Obama não terá controle sobre a Síria

Sugerido por ANTONIO ATEU

Do Esquerda.net

A Síria e a obscenidade moral

As potências ocidentais apostaram até agora numa guerra de desgaste na Síria. Em alguns círculos diplomáticos considera-se que se algum dos lados ganhar, os Estados Unidos perdem. Há 2 anos que existe intervenção na Síria por parte de atores regionais e internacionais. Por Olga Rodríguez.

Fala-se de uma iminente intervenção militar na Síria. Há quem lamente que não tenha acontecido antes, que os Estados Unidos e os seus aliados não tenham “reagido” até agora. Não tem sido desinteresse, mas sim uma aposta estratégica calculada.

Desde há mais de dois anos que Rússia e Irão apoiam militarmente o regime sírio. Por sua vez, diversas potências ocidentais, assim como os seus aliados no Médio Oriente, intervêm na Síria de forma mais ou menos subterrânea, proporcionando armas e informação de segurança aos rebeldes. França e Estados Unidos, entre outros, têm fornecido ajuda militar aos grupos armados da oposição. A CIA e os serviços secretos britânicos trabalham no terreno apoiando os rebeldes sírios e aconselhando os países do Golfo sobre os grupos que devem armar.

O material bélico facilitado aos rebeldes que lutam contra Assad tem chegado principalmente através dos países do Golfo e da Turquia, e tem sido medido com precisão desde 2011, para que estes não disponham de armamento pesado. Deste modo os “rebeldes” têm podido ferir mas não derrubar o governo de Assad; têm contado com capacidade suficiente para resistir mas não para vencer. E assim, o conflito tem-se mantido num nível que permite a ambos os lados sobreviver, desgastando-se. É o ponto morto, a situação indefinida que até agora tem sido conveniente a alguns atores internacionais envolvidos de um modo ou de outro no conflito.

Não é algo novo. Nos anos oitenta, quando estoirou a guerra entre Irão e Iraque, Washington proporcionou apoio, armas e informação militar a Bagdade, e de facto Saddam Hussein empregougás sarin norte-americano contra população iraniana e curda. Mas numa estratégia de jogo duplo os EUA também facilitaram secretamente armamento ao Irão entre 1985 e 1987 através de uma rede de tráfico de armas norte-americanas e israelitas organizada pela CIA.

Com os lucros desse negócio, Washington apoiou os Contra nicaraguenses e a guerrilha afegã que lutava contra as tropas soviéticas no Afeganistão. A operação ficou conhecida com o nome de “Irangate”. Deste modo os Estados Unidos contribuíram para o prolongamento da guerra entre Bagdade e Teerão, com o propósito de desgastar os dois países estratégicos e com petróleo e de deixá-los fora de jogo. Se ambos perdessem, Washington ganhava.

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No caso sírio considera-se que se algum dos lados ganhar, os Estados Unidos perdem (e com eles, Israel). É a premissa aceite em alguns círculos políticos e diplomáticos ocidentais. Por isso apostaram na guerra de desgaste, pelo ponto morto, por uma situação indefinida. Agora que Assad tinha tomado vantagem em relação aos seus inimigos, a comunidade ocidental anuncia um novo nível de intervenção na Síria.

Assim o expressava esta semana, sem qualquer pudor, Edward Luttwak, do Center for Strategic and International Studies, num artigo publicado em The New York Times:

Um resultado decisivo para qualquer um dos lados seria inaceitável para os Estados Unidos. Uma restauração do regime de Assad apoiado pelo Irão aumentaria o poder e o status do Irão em todo o Médio Oriente, enquanto uma vitória dos rebeldes, dominados pelas fações extremistas, inauguraria outra onda de terrorismo da Al Qaeda.

Só há um resultado que pode favorecer positivamente os Estados Unidos: o cenário indefinido. Mantendo o Exército de Assad e os seus aliados, Irão e Hezboláh, numa guerra contra lutadores extremistas alinhados à Al Qaeda, quatro inimigos de Washington estarão envolvidos numa guerra entre si mesmos…”.

A espuma das intenções reais

Se vivêssemos num mundo idílico poderíamos acreditar na bondade da política internacional. As guerras seriam essas missões de paz de que tanto falam os dirigentes ocidentais, e os governos mover-se-iam impulsionados apenas pela defesa dos interesses dos cidadãos. Mas o nosso mundo está muito longe de ser idílico.

A História, essa grande ferramenta para analisar também o nosso presente, demonstra-nos que às vezes as versões oficiais de um governo são só a espuma das suas posições reais. Que por trás das posturas públicas aparentemente altruístas se escondem políticas ilegais e criminosas. Que por baixo dos discursos oficiais em nome da defesa dos direitos humanos se movem interesses económicos e geopolíticos.

Não é preciso muito para encontrar exemplos:

O apoio dos Estados Unidos aos golpes de Estado e às ditaduras na América Latina nos anos setenta; as mentiras para invadir e destroçar o Iraque, as desculpas para invadir e ocupar o Afeganistão, a negação sistemática de crimes de guerra, de assassinatos de civis, a criação de centros de tortura disseminados por todo mundo, a aceitação por parte da Europa dos voos da CIA, o uso de aviões não tripulados – drones – para cometer assassinatos extrajudiciais, o emprego de urânio empobrecido, a venda de armas a governos evidentemente ditatoriais e repressores e assim um longo etcétera.

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Casualmente nesta mesma semana a CIA reconhecia algo já sabido: O seu papel por detrás do golpe de Estado que em 1953 derrubou o primeiro-ministro iraniano Mohamed Mossadeq, eleito democraticamente e que tinha nacionalizado o petróleo iraniano, até então explorado pelo Reino Unido principalmente.

Recentemente também se conheceu publicamente um contrato pelo qual os Estados Unidos forneceram bombas de fragmentação à monarquia absolutista da Arábia Saudita, que fornece armamento aos rebeldes sírios.

Os únicos árbitros

As potências ocidentais pretendem erigir-se de novo como árbitro desinteressado a quem se deve chamar quando as coisas ficam feias. Apresentam-se a si mesmas como aqueles que “solucionam” conflitos através do uso de bombas e do impulso de operações militares aparentemente “limpas, justas e breves” (isso disseram do Iraque, como não se esquece).

Os EUA e os seus aliados não parecem dispostos a esperar pelos relatórios dos inspetores das Nações Unidas antes de atacar a Síria, o que constitui um perigoso precedente.

O regime de Assad é responsável de repressão, de milhares de mortos, mas neste caso não se provou ainda que seja o autor do ataque com armas químicas. Poderá sê-lo, de facto é um dos seis países que não assinaram a Convenção de controle de armas químicas (o seu vizinho, Israel, não a ratificou).

Mas o que era sério – e legal – seria esperar pelas conclusões da ONU sobre o ataque e, depois disso, procurar outras opções alternativas à linguagem das bombas. Caso contrário estar-se-á a apostar por uma guerra novamente ilegal, que não contará com a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Se hoje Washington e os seus aliados atuam como “árbitros” para decidir se há que atacar ou não um país, amanhã outra nação pode reivindicar o mesmo “direito”.

As outras “obscenidades morais”

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que o ataque com armas químicas na Síria é algo “absolutamente abominável e inadmissível”, o presidente francês François Hollande tem anunciado que a “França castigará os que gasearam inocentes” e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou que o uso de armas químicas é uma obscenidade moral.

Cabe perguntar se o emprego de fósforo branco em Falluja (Iraque) pelos EUA não é uma obscenidade moral nem um ato “abominável, inadmissível”. É legítimo questionar se não seria apropriado, portanto, castigar, tal e como a França tem defendido, os que gasearam inocentes, como Israel em Gaza ou os Estados Unidos em Falluja.

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Que fale de obscenidades morais um Estado que só na última década assassinou, feriu, torturou, sequestrou ou encerrou centenas de milhares de pessoas é tudo menos apelativo. Que potências que legitimam sequestros, torturas, assassinatos extrajudiciais e cárceres como Guantánamo tratem de erigir-se uma vez mais como campeões dos direitos humanos e das liberdades é um pouco delirante. E que um Prémio Nobel da Paz vá apostar uma vez mais na via militar demonstra o marco orwelliano em que nos encontramos.

No meio do labirinto de interesses internos, regionais e internacionais encontra-se a população civil síria, castigada pela violência, dentro de um conflito de que também são responsáveis os atores regionais e internacionais implicados desde o início.

Nestes dois últimos anos, a guerra na Síria provocou 100.000 mortos e dois milhões de refugiados, dos quais mais de um milhão são crianças. Mas parece que estas mortes e estes deslocados não eram até agora uma obscenidade moral.

Há muitas perguntas a que não se está a responder:

De que forma as bombas ocidentais ajudarão a população síria?

Como vão evitar vítimas civis (tendo em conta além disso os trágicos precedentes)?

Valorizou-se que uma participação aberta de vários países no conflito poderia elevar o nível de confrontação na região?

Como evitarão o emprego de mais armas químicas no futuro?

E após esses dois dias de ataques, que acontece? De novo a guerra de desgaste, o cenário indefinido, a intervenção subterrânea?

Ou pelo contrário, mais bombardeamentos, mais ataques, mais guerra apresentada, em pleno século XXI, como via para a paz, enquanto se vira as costas a outros caminhos, a outras políticas?

Artigo de Olga Rodríguez, publicado a 28 de agosto de 2013 em eldiario.es.Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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