Se o duelo Bolsonaro-Macron é um jogo de ganha-ganha, quem são os perdedores?, por Alon Feuerwerker

E se Trump perder a eleição? Aí teríamos um replay das tensões entre Jimmy Carter e Ernesto Geisel. Bem, nesse caso sempre restará a carta chinesa para colocar na mesa

Imagem: Frederico Mellado / ARG

Por Alon Feuerwerker

À medida que a fumaça (sem ironia) da batalha se dissipa, fica claro: a disputa entre Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron leva jeito de ganha-ganha. O francês afagou seus agricultores e lustrou o figurino de líder mundial na luta pela salvação do planeta. Já o brasileiro reagrupou as tropas. O ambientalismo é a corrente política ascendente na Europa. E o apoio das Forças Armadas é um passaporte para a estabilidade do governante no Brasil.

Bolsonaro terminou bem a semana. Além de varrer do noticiário os resmungos internos, sempre em off, pelo tratamento sem deferência dispensado aos militares graduados palacianos, parece ter fechado um acordo de procedimentos com Sergio Moro. E este leva jeito de ter percebido que não lhe convém sair do governo. Deixaria sua tropa exposta a retaliações. E, após as manchetes lácrimo-laudatórias, ou iria para o ostracismo ou viraria coadjuvante de João Doria.

Coadjuvante por coadjuvante, melhor ser do presidente da República.

Do lado de Macron, o protagonismo ambientalista ajuda-o também a receber um olhar mais condescendente nos problemas internos. O chefe do Eliseu foi neste episódio um mestre no manejo do “jornalismo de causas”. Funciona assim: Se você defende uma causa pré-definida como certa, você está certo a priori em qualquer debate relacionado à causa em questão. E não só. Aos amigos, tudo; aos inimigos, nem o manual da redação.

No campo bolsonarista, ganharam muitos pontos os militares, cujos líderes foram os únicos a repudiar expressamente a proposta macroniana de abrir o debate sobre a internacionalização da Amazônia. Já registrei aqui mas não custa repetir. A bandeira “A Amazônia é nossa”, que enfeitou por décadas os ambientes da esquerda, hoje está pendurada como troféu de guerra nas paredes da direita. A raiva é uma péssima conselheira, sempre costuma lembrar o ex-presidente Lula.

Mas, e o risco de isolamento global? No momento é baixo. A força da agropecuária nacional leva França e Irlanda a resistir à invasão do agronegócio brasileiro. Mas para a Alemanha a abertura aqui do mercado de compras públicas e para importar manufaturados é um negócio irresistível. Cada um com seus problemas, deve ter pensado Frau Merkel diante da belicosidade verbal de Monsieur Macron. Ainda que ela também esteja sob pressão dos Verdes.

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Bolsonaro move-se em circunstâncias geopolíticas favoráveis. Interessa aos Estados Unidos manter o Brasil sob seu guarda-chuva, pois a alternativa é o deslocamento brasileiro para mais perto da órbita da China. E se Trump perder a eleição? Aí teríamos um replay das tensões entre Jimmy Carter e Ernesto Geisel. Bem, nesse caso sempre restará a carta chinesa para colocar na mesa. Como Geisel manejou a carta alemã. E, afinal, cada dia com sua agonia.

Por falar em carta chinesa, veio da embaixada da China em Brasília o apoio verbal mais musculoso ao Brasil no caso dos incêndios amazônicos. Fica a dica.

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O presidente disse que vai vetar coisas na Lei de Abuso de Autoridade. Aí caberá a Moro lutar no Congresso Nacional para evitar a derrubada. Vetos são derrubáveis pela maioria absoluta dos deputados (257) e senadores (41). Quanto Bolsonaro vai se meter nisso? Mais provável é que se meta pouco, muito pouco. Já está claro que ele dá um boi para não entrar numa briga com o Legislativo, e dá uma boiada para sair.

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A economia dá sinais de retomada lenta. Mas os empregos gerados são por enquanto poucos e de baixa qualidade. O que vai pesar mais no povão na hora de avaliar o governo? As coisas estarem melhorando? Ou elas melhorarem pouco e devagar? Façam suas apostas.

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5 comentários

  1. Duelo de troca-troca, voce disse?

    De fato, nunca tive um desses.

    Mas Moro adoooora. Ainda nao posso adicionar a segunda sentenca a respeito dele.

  2. Visão dessa análise é semelhante a de que Saddam Houssein também se fortalecia para seu público interno (os militares de seu governo), ao “peitar” inspeções internacionais de armas que nem existiam, alegando soberania. Deu no que deu.
    O Brasil só terá apoio internacional majoritário se tiver políticas sustentáveis para a Amazônia, do contrário será visto como ameaça como eram as armas de destruição em massa. Apoio só dos EUA, é perder a soberania para os EUA.
    Trump só apoia Bolsonaro nessa, porque quer que o Brasil se alie aos EUA contra o acordo de Paris que dá vantagens competitivas à China diante dos EUA na emissão de CO2 (e vantagens ao Brasil também, em menor escala, pois é menos industrializado e tem matriz energética mais limpa, porém conforme a quantidade de queimadas, decomposição orgânica de desflorestamento e do agronegócio pode emitir mais CO2 do que energia a carvão).
    O artigo não explicitou a nota da embaixada da China, mas aposto que incluiu apoio dentro do acordo de Paris, como ocorreu na nota conjunta dos BRICS no G20 neste ano: apoio ao acordo de Paris e à OMC, entre outras coisas do interesse comum da China, Rússia, Índia e do próprio Brasil, contrário a agenda de Trump. Na hora do vamos ver, Bolsonaro assinou em papel tudo o contrário do que fala.

  3. Bem fraquinha a análise. Não existe auto – engano de achar que o governo vai cair a qualquer momento. Mas cadê o plano do pais sair da merda? Da direita? Não existe e o que existe não tira. Apoio dos militares? militares são a retórica que muito babaca acredita, não governam nem as forças armadas. Só estão querendo ganhar igual aos juízes. A tropa passa fome e é oprimida nos quartéis. Se essa gente se levanta, pendura esses canalhas golpistas em cada poste daqui até o Pará.

  4. Há alguns pontos sem nó nesta análise entre a disputa Macron-Bolsonaro como um ganha-ganha para os dois, pois ela despreza alguns itens que são bem mais importantes do que os desaforos do governo brasileiro e as respostas mais educadas do presidente francês, pois lá vamos as considerações paralelas.
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    A primeira delas é que não são as discussões intestinas de dois presidentes que movem a política econômica, ou seja, estando ou não as forças armadas brasileiras prestigiadas isto não levará uma melhora de economia, pois simplesmente os movimentos de todos os presidentes não significam praticamente nada no rolo que a economia se meteu. Os 0,4% de crescimento do PIB num trimestre não indica que a economia está ou não se recuperando, pois o valor é tão baixo que pode ser considerado mais um ruído na variação deste número ou até uma pequena manipulação de dados feito por setores que procuram dar um impulso, principalmente setores que acreditam mais em fatores do tipo, ânimo dos empresários, confiança do consumidor e mais outras balelas, como mola do crescimento. Parece mais papo da desacreditada escola austríaca de economia, que é tão desacreditada que nas melhores escoas de economia do mundo nem é ensinada, pois índices mais confiáveis nem são considerados pelos adeptos desta escola. Diga-se de passagem, que essa escola de economia é a preferida por médicos, advogados, arquitetos e no máximo contadores para explicar como funciona a economia, pois não precisam saber o mínimo de matemática para palpitar sobre os destinos do mundo.
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    Para termos uma ideia como vai a economia global seria melhor apresentar a curva descendente do volume de comércio mundial que está em ladeira abaixo devido principalmente a falta de investimentos nos setores realmente produtivos.
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    Começando o debate sobre as perspectivas da economia internacional, um dos melhores indicadores da saúde delas é dado pela variação do volume das transações internacionais em relação ao ano anterior.
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    O gráfico apresentado é calculado pelo “Centraal Planbureau” do governo Holandês que mede a variação em volume e em moeda de todas as transações entre todos os países do mundo que tem volume suficiente para representar algo, eles também publicam a variação da produção industrial mundial seguindo o mesmo critério, ou seja, uma média móvel dos três últimos meses e comparam com um ano de retardo.
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    Aqui estará representado somente o primeiro dado, ou seja, a variação em volume do comércio internacional. Coloca-se a variação em volume pois em moeda esta pode estar sujeita a variações de valor real (cambial ou não) que em período curtos (mensais) muitas vezes não captam as variações reais da influência da variação do valor das moedas, principalmente o dólar.
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    A figura será colocado em artigo no meu blog, se ele for elevado a página principal olhem lá, se não, não sei como poderão acessa-lo.
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    Mesmo este gráfico deve ser olhado com cuidado para não cair na armadilha da falsa base de cálculo, por exemplo, no ano 2010 há um aumento considerável no volume de comércio, mas isto não significa que a economia estivesse bombeando, mas sim que a base era o período logo após à crise de 2008, logo muito abaixo das médias dos anos anteriores à crise.
    Como se pode ver após uma recuperação em 2010 o crescimento se mantém positivo, porém baixo, indo a zero no início de 2016 para se recuperar um pouco em 2017 e 2018 e mergulhando a valores em torno de zero no ano de 2019.
    Muitos poderiam dizer que a queda em 2019 é devido a guerra comercial lançada por Trump, entretanto esta na realidade começa somente em abril de 2019, ou seja, no segundo trimestre deste ano e por isto o seu reflexo num gráfico que apresenta uma média móvel de três meses deveria ser sentido somente no fim do segundo trimestre.
    Assim como Trump, alguns poderiam ficar animados com o crescimento do PIB norte-americano no segundo trimestre de 2019, porém para quem observa a origem deste, pode até prever um voo de galinha, pois neste crescimento de 2,0% (em taxa anualizada), porém se analisarmos os componentes deste incremento do PIB ele é resultante de um aumento significativo dos gastos das famílias norte-americanas. O que mais preocupa os analistas norte-americanos (analistas do mainstream) é que este aumento de consumo não reflete de forma nenhuma o aumento da renda dos norte-americanos, pois enquanto o consumo cresceu 4,7% enquanto a renda cresceu 0,1%, em resumo o que houve foi um maior endividamento do consumidor norte-americano ou gasto de suas reservas para investimento.
    O importante a destacar é que mesmo os economistas do mercado, como Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, previu para o site MarketsInsisder que “O terceiro trimestre deve ser menos desigual, mas as perspectivas de gastos de capital estão se deteriorando rapidamente diante do crescimento mais lento dos lucros e da incerteza criada pela guerra comercial”, ou seja, estão adotando uma análise clássica da economia marxista, o crescimento é uma função do investimento criado pelo aumento do lucro das empresas.
    Em cálculos que são feitos da taxa de lucro das empresas, que correspondem a capacidade de investimento das mesmas, a medida que as taxas de juro já atingiram patamares de rendimento zero (ou mesmo negativo, como no Japão), vem decrescendo lentamente.
    Os mecanismos monetários clássicos, como a queda da taxa de juros a valores próximo ou até abaixo de zero, que muitos economistas ainda pensam que são válidos, tem gerado na realidade é o aumento das chamadas empresas zumbis (Zombie firms), que são classificadas como empresas maduras (com mais de dez anos de existência) que não conseguem gerar lucros nem para pagar seus empréstimos, que quiser saber mais deste fenômeno sugiro que leiam “The rise of zombie firms: causes and consequences” de um economista do BIS (Bank for International Settlements) que pertence a 60 bancos centrais das pricipais economias do mundo representando 95% do PIB mundial, ou se querem entender melhor o crescimento destas empresas zumbis na economia internacional e sua relação com a taxa de juros e com a produtividade, sugiro a leitura de “The Walking Dead? Zombie Firms and Productivity Performance in OCDE Countries”, que apesar de apresentar um título que parece mais um chamariz de um vídeo do YouTube, é uma publicação do departamento de economia da OCDE. Estes dois artigos publicados no fim do ano de 2018 em locais completamente adversos, demonstram que rebaixar a taxa de juros ainda mais, como pede Trump, só aumentará o número de empresas zumbis e trancará mais ainda a capacidade de investimento das empresas não zumbis.
    O resumo final da ópera, tratar a economia como um jogo de egos e de desaforos mal-educados ou polidos entre presidentes é uma falta de visão em termos de economia internacional.

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