Terruá esclarece que nunca teve “qualquer envolvimento com as investigações da Lava-Jato”

Em nota, Agência afirma que decisão da Apex de não prosseguir contratação "causou estranheza" e considera ruptura como "resultado de questão política interna". Entenda

Divulgação de um evento realizado pela Apex

Jornal GGN – A Agência Terruá divulgou uma nota de esclarecimento afirmando que nunca teve qualquer envolvimento com as investigações da operação Lava Jato. A empresa foi um dos fatores de desentendimento que levou à exoneração do embaixador Mário Vilalva da presidência da Apex, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos.

O diplomata de carreira, escolhido para chefiar a Apex no final de janeiro, após a saída de Alecxandro Carreiro, desabafou à imprensa que teve sérias dificuldades de atuar na Agência, especialmente, por conta de dois diretores – Letícia Catelani (Negócios) e Márcio Coimbra (Gestão Corporativa) – que paralisaram os procedimentos da entidade criada para promover exportações, especialmente de pequenas e médias empresas brasileiras.

Vilalva foi demitido por telefone pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, após expor seus conflitos dentro da Agência. Um dos acontecimentos envolveu a Terruá. A Apex aprovou a contratação da empresa para gerir a participação dos irmãos Campana (dois dos mais importantes designer do país) como a principal atração do estande brasileiro na feira de móveis e design de Milão.

Após uma reunião na diretoria da Apex, ficou acordado que Catalani e Coimbra assinariam o contrato no dia seguinte. Vilalva contou em entrevista à Piauí que a diretora não compareceu à Agência no dia seguinte. Depois de conseguir contatá-la, ela informou que ficaria fora do escritório, tratando de outros interesses, e que ele mandasse o contrato para assinar por um portador.

“Era lógico que eu não ia fazer isso. O contrato tinha que ser assinado na agência, diante de testemunhas, que é a forma profissional de se fazer isso”, disse o Embaixador.

Pouco tempo depois, uma série de notas surgiram em redes sociais e sites, afirmando que a empresa foi citada na operação Lava Jato.

Além de negar o envolvimento em investigações da justiça, a Terruá completou em nota que a decisão tomada pela Apex, em fevereiro, “de não renovar o contrato de marketing promocional” com a empresa “causou estranheza”, destacando que vinham trabalhando com a Apex desde novembro de 2018 “na criação e desenvolvimento de ações marcadas” que vão acontecer em março e Abril nos Estados Unidos e Itália, respectivamente.

“À luz dos fatos, fica claro que a decisão de ruptura foi resultado de uma questão política interna”, prosseguiu. A agência afirmou ainda atuar há seis anos, “com transparência e qualidade”, “no planejamento e execução de projetos na área de Live Marketing, tanto no setor privado quanto no público”.

Para Vilalva, a desinformação foi difundida pela própria Catelani, amiga de Felipe Martins, assessor internacional de Jair Bolsonaro. A manobra, segundo ele, seria para colocar em dúvida a sua reputação a frente da Apex.

“Todas as vezes que falamos desse contrato, jamais foi levantada qualquer suspeita sobre a empresa. Por que então, no dia seguinte, começam a pipocar essas notas?”, questionou. “E, se ela sabia da tal citação, por que não me informou?”, completou o embaixador.

No Facebook, um grupo autodenominado “Direita Conservadora” divulgou a história do suposto envolvimento da Terruá em investigações da Lava Jato. No poste, a página que divulga amplamente vídeos de Olavo de Carvalho, escreveu: “A diretora Leticia Catelani e o diretor Márcio Coimbra, indicados por Eduardo Bolsonaro, nunca foram coniventes com a corrupção, e se recusaram a renovar o contrato com a agência de marketing e, por isso, passaram a sofrer retaliação por não terem cumprido a determinação de Vilalva”.

Olavistas no comando

Segundo informações da coluna Painel, da Folha, a renovação de contratos com a Terruá recebeu aval do general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência. Coincidentemente, a partir de março, Santos Cruz passou a ser alvo de ataques de Olavo de Carvalho.

A polêmica começou quando o escritor chamou o vice-presidente Hamilton Mourão de “cara idiota” e “estúpido”, afirmando que Bolsonaro está de “mãos amarradas” e que os militares do governo têm “mentalidade golpista” e “são um bando de cagões”. As críticas aconteceram no dia 16 de março, quando Olavo foi convidado especial em um jantar que recebeu o presidente Bolsonaro quando esteve em Washington.

Em resposta ao polemista, o general Santos Cruz disse ao jornal Folha não se interessar pelas ideias do escritor. “Por suas últimas colocações na mídia, com linguajar chulo, com palavrões, inconsequente, o desequilíbrio fica evidente”, completou.

A partir daí Santos Cruz passou a receber críticas diretas de Olavo. Em uma rede social, o escritor publicou que o general “simplesmente não presta” e que “jamais terá coragem de discutir cara a cara”. O escritor também acusou Santos Cruz de tráfico de influência por conta do tal contrato.

Olavo é mentor do presidente Jair Bolsonaro e também do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Já Letícia Catelani é apontada como braço direito de Araújo.

A aproximação aconteceu ainda no período de transição do governo. Expulsa do PSL, Catelani se reuniu a equipe de formação do governo e passou a ser uma espécie de braço direito do chanceler. Em seguida, ele que a conduziu à diretoria de Negócios da Apex.

“A Letícia é protegida do chanceler. Faz o que quer aqui. É uma relação pessoal que não conseguimos entender” disse um antigo funcionário da agência à jornalista Consuelo Dieguez, da Piauí.

Para evitar a saída de Catelani da Apex, Ernesto Araújo foi além e, sem avisar o presidente ou consultar a diretoria da Agência, alterou o estatuto da entidade em cartório que, além de retirar poderes do presidente da Apex, proíbe a demissão dos diretores de Negócios (Catalani) e Gestão Corporativa (Mario Coimbra).

Vilalva avaliou que foi a própria Catelani que pediu para o ministro das Relações Exteriores alterar o estatuto. Ele só teve conhecimento da mudança 25 dias depois da assinatura no cartório e através da imprensa.

“[Agora] eles são livres e sem restrição para fazer as loucuras que quiserem”, ponderou o embaixador.

Em nota para justificar a exoneração de Vilalva, publicada nesta quarta-feira (10), Araújo disse que a mudança aconteceu para “dinamização e modernização do sistema de promoção comercial brasileiro”. Mas o que fica cada vez mais claro é a cisão entre dois grupos do governo: os olavistas e os militares.

Vilalva é filho de militar e próximo da área mais técnica do governo e anti-olavista. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele negou que procurou se blindar do cargo com o apoio dos militares. Porém destacou que mantém boas relações com os generais do governo, citando o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno.

“Eu sou filho de militar, portanto eu tenho total conhecimento do que é a ala ou o ambiente militar. Eu cresci nesse ambiente e prezo muito os militares, tenho muito respeito pelo trabalho que eles fazem no Brasil. Evidentemente que eu cheguei a conversar com alguns representantes da ala militar no Planalto sobre essa questão, e eles compreenderam perfeitamente bem a minha situação de aflição dentro da agência”, acrescentou.

1 comentário

  1. Não quero crer que neste governo todos tenham natureza desumana. Será que muitas das pessoas estão agindo ideologicamente ou estão tendo de atender a exigências “maldosas” que lhe são postas e contrárias as suas próprias ideologias? Algumas pessoas vão ficar com sua psique esfacelada, pois parecem que tem de assumir um estado emocional que não tem como atender, num governo onde o próprio eleito não gostaria de ter sido escolhido para governar.

    – Na Câmara, Damares faz rodeios sobre esvaziamento de conselhos e chora

    https://www.cartacapital.com.br/diversidade/na-camara-damares-faz-rodeios-sobre-esvaziamento-de-conselhos-e-chora/

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