Um pequeno inventário da recorrência de sonhos na quarentena, por Wilson Ferreira

Para Freud o sonho é o guardião do sonho. O sono é uma necessidade fisiológica e o sonho tenta protege-lo

 

Não é apenas a nossa consciência que desperta para o atual momento da pandemia global. Também os nossos sonhos estão traduzindo o momento difícil pelo qual passamos. Nesse momento, psicólogos, historiadores, artistas e estudiosos de diversas áreas estão percebendo a recorrência de símbolos nos sonhos que se assemelham historicamente aos períodos de guerra ou totalitarismo político. Começam a surgir esforços para a criação de banco de dados em todo o mundo, com relatos de sonhos da COVID-19. Por exemplo, pesquisadores da USP criaram o “Inventário dos Sonhos”, enquanto na Universidade de Harvard temos o projeto “Pandemic Dreams” com relatos de sonhos de todo o mundo. “Os sonhos são o sismógrafo do presente”, como afirmava a berlinense Charlotte Beradt em seu livro “Os Sonhos do Terceiro Reich”. Assim como o psicanalista Carl Jung nas análises dos sonhos de seus pacientes, ambos anteviram a ascensão do nazismo. Por isso, também esse Cinegnose iniciou um pequeno inventário de relatos oníricos da quarentena. Nessa postagem, uma análise das primeiras recorrências simbólicas do nosso material pesquisado. Estaríamos diante de um sonho/pesadelo coletivo?

Para Freud o sonho é o guardião do sonho. O sono é uma necessidade fisiológica e o sonho tenta protege-lo.

Se o despertador toca é muito comum o sonho disfarçar a campainha de alarme, tecendo com ela uma história qualquer…Você está na igreja, com os sinos tangendo; ou então num escritório, onde um telefone estridente reclama que o atendam”. Dado o estímulo, o sonho cria o cenário, fornece atores e adereços para as cenas, tudo isso extraído das experiências e impressões do dia-a-dia de quem está dormindo.

Também para nos manter adormecidos os sonhos deformam as nossas histórias e tudo aquilo que não admitimos em nós mesmos.

Mas os sonhos têm um outro lado: essas narrativas ficcionais criadas para nos apartar da realidade encontram o seu limite: pelo fato do sonho fugir do controle dos pensamentos racionais, o inconsciente e os desejos acabam se conectando com “imagens primordiais” que não se explicavam unicamente pela transmissão cultural ou educação. São como pontos nodais de um inconsciente coletivo que atrairiam energia, influenciando o funcionamento do indivíduo. São “arquétipos”, símbolos do inconsciente coletivo, no sentido dado por Carl Jung.

Por isso os sonhos são sismógrafos do que está ocorrendo no presente… ou, quem sabe, que acontecerá no futuro.

Por exemplo, em 1936 o psicanalista Jung começou a perceber um fenômeno onírico que parecia anteceder momentos de turbulência, como a guerra: conteúdos que exprimiam crueldade, brutalidade e violência. A recorrência desses temas levava a crer que não eram puramente de caráter pessoal, mas coletivo. Os delírios apareciam nos sonhos dos pacientes e nos próprios sonhos de Jung.

No momento da ascensão do nazismo, o que Jung viu nos sonhos dos seus pacientes (e nele próprio) foram forças inconscientes que personificariam o deus Wotan: “deus da tormenta e da efervescência, desencadeador das paixões e das lutas e, além disso, mago poderoso e artista das ilusões, ligado a todos os segredos da natureza oculta” (JUNG, Carl G., Aspectos do drama contemporâneo, Petrópolis, Vozes, p.5).

 

 

Sonhos da ascensão de Hitler

Entre 1933 e 1939 a pesquisadora berlinense Charlotte Beradt documentou o material onírico dos alemães durante a ascensão de Hitler até o início da Segunda Guerra no seu livro “Os Sonhos do Terceiro Reich”. Nele, documenta como o regime totalitário se infiltrou no inconsciente de uma nação. Sonhos com simbolismos que expressavam morte, persecução, paranoia, perseguição, tortura etc. eram recorrentes nas 300 entrevistas, feitas pela jornalista, de berlinenses das mais variadas camadas sociais – leia BERADT, Charlotte, Os Sonhos do Terceiro Reich, São Paulo: Três Estrelas, 2007. 

O resultado foi um painel onírico sobre os efeitos de um regime de terror sobre a psique dos cidadãos de um país.

Psicanalistas, terapeutas, médicos neurologistas e especialistas do sono chegaram a um consenso: no grave momento atual de quarente forçada em que estamos vivendo na crise provocada pela pandemia global do novo coronavírus, muitos relatam sobre sonhos malucos, noites mal dormidas com pesadelos ou insônia. Uma alteração geral da qualidade do sono e do conteúdo dos sonhos são cada vez mais comuns.

“Cada pessoa reage de uma forma”, explica Gustavo Moreira, médico pesquisador do Instituto do Sono de São Paulo.  “Algumas pessoas negam o perigo, outras ficam amedrontadas e se enclausuram, outras aproveitam a mudança para repensar planos de vida. Neste cenário de emoções, há uma predisposição para o aparecimento de sonhos, pesadelos e despertares noturnos frequentes.”

 

 

Inventário dos Sonhos

Em São Paulo, por exemplo, um grupo de três psicanalistas e pesquisadores criou o “Inventário de Sonhos”, plataforma que recolhe relatos de sonhos tidos a partir do início de março, para estudos futuros sobre psicanálise e saúde mental. Também se espalhou mundo afora a hashtag #pandemicdreams (sonhos pandêmicos), um verdadeiro repositório de breves narrativas oníricas de toda ordem. Mas, além de fornecer material a estudiosos, podemos tirar algo dos sonhos para nossas vidas? A resposta é sim.

“Uma das coisas que estão acontecendo hoje é que as pessoas estão sonhando muito”, afirma Paulo Endo, psicanalista e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP) e um dos pesquisadores do “Inventário dos Sonhos”. “Tem coisas que estamos vivendo, e que já estão aparecendo no mundo inteiro, que é o que aparece em cenários de ditadura, totalitarismo ou guerra, quando as pessoas não podem acessar os elementos básicos, materiais, sociais e públicos para elaborar a morte do seu morto”, explica o psicanalista.

O inventário de sonhos do Cinegnose

Em postagem anterior sobre o massacre na escola pública da cidade de Suzano (SP), ocorrido em março do ano passado, este Cinegnose já apontava a necessidade de descobrirmos quais seriam os símbolos recorrentes nos sonhos dos brasileiros desde que o psiquismo nacional foi envenenado pelo ódio e polarização política açodado pela grande mídia. 

 

 

Principalmente, porque o massacre de Suzano era mais uma tragédia num crescendo de eventos como o rompimento da barragem de Brumadinho e o incêndio no alojamento de atletas da base do Flamengo que matou dez jogadores.

Foi pensando nisso que esse humilde blogueiro se propôs a fazer uma enquete, com pequenas entrevistas num universo de 20 pessoas, sobre relatos do último sonho mais lembrado nesses últimos dias. Claro, sem nenhuma validade científica por amostragem ou algo parecido.

Minha principal curiosidade era se seria possível encontrar algum tipo de recorrência nesse pequeno universo relatos oníricos: temática, iconográfica, situacional etc. 

Em outras palavras, se é verdade que os sonhos são sismógrafos de um determinado momento histórico ou social, a recorrência seria o principal indício dessa dinâmica dos sonhos. O ponto de partida para uma posterior pesquisa mais aprofundada, dessa vez de caráter científico.

(a) Invasão e vulnerabilidade: o teto sumiu!

O primeiro tema recorrente é o da “invasão” ou “vulnerabilidade” do próprio lar, que coincide com um dos sonhos recorrentes do livro “Os Sonhos do Terceiro Reich”: o tema da “casa sem paredes”. Lá na Alemanha as narrativas oníricas expressavam o temor dos olhos da SS invadirem a privacidade do lar.

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