“O Dilema das Redes”: Choque, assimilação. Solução?

Por mais bem intencionado que pudesse estar o grupo que criou o Facebook, é extremamente perigoso e restritivo que ele esteja encarregado de decidir questões que impactam bilhões de pessoas

Por Michel Lent, especialista em marketing

No MEDIUM

Se você trabalha com comunicação e marketing já assistiu ou vai assistir o documentário do Netflix chamado “O Dilema das Redes”. Se você não trabalha na área, mas vive neste planeta e assista também, pois ele fala com todos nós.

Spoiler! Você se impactar muito.

Vai se sentir vigiado, controlado, com raiva, em pânico, enjoado, enojado. As opções são muitas, menos não se importar.

O documentário mostra através de entrevistas de ex-executivos e funcionários de importantes plataformas o que acontece nos bastidores das empresas de redes sociais quando as equipes se reúnem para pensar formas de nos manter mais e mais tempo online e disponíveis para ver anúncios.

Alguém já disse que se algo é grátis, o produto é você.

Sim, se as redes sociais são gratuitas e vivem de publicidade, elas vão se esforçar ao máximo para criar formas de que você queria ficar mais e mais tempo lá gerando, portanto, mais e mais espaços para vender anúncios e ganhar mais dinheiro.

Como as empresas pensam e o que procuram fazer pra te prender em suas plataformas é minuciosamente demonstrado no documentário bem como todos os efeitos colaterais desta dinâmica.
Aumento de suicídios, depressão, polarização política. A lista de problemas que estes mecanismos estão causando é extensa e muito grave. Efeitos causados por plataformas que falam com centenas de milhões a bilhões de pessoas no mundo, fazendo com que estes efeitos colaterais se tornem problemas de ordem planetária.
Mas nem só coisas ruins estas redes nos trouxeram. Ao contrário, elas oferecem muitas coisas positivas para o mundo. A facilidade de conexão, as ferramentas de trabalho, a proximidade com pessoas geograficamente distantes, a possibilidade de inserção e participação social de pessoas idosas, acesso à todo o tipo de informação e educação, novas oportunidades de negócio.

Não é uma discussão simples. As redes trazem muitas coisas boas e muitos problemas. O filme se concentra nos problemas. E faz isso com o objetivo claro de chamar a atenção para a seguinte questão.
O modelo de negócio das plataformas, baseado em publicidade e na utilização dos nossos dados e outros artifícios para nos prender mais e mais tempo conectados, está deixando o mundo doente e profundamente polarizado.

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A solução?

Apagar todas os perfis, proibir os filhos de usar redes sociais até uma determinada idade, limitar o tempo de tela por dia, procurar e só usar redes que não usem o modelo de receita baseado em publicidade.

Cada um vai encontrar a sua forma de assimilar e lidar com a questão.

Mas acredito que nada do que fizermos em escala individual vai ser suficiente. Temos um problema de escala massiva e global e a resposta para este problema precisa ser da mesma magnitude.
Podemos olhar para estas plataformas e fazer a leitura de que o grupo de pessoas por trás delas, tomando as decisões e criando os produtos tinha clareza do que estavam fazendo e fizeram de propósito, com intenções de prejudicar o mundo.

Mas prefiro acreditar e fazer a leitura de que estas pessoas e plataformas entraram em mares nunca antes navegados. Ninguém tinha idéia dos efeitos colaterais do que estava fazendo, assim como ninguém nunca tinha concentrado em uma única plataforma centenas de bilhões de pessoas. As mesmas 50 pessoas decidindo o que vai acontecer com alguns milhares e de repente, alguns bilhões de pessoas.

O problema, na minha visão, mora ai.

Nunca antes na história desse planeta a vida de tantas pessoas esteve concentrada na mão de tão pouca gente. E, por mais bem intencionado que pudesse estar o grupo que criou o Facebook, ou o Google, ou o Twitter, ou o Youtube é extremamente perigoso e restritivo que um grupo tão pequeno de pessoas esteja encarregado de decidir por questões que impactam a sociedade em escala de bilhões de pessoas.

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Como empreendedor e veterano do mercado digital, sou a favor do livre mercado e da livre iniciativa. Através desta dinâmica criamos os serviços e empresas mais interessantes que a humanidade já viu. Mas há limites e os governos e leis existem para regular a sociedade quando ela não se regula sozinha.

Este livre mercado, modelo de negócios e a concentração de poder, nos levou a um ponto onde não existe mais o conceito de livre iniciativa. Pelo seu poderio econômico estas gigantes simplesmente não deixam nada que as ameace prosperar. Elas compram ou esmagam. E tudo o que fazem, tem impacto planetário. É muita responsabilidade na mão de muito pouca gente.

A solução? Não consigo imaginar outra, a não ser a fragmentação e a regulação destes grandes grupos.

Este caminho intervencionista, onde efetivamente os governos precisão entrar e agir para limitar a força destes gigantes, ganha cada vez mais adeptos e eu me incluo neste grupo.

Acredito que o ponto em que estamos agora é parte de um processo de evolução e amadurecimento e tenho o otimismo de achar que vamos sim avançar enquanto sociedade e voltar a ter estas ferramentas e possibilidades trazendo muito mais coisas favoráveis do que negativas. Mas da forma como estão setadas as regras hoje, não há como acontecer sem uma mudança radical nesta lógica de funcionamento.

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