Rubens R.R.Casara analisa a fábrica de desunião

Em artigo publicado na revista Cult, juiz e professor aborda armadilha que acaba por criar muros pela chamada esquerda anticapitalista

Foto: Reprodução/Prefeitura de Louveira.

Jornal GGN – Em meio à sensação de noite sem fim, é possível perceber que o egoísmo se tornou uma virtude no mundo e a esquerda anticapitalista, que poderia reagir ao cenário de falta de esperança, encontra-se presa em uma armadilha.

“A esquerda anticapitalista, que poderia reagir a esse estado de coisas, caiu na armadilha ideológica de reproduzir a lógica da concorrência e criar muros onde deveria existir comunhão”, explica o professor e juiz Rubens R.R. Casara, em artigo publicado na revista Cult.

Casara cita a feminista Caroline Fourest, cujo livro mais recente fala sobre o fenômeno de “dividir e conquistar” impetrado pelos atuais detentores do poder. “Se a geração de maio de 1968 tinha como palavra de ordem o “é proibido proibir”, hoje a postura é diametralmente oposta, no sentido da proibição, do cancelamento e da execução à morte (ainda que simbólica).  Ter-se-ia, então, uma “geração ofendida””, pontua o articulista.

Desta forma, o que deveria ser um exercício para reduzir opressões está se tornando uma caricatura fabricada por conservadores e reacionários – com a chamada cultura do cancelamento, basta uma palavra mal empregada ou mal interpretada para que as chances de diálogo sejam interrompidas. E isso tem acontecido tanto nas redes sociais como no ambiente acadêmico.

“Tem-se um contexto paradoxal: vive-se um mundo em que o ódio se encontra liberado, em especial nas redes sociais, embora a liberdade de falar e de pensar esteja sob profunda vigilância. Mas não é só. Estamos em uma quadra histórica na qual, em nome da liberdade e até do amor ao próximo, odeia-se cada vez mais”, pontua Casara.

Leia também:  A máquina do ódio, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Não é possível ver o mundo mudar de alguma forma apenas podando o pensamento ou interditando a fala – se faz necessário frear o patrulhamento e abandonar o narcisismo das pequenas diferenças. “É preciso ajudar na transformação da sociedade, reconhecer as diferenças, aprender com as contradições e participar ativamente da construção coletiva de um outro mundo”, ressalta.

 

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5 comentários

  1. A conclusão que chego é que o “problema” não é tão grave.
    Cada parte pode resolver sozinha.
    A União faz açúcar …
    Aí em 2020 …

  2. Blá blá blá……
    enquanto esse povo discute o sexo dos anjos, os trabalhadores são massacrados……a classe média,essa sim ficção construída para dividir e conquistar, segue para a extinção, com o governo pretendendo acabar com funcionalismo pelo achatamento dos salarios ou a terceirização desenfreada…….e esses intelectuais querem que se chancele o acordo cara-cu de sempre?

  3. Artigo de rara lucidez!!!! A dialética esquerda-direita é uma MENTIRA para DIVIDIR PARA CONQUISTAR. SAIAMOS DE NOSSAS PRISÕES MENTAIS!!!! ABANDONEM SEU CULTO DE ESQUERDA-DIREITA!!! Conhecemos bem os sintomas e é nela que nossa consciência está presa. Devemos mover a consciência para as causas. Na esquerda os mecanismos de desigualdade do capital (nosso Deus) continuam a existir, o conceito doentio de autoridade, onde se impõe “o bem estar segundo a elite intelectual eleita pela maioria” através de ações coercitivas (VIOLÊNCIA) e não por consciência/VOLUNTARIADO continua a existir como O MAIOR PROBLEMA DA HUMANIDADE (Autoridade = escravdião), por fim, todas as medidas são garantidas por uma força MILITAR PERMANENTE, com origem na idéia de proteger os opressores e controlar os escravos, continuam a exercer o mesmo papel, nunca mudaram – não é substituir a polícia militar por outra coisa – é ABOLIR A POLÍCIA!!!! Quando nos defrontarmos na rua com o tamanho do problema real, termos que SER REPONSÁVEIS POR NOSSA PRÓPRIA DEFESA, só aí talvez vamos deixar nossos confortos para confrontar a extrema gravidade dos valores autoritários que defendemos por inércia e enxergar que não há solução politico-financeira para a humanidade, SEM PRE_REQUISITO TER FOCO EM CONSCIÊNCIA. Não somos 30% ou 70%, SOMOS 99% PORCENTO OPRIMIDOS, VAMOS DESPERTAR DA DESUNIÃO!!!!

  4. Ah, é, a revista Cult tem como pauta a “personalidade autoritária”, que não é um tema novo, mas que um amigo meu tem batido na tecla há pelo menos uns 35 anos, quando tirou um catatau no meio da poeira de um sebo e adquiriu por uma ninharia (sim, no capitalismo, o preço é aquilo que você pode conhecer). Ninguém dava muita bola, preferindo a indústria cultural a qualquer outra coisa. Provavelmente, será a nova moda, bem middle class esnobe e que não suja os seus sapatos nas ruas (a desculpa é a pandemia, antes era o desinteresse mesmo, preferindo o sofá com a mão no queixo).
    O cancelamento é apenas um fenômeno da militância middle class, a esquerda pequeno-burguesa e pró-capitalismo, e não da extrema-esquerda anticapitalista. Como a middle class faz militância em seus nichos (maisl culturais que políticos), fazem seus estudos e tal, não metem o pé na lama, não sabem o que é trabalho de base, fez algo completamente bizarro: adaptou seu individualismo à “consciência política”, expressa por uma arrogância violenta sem par. Consideram que há um local para eles na sociedade em detrimento dos demais (hierarquização, conservadorismo, certo?). Incapazes do trabalho pedagógico que é a militância, preferiram ser o superego de alguém.
    Agora, leiam a revista Cult do mês. Falar sobre é a melhor maneira de evitar a identificação. Coragem!

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