Projeto do governo é restaurar a ditadura, diz historiador Fernando Novais

“Eles estão acreditando que não há mais centro e periferia, que a globalização é o post capitalismo. Para mim, é hipercapitalismo; acentuou-se a divisão entre centro e periferia”

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo de Lucena

Do Tutaméia

“Bolsonaro é governo de extrema direita e não democrático. Ele tem o projeto político de restaurar a ditadura. O núcleo mais ideológico tem essa visão de ver a história contemporânea como algo que saiu do trilho com a volta da democracia. Eles têm a interpretação da linha dura do regime militar. Se a linha dura tivesse vencido, se o general Geisel não tivesse conseguido expulsar o general Frota, estaria tudo como eles acham que deveria estar. A ditadura tinha mais lucidez”.

A análise é do historiador Fernando Novais, 86, em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima). Professor emérito da USP, é autor de “Portugal e o Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)”. O livro, que teve sua primeira edição há exatos 40 anos, é um clássico; está sendo relançado agora pela Editora 34.

Para Novais, “os povos saídos do antigo sistema colonial têm problema de identidade; no Brasil, esse problema é levado ao limite. Não é que o país não tem uma identidade; é uma identidade difícil de ser caracterizada”. O historiador fala de Mario de Andrade, de Sérgio Buarque, de Celso Furtado, grandes intérpretes do país, e da herança colonial.

Na sua visão, “a geração que faz a independência nas Américas tinha um negar a colonização para separar-se [da metrópole] e manter o sistema de dominação. Tinha que negar a colonização e reivindicá-la. A independência das colônias é feita pelos colonos, não pelos colonizados; é contra o colonizador, mas não a favor do colonizado. Colonizado aqui é índio e negro. É isso que está na base dessa ambiguidade, na dificuldade de identidade nossa que vem até os nossos dias”.

Novais analisa a elite brasileira, faz comparações com outros países da região. Avalia que aqui, diferentemente das nações com grande presença indígena, onde havia uma separação social muito rígida, quase como castas, no Brasil a situação é mais confusa. “Dá a aparência de que a separação não é tão grande, mas a separação é maior entre a elite [e os mais pobres]”.

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Avaliando a trajetória do país, afirma: “Dos países da América Latina, o Brasil foi aquele que conseguiu ir mais longe na resistência, na criação de um desenvolvimento autônomo”.
Comentando o presente, Novais examina a ascensão de Bolsonaro: “Houve uma combinação: para excluir o PT vale tudo”, resume. E discorre sobre o pensamento nas Forças Armadas. Segundo sua visão, os militares foram convencidos de que a globalização exige estado mínimo e empresas privadas. “Eles estão acreditando que não há mais centro e periferia, que a globalização é o post capitalismo. Para mim, é hipercapitalismo; acentuou-se a divisão entre centro e periferia”.

Novais enxerga uma virada enorme no governo Trump, o que afeta em muito Bolsonaro. O norte-americano, preocupado com a reeleição, estaria amenizando o seu discurso na arena internacional e teria, por exemplo, sinalizado contra a ida de Eduardo Bolsonaro para a embaixada brasileira em Washington.

Nesta entrevista ao TUTAMÉIA, ele trata do trabalho do historiador e dos dilemas da sociedade brasileira. Mistura erudição e análise política. Faz provocações e lança questões essenciais. Acompanhe o vídeo e inscreva-se no TUTAMÉIA TV.

 

 

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