Movimentos pacíficos são mais eficazes à democracia do que ações violentas, defende Alfredo Valladão

"Fascismo, nazismo, comunismo, populismos civis ou militares e até os movimentos armados anti-imperialistas e anticoloniais, provocaram terríveis catástrofes"

Protestos em Hong Kong. Foto: Getty Imagens/AFP/A. Wallace

Jornal GGN – Em artigo publicado nesta segunda-feira (19) na RFI Brasil, o cientista internacional Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, aponta as mobilizações civis de massa e sem violência no Sudão e em Hong Kong como o “único caminho para a defesa da democracia”.

“Os novos movimentos populares tiraram duas lições das derrotas no século XX. A primeira é que um regime imposto pela força sempre acaba em ditaduras totalitárias, e incompetentes do ponto de vista econômico e social”, escreve.

“Fascismo, nazismo, comunismo, populismos civis ou militares e até os movimentos armados anti-imperialistas e anticoloniais, provocaram terríveis catástrofes”, completa.

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No Sudão, quase que diariamente e há mais de um ano e meio, a população realiza protestos tomando as ruas em atos pacíficos. “E apesar das provocações e das milícias que já fizeram centenas de mortos, o ditador Omar el-Bechir caiu e os militares agarrados no poder foram obrigados a aceitar uma partilha de poder com os representantes da sociedade civil”, ressalta Valladão.

“Nada está resolvido, e os dois lados só negociaram um acordo de transição para um poder civil que deveria durar 39 meses. O pior ainda pode acontecer, mas a população sudanesa continua firme e mobilizada”, prossegue.

Na Argélia, a população realiza manifestações semanais há mais de três meses. O cientista político destaca que o Estado-Maior do Exército, que assumiu o poder abertamente no país, “não sabe o que fazer”. Por outro lado, a população argelina que desfila nas ruas das principais cidades “não confia nem nas lideranças do próprio movimento”.

“A reivindicação é uma só: queremos uma verdadeira democracia. O impasse, por enquanto é total, mas todos sabem que vai ter que acabar com uma negociação”, explica o professor.

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“Só que tudo vai depender da capacidade da sociedade civil em manter a unidade e resistir às provocações para evitar um enfrentamento violento direto, para obrigar os militares a deixar o poder, nem que seja devagar”, pondera.

Em Hong Kong o pesquisador descreve a situação como “desesperada” ao governo chinês. Na localidade, milhões de pessoas ocupam as ruas em protestos há mais de 4 meses.

“Difícil pensar que a China comunista queira negociar alguma coisa com uma população que exige um regime democrático. Mas mesmo assim, a população de Hong Kong está conseguindo impor a sua agenda às autoridades de Pequim e ao governo local”, observa o pesquisador.

“Uma pequena vitória pacífica que nem os tibetanos, nem os uigures conseguiram. Claro, tudo pode acabar mal. Mas nesse mundo das redes sociais, quem luta pela democracia já sabe que os movimentos pacíficos são mais eficazes do que as ações violentas”, completa.

Valladão aponta que essa movimentação popular e pacífica por democracia não acredita mais “em pequenas vanguardas autoproclamadas que prometem o paraíso terrestre para todos, e se transformam em regimes repressivos, corruptos e manipuladores”. Essa é uma primeira lição que o cenário traz.

“A segunda lição é que os movimentos violentos podem ser muito mais facilmente manipulados. O fracasso das ‘primaveras árabes’ foi terrível”, continua o cientista internacional.

“Muitos ativistas pacíficos não aguentaram a enxurrada de ‘fake news’ e as provocações dos serviços de inteligência, e partiram para ações radicais. O golpe fracassado da oposição na Venezuela é mais um exemplo dessa engrenagem fatal. Um prato feito para os regimes no poder que podem isolar os mais radicais acusando-os de ‘terrorismo’ e aproveitando para deslanchar uma pesada repressão contra todo mundo”, considera.

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“Resultado: a divisão dos movimentos, as brigas internas, a explosão dos egos dos que pretendem dirigir e, finalmente, a derrota pura e simples”, pontua.

“Hoje, todos estão conscientes desse impasse político: não há soluções nem simples nem rápidas. Uma vitória – que aliás não é nada garantida – vai levar muito tempo. E só depende de uma mobilização massiva constante e sem trégua. A única chance de evitar serem esmagados por governos autoritários é a presença nas ruas de massas de cidadãos pacíficos e determinados a ocupar o asfalto e o palco político o tempo que for necessário”, conclui.

*Clique aqui para ler a coluna de Alfredo Valladão na íntegra.

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5 comentários

  1. Então vá encarar o Estado Islâmico desarmado.

    É o que os sanguessugas mais desejam: um mundo em que as suas vítimas não reajam violentamente à opressão e exploração.

    O comunismo provocou muitas catástrofes, o imperialismo e o capitalismo só provocarem liberdade, igualdade e fraternidade.

    “Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista! Nela os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
    Proletários de Todos os Países, Uni-vos!”

    Marx e Engels

  2. Movimentos pacíficos conquistam a simpatia da população em geral. Já os violentos, além de não afetar em absolutamente nada os poderosos, ainda conseguem causar repulsa e medo na população.
    Ainda sobre manifestações pacíficas, é bom incorporar também as cores verde e amarelo, pois os bozoloides não podem se apropriar das cores da nossa bandeira.
    Há que se raciocinar para quebrar aquele discurso idiota de “minha bandeira jamais será bla bla bla”.

    • ABSURDO! A cor da esquerda é o vermelho há 200 anos. O vermelho é o símbolo da luta contra a opressão capitalista e pelo socialismo, o símbolo da luta trabalhista por direitos e democracia.

      Abdicar de sua personalidade política para emular a semiótica canalha da extrema direita é um ato de capitulação ABSOLUTA!

      Esse é o tipo de “idéia genial” que os aprendizes de feiticeiro querem levar adiante e que por fim acaba nos conduzindo a uma catástrofe. Se você abre mão da sua heráldica histórica, você simplesmente está desagregando o seu campo político.

      A ESQUERDA TEM QUE IR PRA RUA DE VERMELHO! QUEM VAI NA MANIFESTAÇÃO DE VERDE AMARELO É A COXINHADA CANALHA DE EXTREMA DIREITA!

  3. Só do cara botar nazismo e comunismo na mesma frase como equivalentes, você já sabe que é engodo. Ele fala que a luta anti-colonial produziu terríveis catástrofes.

    Gostaria de saber: o imperialismo é santo? Porque as “democracias” dos EUA e da Europa ocidental são baseadas em rios de sangue de inocentes, golpes de estado, mísseis, assassinato de crianças, saques a nações inteiras.

    A catástrofe é o capitalismo em sua fase imperialista. E esse artigo é ridículo. Não existe essa “lei da ciência” de que só o pacifismo produz resultados positivos para os povos.

    Sem perceber, ele postula a “Pax Americana”.

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