Nazismo, tráfico negreiro, escravidão e atualidade. Devemos combatê-los

Nossa história não tão distante nos escancara a brutalidade que a repressão Estatal age contra os pobres, pretos, periféricos

Por Fernando Batista

O movimento nazista é um dos mais reprováveis da história recente, quem nunca se deparou com alguma imagem da época e embrulhou o estômago?

Falamos do holocausto com tamanha repulsa que chega a arrepiar, certamente merece todo sentimento de abominação. Ademais, não consigo compreender por qual motivo alguns tentam relativizar tal ato, bem como a escravidão, em principal dos povos africanos, o tráfico negreiro também torturou e matou milhões de seres.

Estima-se que só o Brasil traficou aproximadamente mais de 5 milhões de africanos, e as Américas mais de 12 milhões. Sendo que só na transportação morreram mais de 2,5 milhões.

Segundo relatos históricos, o tempo médio de vida de um escravo adulto que chegava ao Brasil era de 7 anos, devido as condições de vida: trabalho, doenças e torturas.

O Brasil foi o primeiro país a iniciar o comércio de mão de obra escrava e também foi último a aboli-la, se dando completamente no ano de 1888 (em tese, pois, até hoje se enxerga suas consequências), tendo durado mais de 350 anos. Sendo também o país que mais se utilizou deste tipo de mão de obra, principalmente na fabricação de açúcar e na mineração.

O movimento de abolição se intensificou após o comércio de escravos ter sido proibido internacionalmente de vez em 1850. O projeto de abolição prévia em seu texto base uma reforma agrária para que os negros tivessem uma forma de sobrevivência pós liberdade, o que não foi feito.

Vinda a tão sonhada abolição o povo negro se viu diante de uma nova situação a ser superada, a sobrevivência. Por não ter condições de sobreviver, sem terras para produzir, sem moradia, sem fontes de renda, muitos retornaram ao “seu senhor” para trabalhar em troca de comida e moradia.

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Para adentrar um pouco em minha área de atuação, o direito, transcrevo um trecho da matéria publicada pela BBC Brasil em 13 de maio de 2018:

“A Constituição brasileira de 1824, no art. 179, proibiu punir crimes com castigo físico. A partir daquele momento, não se podia mais torturar – a inquisição portuguesa havia institucionalizado a tortura como prova, até a pessoa confessar. Vem então o Código Criminal de 1830 que especifica no art. 30: se o condenado for escravo ele não vai para a cadeia, a pena é transformada em açoite. Isso porque se o escravo fosse para cadeia, causaria uma perda de mão-de-obra e dinheiro para o seu senhor. Assim, o escravo era açoitado publicamente, humilhado, torturado. Depois, semanas depois, quando estivesse reestabelecido (do açoitamento), o escravo voltava a trabalhar. Então, a tortura foi legal no Brasil até 1888, mas só para os escravos. Quando a abolição ocorre, a polícia já estava habituada a bater neles. Neles e nos brancos desfavorecidos. Como no caso do voto do analfabeto citado acima, os mecanismos da repressão escravista contaminam a sociedade inteira.(grifos nossos)

Aprofundando um pouco mais o raciocínio, verifica-se que até a atitude truculenta da força policial tem um viés escravocrata, sendo que a sua função inicial era servir ao império reprimindo escravos delinquentes e as revoltas abolicionistas.

O fato é que a maioria das riquezas e impérios foram construídos pelo uso da mão de obra escrava, em principal dos negros. Até hoje vemos o reflexo através da desigualdade social promovida por tal feito, haja vista que cerca de 1% da população (oligarquia) detém quase 30% da riqueza nacional.

A oligarquia nunca se satisfez com a abolição da escravidão e até hoje reprime a população negra, pois, esta é a mais pobre, a mais periférica, a que mais sofre preconceito e a que é mais encarcerada.

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A repressão é tão latente e possui viés racista que a tão conhecida no meio jurídico “Lei da Vadiagem” era aplicada a negros que receberam sua liberdade, contudo, não possuíam fontes de renda e “perambulavam”.

A escravidão sempre existiu e continua existindo de forma mascarada para muitos povos e etnias, é evidente. Entretanto, nenhum povo sofreu e sofre tantas consequências quanto os negros. O preconceito racial acaba sendo o fator mais agravante da atualidade, se comparar-mos os povos escravizados nenhum foi tão mutilado e traficado quanto os africanos. A história nos mostra tudo isso, e a humanidade nunca deixará de carregar esta vergonha!

Sem dúvidas a escravidão é uma vergonha que nosso país deve carregar por toda sua história, e tentar relativizar este fato só demonstra o quão ínfimo é o conhecimento e empatia de quem o relativiza.

Atualmente a brutalidade de ações policiais gerou uma imensidão de protestos, fazendo com que houvesse uma reflexão quanto ao racismo estrutural na sociedade contemporânea.

Nossa história não tão distante nos escancara a brutalidade que a repressão Estatal age contra os pobres, pretos, periféricos. Eventos como os massacres: de Vigário Geral, Da Sé, Pinheirinho, Do Carandiru, Da Candelária, Dos 80 tiros, Costa Barros e tantas outras que sequer são noticiadas.

De fato a vida de todos importa, mas, nem todos sofrem a letalidade de frente quanto o povo negro. A vida importa, a vida dos negros importa!

Nossa conscientização deve se aflorar, entender o contexto histórico e compreender que esta luta é nossa, devemos lutar juntos!

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Vamos começar por quem está próximo, não seja e não permita o preconceito; como disse Martin Luther King em uma das suas mais fantásticas frases: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Disse Madre Teresa de Calcutá: “É fácil amar os que estão longe, mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado”. Então levantemos a bandeira sim, combata o racismo todos os dias.

Não temos o poder de mudar o passado, mas podemos fazer um presente e futuro diferente.

Fontes:

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/trafico-negreiro.htm

https://jornalggn.com.br/sociedade/brasilocentro-mundial-do-trafico-de-escravos-por-andre-motta-araujo/

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/13/internacional/1513193348_895757.html

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44091474

 

Fernando Batista Vieira é advogado e coordenador da Jovem Advocacia de São Caetano do Sul – SP

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