto, seriam claros: fariam qualquer negócio para obter a impunidade. Entretanto, ao desclassificar os empresários, o advogado abre um flanco à acusação. Se os empresários exalam odores fétidos, como eles não foram sentidos pelo presidente? Como explicar a proximidade de Temer com estas figuras tão baixas? Obviamente, o realismo que guia a reconstituição do advogado poderia prescindir destes fatos. Importa estabelecer o fantástico, que Temer de nada sabia e que foi surpreendido pelo acordo vil entre a J&F e o MPF.
 
Nesta história, portanto, o verdadeiro vilão, seria o MPF comandado por Rodrigo Janot. Mas o que moveria Janot e seu time? O que eles têm a ganhar com o golpe? Os irmãos Batista fariam qualquer coisa para escapar da cadeia, inclusive patrocinar mais um golpe, traindo os velhos amigos. Mas, e o Ministério Público, o que ganharia depondo Temer?
 
Carnelós só consegue encontrar uma motivação: “a ânsia de acusar”, um “ímpeto acusatório”, uma “insana tentativa de golpear as instituições por meio da deposição do presidente da República”. Janot, em uma palavra, seria movido por “ímpeto golpista” dirigido especificamente contra Temer, “cuja deposição ele almejava ardentemente”.
 
O golpe contra Temer, portanto, só pode ser explicado apelando para uma verdadeira loucura que teria se apossado de Janot e sua equipe. Querem destruir Temer e as instituições.
 
Bonifácio Andrada busca uma saída menos fantástica, mas mais honrosa. O problema não estaria nas pessoas, mas nas instituições. “A máquina administrativa hoje não funciona sob a influência maior do presidente, mas sim, de outras instituições poderosas que a Constituição de 1988 projetou na vida pública do país, como o Ministério Público, a Polícia Federal e os excessos, no nosso entender, data vênia, de competências dadas ao Judiciário, inclusive ao Supremo Tribunal Federal”. A acusação contra Temer seria o produto da diminuição da “influência institucional” da Presidência República, um resultado da autonomia que a Carta de 1988 conferiu aos demais poderes.
 
Temer se diz vítima de um golpe, mas não se sabe ao certo o que moveria os golpistas. Até o momento, o presidente e seus apoiadores se mostraram incapazes de prover razões que justificariam o ataque de que se dizem vítimas. Na falta de evidências, rotulam de insanos e de conspiradores irresponsáveis os que os acusam.
 
Fernando Limongi é professor do DCP/USP e pesquisador do Cebrap.
4 Comentários

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Luis Fraga

- 2017-10-17 03:52:57

Sem paciência...

Não tenho mais paciência para ler coisas tais as que este jornal SEM VALOR publica. Tem o vício da Globo:

"O PT, todos sabem, chamou de golpe a deposição de Dilma. O PT, todos sabem, diz que ocorreu uma ruptura institucional com um objetivo claro: deter a inclusão social que o partido estaria promovendo. A criminalização da política seria o véu sobre o qual agiriam forças reacionárias."

Ora, vai te catar "jornalista". O PT chamou?

Schell

- 2017-10-16 19:25:46

Quanto a fugir, li, semana

Quanto a fugir, li, semana passada, que o temerista-GOLPISTA-ladrão teria de passar .por cateterismo ou joça parecida. Para tanto, tal o figueiredo-minúsculo, teria de se bandear ao estates (e tirar os sapatos pra lá entrar), já que o sus ele desmanchou e os outros hospitais seriam capazes de vazar seu exato estado de saúva. Daí a declarar vago o cargo, o botafogo seria breve e rápido, como gol contra. Afinal, as instituições brasileiras estão mais afirmadas que mourão em banhado, desde sempre, coberto de excrementos atucanados-judiciariamente. Haja saco.

mcn

- 2017-10-16 19:12:44

Golpe com ele, Golpe sem ele

Temer e sua quadrilha deram o Golpe em Dilma. Arrebentaram o país de tanto roubar. Agora estão perdendo terreno para outras facções.

Maia já deixou claro que agora o preço no balcão para salvá-lo subiu. Tucanos avisaram que cassar Aécio é traição. E o preço sobe.

Pode ser que Temer fuja do país nas próximas horas ou dias, alegando problemas de saúde. É o jogo do perde-perde. Ninguém ganha, todos perdemos. O Golpe não compensa pra quem dá, nem pra quem leva.

Boeotorum Brasiliensis

- 2017-10-16 17:56:47

Não resisto ao trocadilho óbvio

Quem com golpe fere...

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