O primeiro debate presidencial

Do Valor

Serra, Dilma e Marina fazem 1º debate

César Felício, de Belo Horizonte
07/05/2010

No que foi provavelmente o primeiro debate político de caráter eleitoral em sua vida, a presidenciável petista Dilma Rousseff foi vaiada duas vezes por prefeitos reunidos no Congresso da Associação Mineira dos Municípios, em Belo Horizonte. O tucano José Serra adotou um tom conciliador e afirmou que convidará o PT e o PV para compor sua equipe, caso seja eleito presidente. A candidata do PV, Marina Silva, surpreendentemente com muitos apoiadores na plateia de prefeitos, queixou-se de problemas de saúde e foi irônica ao atacar ambos os adversários

Muito nervosa, a pré-candidata petista passou boa tarde de seu tempo relacionando resultados dos sete anos de governo Lula e pouco falou de suas propostas para o futuro. Esqueceu de fazer uma saudação aos organizadores do evento e aos colegas presidenciáveis em sua primeira fala. Usou as considerações finais para responder a uma pergunta sobre os royalties do petróleo, feita no bloco anterior. Só foi assertiva ao prometer realizar uma reforma tributária, sem entrar em detalhes sobre seu conteúdo.

A vaia a Dilma ocorreu quando a ex-ministra da Casa Civil afirmou que o governo federal conseguiu minorar as perdas de receita sofridas pelos municípios em razão da crise econômica entre 2008 e 2009. Os municípios perderam receita de FPM em função da redução do nível de atividade e das isenções de IPI que o governo concedeu para setores como a indústria de construção, automobilística e de eletrodomésticos. O governo federal criou compensações de R$ 2 bilhões, que as entidades representativas dos prefeitos alegam não terem sido suficientes.

No fim do debate, mais segura, Dilma afirmou que “estes R$ 2 bilhões não saíram da cabeça do governo federal, mas foram um processo negociado. Pela primeira vez, o governo fez parte da solução e não do problema. O governo federal e os municípios perderam arrecadação, mas o Brasil foi o primeiro a sair da crise”.

Leia também:  Bolsonaro bloqueia recursos para ciência e tecnologia

Serra surpreendeu ao prometer, se eleito, cometer o que chamou de “heresia” e convidar seus adversários para o governo. “O Brasil vai precisar estar junto. A oposição sempre empurra o governo para um lado que ele não devia ir”, disse. O tucano fez a afirmação logo após Marina Silva fazer uma ironia em relação a seus rivais: “Gostaria de que saíssemos destas eleições com um novo acordo social. Sábios são os que aprendem com os erros dos outros. Estúpidos são os que não aprendem com os próprios erros. O PSDB tornou-se refém dos piores erros do DEM e o PT tornou-se refém dos piores erros do PMDB”, disse a senadora.

O tucano não limitou-se a acenar para PT e PV. Também fez em suas considerações finais uma homenagem ao presidente nacional do PP, o senador Francisco Dornelles (RJ), definido por ele como um “anfíbio”, por ter origem mineira e ter sido eleito pelo Rio de Janeiro. “Foi ele que comigo introduziu os royalties na Constituição”, afirmou. Primo do ex-governador mineiro Aécio Neves, Dornelles é cotado como vice de Serra, mas seu partido faz parte da base de governo de Lula. Serra ainda acenou para o que chamou de “PMDB histórico”. “Foi o PMDB que ainda antes da Constituinte fez o FPM saltar de 11% para 17% do bolo tributário”, afirmou.

Serra prometeu criar um dispositivo para que incentivos como os criados pelo governo federal no ano passado em relação ao IPI sejam automaticamente compensados. E calculou em R$ 1 bilhão a diferença não ressarcida pelo governo federal em relação às perdas de 2009. “Não vamos mais fazer benefícios com o chapéu alheio”, disse.

Leia também:  Projetos apoiados por bolsonaristas reduz poder de governadores sobre PM e polícia civil

Marina Silva iniciou sua participação colocando-se como uma espécie de candidata de protesto. “Depois de um sociólogo e de um operário na presidência, o Brasil merece agora ter um verdadeiro processo político em suas eleições, e não um plebiscito, e é para isso que sou candidata”, afirmou.

A senadora do PV defendeu a convocação de uma Congresso Revisor Exclusivo para realizar as reformas tributárias, trabalhista e política, fugindo do que chamou de “consensos ocos” sobre estes temas. Irônica, lembrou que prefeitos apanharam da Polícia na primeira marcha que fizeram para pressionar o Congresso, “em 19 de maio de 1998”, como fez questão de detalhar. Na ocasião, o tucano Fernando Henrique Cardoso era o presidente, mas a ação policial foi determinada pelo então presidente em exercício, o senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007). Terminou sua participação dizendo que se esforçaria para que o Brasil não tivesse mais que conviver com as denúncias de “uso do dinheiro da Defesa Civil para a base política de um ministro”, em uma referência ao ex-ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima, pré-candidato ao governo da Bahia pelo PMDB.

Os candidatos foram evasivos ao detalhar pontos sobre a reforma tributária que defendem e se esquivaram de comentar o projeto de lei do deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) que muda a destinação dos royalties do petróleo. Ao comentar o tema, Marina falou longamente sobre educação. Dilma discorreu sobre “o mal dos alagamentos”. Serra disse ser favorável ao redesenho dos royalties do setor mineral.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome