Milícias digitais e a ideologia dos algoritmos

No livro Os engenheiros do caos, Giuliano da Empoli aponta: a “cólera social” é a matéria-prima das redes de fake news. Elas mapeiam medos e manipulam anseios antissistêmicos. Para combatê-la, será necessário compreender suas engrenagens

Por Cristiane Ganaka

Em Outras Palavras

Nota ao leitor: o texto a seguir é um meio do caminho entre uma resenha e um artigo baseado na introdução do livro “Os engenheiros do caos: como as fakes news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”, de Giuliano da Empoli. Independente da forma, o intuito aqui é instigar a leitura desse livro que chegou em meados de dezembro no Brasil e entrou nas listas de livros do ano. Um convite à reflexão de uma possível nova forma de fazer política.

Desde a Idade Média, o Carnaval é o espaço em que as hierarquias instituídas são temporariamente suspensas. Nessa atmosfera, insanos tornam-se sábios e a realidade e fantasia se confundem. Não é de se estranhar que a linha entre a dimensão lúdica e a política no carnaval seja tênue, por essência. Prova disso são os episódios ao longo da história em que a celebração virou revolta, “sempre que a multidão não se contentou em destituir [momentaneamente] os poderosos para rir”, como bem destaca o italiano Giuliano da Empoli, em seu livro Os Engenheiros do Caos. Tampouco surpreende que a festa tenha sido abolida, em determinados períodos.

No Carnaval, não há lugar para espectadores. Todos juntos celebram o mundo ao contrário; o fato de nada ser descabido contribui para a derrubada da ordem vigente e sua substituição por alguma dimensão mais libertaria. “O Carnaval produz, naquele que dele participa, uma intensa sensação de plenitude e de renascimento – o sentimento de pertencer a um corpo coletivo. De espectador, cada um se torna ator, sem nenhuma distinção”, define o autor.

Como observa o escritor alemão Goethe, trata-se de uma “festa que o povo oferece a si mesmo”, e conta com um potencial subversivo e emancipatório. Parece que a mística que envolve a celebração pode ser cooptada por figuras que se aproveitam da momentânea igualdade para se apresentar como antissistêmicos a fim de alçar ao poder.

Com essa analogia, o livro Os Engenheiros do Caos caracteriza o atual momento com o que chama de “carnaval populista1“, em que há uma subversão do que antes era considerado apropriado e razoável pelo ódio e escárnio. O bloco desvairado da direita extremista, furiosa e intolerante a coexistência diversa, toma as ruas. Essa troça (para usar um termo carnavalesco) política tem raízes no ressentimento e insatisfação entranhados nas camadas médias e populares. Diz respeito à vida precária que flerta com a insolvência. Mas também da sensação de insegurança que ronda como quisesse nos tirar para dançar. Até parece ser possível ouvir ao fundo “Ecos do ão”, de Lenine, quando diz que “nós temos planos, e eles são: o fim da fome e da difamação. Por que não pô-los logo em ação?” O som de altos níveis de estresse e ansiedade, com doses de desespero e depressão, preenche o espaço.

“Pra transcender a densa dimensão
Da mágoa imensa então, somente então
Passar além da dor da condição
De inferno e céu nossa contradição
Nós temos que fazer com precisão
Entre o projeto e sonho, a distinção
Para sonhar enfim sem ilusão
O sonho luminoso da razão”
Ecos do ão

De um lado, uma massa desesperançosa que não pode mais esperar e almeja mudanças disruptivas. Assediadas por plataformas que estão a todo momento nos convidando a opinar e dando resposta antes mesmo de terminarmos de elaborar nossos desejos. Do outro, figuras inconsequentes que captam esse desejo genuíno tentam geri-los e gerá-los; na maioria das vezes sem apresentar soluções reais, apenas alimentando e reforçando as sensações de desconforto. Em qualquer lugar do globo, “o crescimento dos populismos tomou a forma de uma dança frenética que atropela e vira ao avesso todas as regras estabelecidas”. Os erros, a inexperiência, a incompetência, as tensões internacionais e as fakes news desses líderes são vistas como qualidades pelos eleitores, comprovam que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites políticas, que são autênticos, independentes e tem liberdade de se expressarem.

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Seu comportamento é resultado da aplicação do modo de operar do Facebook e do Google. “É naturalmente populista, pois, como as redes sociais, não suporta nenhum tipo de intermediação e situa todo mundo no mesmo plano, com um só parâmetro de avaliação: os likes”. É uma ação sem comprometimento com o conteúdo e a coerência porque, como nas redes sociais em sua aparente horizontalidade, só há um objetivo: manter o engajamento constante. Eles não são apenas hipócritas, que falam de um jeito e agem de outro, são cínicos que vivem a própria contradição performativa, nas palavras de Vladimir Safatle.

Porém, por trás do carnaval populista supostamente espontâneo, há o trabalho de spin doctors, ideólogos e, cada vez mais, cientistas de dados, sem os quais os líderes do novo populismo jamais teriam chegado ao poder. Este livro conta a história deles. É a história de Gianroberto Casaleggio, um especialista em marketing que funda o Movimento 5 Estrelas na Itália; de Dominic Cummings, diretor da campanha do Brexit. “É a história de Steve Bannon, o homem-orquestra do populismo americano, que, depois de conduzir Donald Trump à vitória, sonha, hoje, fundar uma Internacional Populista para combater aquilo que ele chama de o partido de Davos das elites globais”. A eles o autor denomina os engenheiros do caos, que criam o “tecnopopulismo pósideológico” baseado não em ideias, mas em algoritmos.

“ […] o algoritmo das redes sociais é programado para oferecer ao usuário qualquer conteúdo capaz de atraí-lo com maior frequência e por mais tempo à plataforma, o algoritmo dos engenheiros do caos os força a sustentar não importa que posição, razoável ou absurda, realista ou intergaláctica, desde que ela intercepte as aspirações e os medos – principalmente os medos – dos eleitores. O jogo não consiste mais em unir as pessoas em torno de um denominador comum, mas, ao contrário, em inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los, mesmo à revelia. Para conquistar uma maioria, eles não vão convergir para o centro, e sim unir-se aos extremos. Cultivando a cólera de cada um sem se preocupar com a coerência do coletivo, o algoritmo dos engenheiros do caos dilui as antigas barreiras ideológicas e rearticula o conflito político tendo como base uma simples oposição entre o povo e as elites”.

Na retaguarda do aparente absurdo das fake news, oculta-se uma lógica bastante sólida. Da ótica desses líderes, suas verdades criadas são mais que um simples instrumento de agitação e propagandas, elas constituem um vetor de coesão. Esse ponto do livro parece convergir com a ideia de “autoverdade” defendida pela jornalista Eliane Brum, cujo valor está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer; a ideia de pós-verdade não é suficiente para explicar o modo como esses seguidores (para usar um termo das redes sociais) leem o mundo.

“O líder de um movimento que agregue as fakes news à construção de sua própria visão de mundo se destaca da manada dos comuns. Não é um burocrata pragmático e fatalista como os outros, mas um homem de ação, que constrói sua própria realidade para responder aos anseios de seus discípulos. Na prática, para os adeptos dos populistas, a verdade dos fatos, tomados um a um, não conta. O que é verdadeiro é a mensagem no seu conjunto, que corresponde a seus sentimentos e suas sensações. Diante disso, é inútil acumular dados e correções, se a visão do conjunto dos políticos e dos partidos tradicionais continua a ser percebida por um número crescente de eleitores como pouco pertinentes em relação à realidade”.

O carnaval contemporâneo se estrutura sobre dois aspectos racionais: a cólera que tem raiz nas causas sociais e econômicas concretas (consequências da forma que o sistema capitalista neoliberal opera); e uma máquina potente de comunicação, concebida em sua origem para fins comerciais, mas que compreendeu que as emoções e sensações são peças fundamentais para mobilização. O que fazem os engenheiros do caos e os líderes desses novos movimentos é gerir cólera social através desse instrumento de comunicação para fins políticos. O autor está certo de que o avanço da internet e a expansão das redes sociais mudaram a forma de fazer política e interagir na sociedade, e está colocando em xeque a democracia liberal representativa.

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Giuliano termina a introdução dizendo que para combater a “grande onda populista” é preciso compreendê-la e não se limitar a condená-la. Nos capítulos seguintes – com nomes instigantes, diga-se de passagem: O vale do silício do populismo; A Netflix da política; Waldo conquista do planeta; Troll, o chefe; Um estranho casal em Budapeste – ele destrincha casos reais com especial destaque para os EUA, a Hungria e o Brexit, além da própria Itália, mas sem deixar passar pelos casos mais emblemáticos como o brasileiro e o indiano, ou até mesmo os coletes amarelos na França.

Antes de concluir o livro, Empoli faz uma última analogia didática entre a física e aplicação dos algoritmos na política, para explicar como o jogo está se dando. Além disso, é interessante acompanhar a digressão do conceito de cólera social feita pelo autor. As notas bibliográficas são um ótimo repositório para aprofundar os conceitos que Empoli apresenta ou cunha durante todo o livro; as notas de tradução também são igualmente pertinentes e mostram o cuidado da tradução da obra. Esses dois apêndices seriam um bônus para destrinchar o conteúdo abordado. Enfim, Giuliano da Empoli apresenta sua forma de ler o momento que ainda estamos atravessando e levanta elementos empíricos para suportá-la.

Espero que esse ensaio tenha despertado o interesse em ler a obra!


1 O termo populista é usado diversas vezes durante a obra, sabe-se que é um termo em disputa e por vez controverso; aqui nesse artigo estes foram reproduzidos preferencialmente em citações retiradas diretamente da obra, tentando deixa-lo contextualizados e mais próximos da ideia original do autor.

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CRISTIANE GANAKA é economista e bacharel em ciências e humanidades pela Universidade Federal do ABC e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

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1 comentário

  1. Praticamente todas as lideranças radicais de movimentos políticos que clamam por mudanças estruturais usam a gestão da cólera social para seus fins, sejam elas de direita ou esquerda. Lamentável mesmo é o fato de as maioria da lideranças das esquerdas estar sendo pautada reativa e defensivamente pelos avanços agressivos desses celerados populistas da extrema direita. É compreensível, por outro lado, a vantagem relativa dessa mesma extrema direita ao considerarmos seu poderio como seguimento representante do sistema econômico hegemônico, assim como o fato de que as novas instituições/corporações do universo cibernético-informático serem crias suas e portanto estarem prioritariamente a seu serviço. Nada disso impede, contudo, que as esquerdas se utilizem de todos seus instrumentos clássicos revisitados para a disputa de corações e mentes. Afinal, a extrema direita só tem realmente a entregar guerra e destruição como solução aos problemas que ela mesmo engendra. Só que para isso antes seria preciso que a esquerda rompesse, novamente, com a ideologia pequeno burguesa que a vem mantendo subjugada, de maneira anestesiada e alienada dos problemas reais das pessoas reais.

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