Pandemia pode limitar alcance de atos contra Bolsonaro e racismo

Preocupação com coronavírus e possíveis conflitos violentos com apoiadores do presidente podem limitar o alcance de mobilização contra o presidente

Por Mariana Schreiber

Da BBC News Brasil

Após semanas de manifestações favoráveis ao governo de Jair Bolsonaro nas ruas do país, cresce a mobilização entre grupos de oposição ao presidente com a convocação de atos simultâneos em diversas cidades para este domingo (07/06). A preocupação com o contágio do coronavírus e possíveis conflitos violentos envolvendo opositores e apoiadores do presidente, no entanto, podem limitar o alcance dessa articulação.

Apesar da continuidade da pandemia, a mobilização contra o governo ganhou fôlego depois que integrantes de torcidas organizadas compareceram à Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo passado, para protestar em favor da democracia e contra posicionamentos autoritários de Bolsonaro e de parte dos seus apoiadores.

Desde março, manifestações bolsonaristas se tornaram frequentes no país com pedidos pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. O presidente costuma comparecer a esses atos em Brasília, sem repudiar as reivindicações antidemocráticas.

Os atos de oposição foram convocados para domingo em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Manaus, Belém, Florianópolis e Salvador. Há duas bandeiras principais: o antifascismo, de oposição ao governo Bolsonaro, e o antirracismo, com o mote “Vidas Negras Importam”, em reação ao assassinato de pessoas negras pela polícia nas periferias brasileiras. Essa agenda também ganhou fôlego sob influência dos intensos protestos iniciados nos Estados Unidos após a morte do negro George Floyd por um policial, em Minneapolis.

A mobilização está sendo liderada por movimentos de periferia, ativistas negros, integrantes de torcidas organizadas, estudantes secundaristas, grupos antifascistas e a frente Povo Sem Medo, da qual faz parte o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e outras organizações. Lideranças ouvidas pela reportagem disseram que os atos serão pacíficos e que os manifestantes deverão manter distanciamento entre si e usar máscaras.

“Ficamos muito revoltados vendo manifestações com apologia à ditadura, que ridicularizavam nosso luto (pelas mortes da covid-19)”, explicou à BBC News Brasil Danilo Pássaro, integrante da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians que liderou o protesto do domingo anterior e estará presente no próximo.

“A grande maioria (dos integrantes da torcida) é da periferia. Eu sou de Brasilândia, o bairro com mais mortes por coronavírus (em São Paulo). Rovolta você ver as mortes do seu lado se tornando piada nessas manifestações (bolsonaristas)”, disse ainda.

No Rio de Janeiro, o principal ato — uma marcha prevista para começar 15h na estátua de Zumbi dos Palmares, no Centro — tem como tema central a defesa das vidas negras, mas também marcará oposição ao governador do Estado, Wilson Witzel, e ao presidente Bolsonaro, afirma o ator Brenner Oliveira, militante do Movimento Negro Perifa Zumbi, um dos envolvidos na organização do ato no Rio.

Será o segundo domingo de protesto após a morte de João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, em sua casa, em uma comunidade de São Gonçalo (RJ), durante uma operação policial. Os organizadores justificam o ato em meio à pandemia destacando que “estão sendo mortos dentro de casa”.

“Temos várias organizações na periferia que estão ajudando com distribuição de kits de alimentos, de higiene, com máscaras. Estamos fazendo tudo que o Estado não faz”, disse Oliveira.

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“E o que o Estado quer fazer? Quer invadir a favela, meter tiro na nossa juventude, matar e oprimir. Nossa reivindicação é que nem de tiro, nem de fome, nem de covid nosso povo vai morrer”, completa ele.

Pandemia e temor de ‘golpe’ em reação a atos

Alguns fatores, porém, podem limitar a adesão aos protestos. Parte dos opositores do governo têm divergido da convocação de atos no momento devido à pandemia e também por ver o risco de conflitos entre manifestantes de oposição e apoiadores de Bolsonaro, que poderiam ser usados como motivo para reações autoritárias.

Os dois argumentos foram citados pelos senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Eliziane Gama (Cidadania-MA), Weverton Rocha (PDT-MA), Jaques Wagner (PT-BA), Veneziano Vital do Rêgo (PSB-PB) e Otto Alencar (PSD-BA), em uma carta conjunta pedindo o adiamento dos protestos.

“Nosso pedido parte da avaliação de que, não tendo o país ainda superado a pandemia, que agora avança em direção ao Brasil profundo, saindo das capitais e agravando nos interiores, precisamos redobrar os cuidados sanitários e ampliar a comunicação com a sociedade em prol do distanciamento social”, diz um trecho do documento.

Segundo Carmen Foro, secretária-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior central sindical do país apoia os atos, mas não fará convocações de sua base devido à crise do coronavírus. Pelo mesmo motivo, também não estão ocorrendo mobilizações em Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, disse à reportagem Gilson Rodrigues, uma das lideranças da comunidade.

“Nas periferias, a situação da pandemia é mais grave e estão morrendo pessoas. Apoiamos iniciativas populares de organização democrática e pacífica, mas nesse momento estamos muito focados em ajudar a população que está desempregada, passando fome.”

Já o antropólogo Luiz Eduardo Soares fez um apelo em suas redes sociais para que as pessoas descontentes com o governo federal não saiam às ruas nesse domingo. Ele disse temer que eventuais conflitos violentos durante as manifestações possam servir de pretexto para o presidente desencadear um “golpe”, acionando as Forças Armadas e apoiadores do governo nas polícias estaduais.

“Companheiras e companheiros, vocês não percebem que Bolsonaro está armando uma armadilha? Vocês acham que terão condições de impedir que (apoiadores do governo) infiltrados promovam quebra-quebra? Não terão. Não subestimem os fascistas”, escreveu em sua conta no Facebook.

“Se vocês forem às ruas, e eu adoraria que fossem e eu estaria junto com vocês, em condições normais, não só vão ajudar a propagar o vírus em nossos grupos, como vão oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam, ansiosamente, e que têm sistematicamente estimulado”, disse também.

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Grupo de policiais de costa, fazendo um paredão, em meio a fumaça e um deles jogando bomba de gás
Foto: NELSON ALMEIDA/AFP

Nas redes sociais bolsonaristas, circulam vídeos e mensagens convocando apoiadores do presidente a comparecer à Avenida Paulista no domingo à tarde, mesmo local e horário previsto para o protesto convocado contra o governo.

O governador de São Paulo, João Doria, disse no início da semana que não serão permitidos “manifestações de duas partes ao mesmo tempo” na Avenida Paulista.

Questionada pela BBC News Brasil, a Secretaria de Segurança do Estado respondeu que “atua e seguirá atuando para proteger as pessoas e garantir o direito à livre manifestação”.

De acordo com o órgão, será realizada nesta sexta uma “reunião entre as polícias, o Ministério Público e representantes dos organizadores dos eventos para definir detalhes, entre eles dias e horários, para a realização dos atos em absoluto respeito às leis”.

‘Terroristas e marginais’, reage Bolsonaro

Na segunda-feira, Bolsonaro recomendou que seus apoiadores não compareçam às ruas no domingo por causa dos atos de oposição. Já na quarta-feira, ele chamou de “marginais” e “terroristas” grupos antifascistas que estão mobilizando atos contra seu governo.

O presidente voltou a dizer que não pode ocorrer no Brasil o mesmo que no Chile, onde uma onda forte de protestos sacudiu o país no final de 2019. Um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, chegou a afirmar no ano passado que poderia haver um “novo AI-5” caso um cenário chileno se repetisse aqui, em referência ao ato institucional adotado em 1968 que recrudesceu ainda mais a ditadura militar brasileira.

“Não podemos deixar que o Brasil se transforme no que foi há pouco tempo o Chile. Não podemos admitir isso daí. Isso não é democracia nem liberdade de expressão. Isso, no meu entender, é terrorismo. A gente espera que este movimento não cresça, porque o que a gente menos quer é entrar em confronto com quem quer que seja”, disse Bolsonaro nesta quarta, ao comentar os atos convocados para domingo.

‘Ameaças’

Guilherme Boulos, liderança do MTST e do PSOL, manteve a convocação para ato de domingo após o apelo de Luiz Eduardo Soares. Na visão dele, é preciso ir às ruas justamente para se contrapor às ameaças autoritárias.

“Se normalizamos gente defendendo AI-5 e agredindo opositores, jornalistas e enfermeiras em praça pública, daqui a pouco não teremos condições de dar as caras”, escreveu na sua conta no Facebook.

À BBC News Brasil, Boulos disse que haverá uma “brigada de saúde” da frente Povo Sem Medo com mais de cem pessoas orientando o público a manter distanciamento uns dos outros e oferecendo álcool em gel. Além disso, serão distribuídas quatro mil máscaras feitas por cooperativas de costureiras do MTST.

“Conversamos com as torcidas organizadas e com o movimento negro. Nossa primeira preocupação é fazer a manifestação sem ser um vetor de transmissão do coronavírus”, disse.

“E a segunda preocupação é com o objetivo pacífico. Para nós, não interessa o conflito. Só para Bolsonaro interessa uma escalada de violência”, acrescentou.

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Ele contou ainda que fará um registro na Polícia Civil nesta sexta após ter sido alvo de ameaças em grupos bolsonaristas, que circularam a seguinte mensagem. “Guilherme Boulos mora numa casa no bairro do Campo Limpo, no sul de São Paulo. Domingo vamos atirar em todo o bairro até acertar ele.”

Divergências ideológicas

Além da pandemia e do receio sobre conflitos, divergências ideológicas também dificultam uma união maior de grupos opositores do governo nas ruas e mesmo por meio de manifestos.

O Movimento Brasil Livre (MBL), que protagonizou grandes manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, pretende ir às ruas também contra Bolsonaro após a pandemia. No entanto, não vai se unir em atos com torcidas organizadas e grupos antifascistas, por considerar esses grupos violentos.

“Atos com Gaviões da Fiel e antifa? Nunca. Acho inclusive um tiro no pé”, respondeu à reportagem Renan Santos, um dos líderes o MBL.

“Nós temos um estilo e uma forma (de protestar). Usar badernagem como instrumento de guerra política não faz parte do nosso repertório. Se eles querem fazer, eles que façam”, disse ainda.

Danilo Pássaro, da Gaviões da Fiel, repudiou as críticas do MBL e disse que a atuação da torcida nos protestos políticos é pacífica.

“As torcidas são um extrato da nossa sociedade, que é uma sociedade violenta. Eu acredito que é educando que a gente consegue buscar esse tipo de transformação e também cooperando com o poder público”, defendeu.

A dificuldade de reunir lideranças de diferentes correntes ideológicas em uma frente ampla contra o governo Bolsonaro ficou clara esta semana também na tentativa de ampliar apoios a manifestos pela democracia.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal liderança do PT e da esquerda brasileira, se recusou a assinar o manifesto do Movimento Estamos Juntos, que teve o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), do ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (MDB), entre outras lideranças políticas e também da classe artística e intelectual.

Segundo Lula, o texto “tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora”.

“Tem muita gente de bem que assinou. E tem muita gente que é responsável pelo Bolsonaro. O PT tem que discutir com muita profundidade, para a gente não entrar numa coisa em que outra vez a elite sai por cima da carne seca, e o povo trabalhador não sai na fotografia”, criticou ainda, o ex-presidente.

 

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1 comentário

  1. Ainda que a pandemia limite os atos ela não vai conter a insatisfação. Muito pelo contrário. Ela vai ampliar a revolta. Daí uma hora a coisa explode. Os EUA estão enfrentando uma crise sanitária também e mesmo assim os americanos estão nas ruas protestando contra o racismo. Isso mostra que a pandemia não tem o condão de impedir manifestações populares quando a revolta é muito grande.

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