Uma breve observação sobre o atual conflito em Gaza

Por Judson Clayton Maciel

O Hamas é um movimento islâmico (filiado á Irmandade Muçulmana) que possui diversas tendências internas. Um bom livro para saber sobre a estrutura concreta do Hamas é a do ex-jornalista da Al-Jazeera, Khaled Hroub, ‘Hamas- Um Guia Para Iniciantes’. Era de interesse não só do governo israelense de Netanyahu, bem como dos próprios radicais islâmicos dentro do Hamas, o assassinato de tal general moderado semana passada, que originou a retaliação do Hamas e o início da operação ‘pilar defensivo’ por parte de Israel. É queima de arquivo mesmo. Palavras documentadas do cientista político da Universidade Islâmica de Gaza, Mkheimar Abu Saada autenticam isso: “Jabari (o general do Hamas) defendia a permanência de Meshal no comando do politburo. Sua morte enfraquece a candidatura dele e fortalece a atual liderança política (Ismail Haniyeh – atual líder do Hamas e da ala mais fundamentalista islâmica dessa organização) com quem tinha divergências. Jabari não era uma figura política, mas, como militar, lutou para ficarem fora da briga entre as duas facções.”

Ou seja, a conta é simples: Hamas é hoje o governo mais mal avaliado na história das facções que já governaram os territórios ocupados da Palestina. Seu índice de rejeição em Gaza bate recorde. O Hamas segue fazendo desde 2011 o cancelamento das eleições em Gaza. Pois sabem que não serão eleitos novamente representantes do Povo Palestino na região. Além disso, é notório o desejo tanto de Israel quanto de Hamas obstruir a ida de Mahmoud Abbas no próximo dia 29 de Novembro na ONU, onde o mesmo irá apresentar a candidatura da Palestina como Estado membro-observador.

No caso do Hamas, a presença de Abbas na ONU representará mais votos para o Al Fatah. E a não reeleição do próprio Hamas, obviamente. Então, a atual ala que comanda esta organização precisa de uma forte justificativa para mostrar a sua “resistência palestina” com a continuidade desse atual conflito e ganhar pontos e votos da maioria dos moradores de Gaza que hoje os reprova. Do outro lado, Netanyahu com este ataque tenta esconder os problemas sérios que tomaram conta de Israel, principalmente, com a crise econômica na Europa e nos EUA da onde provém grande parte da receita de seu PIB. E que arrasou diretamente sua economia. Sem contar que, a presença de Abbas na ONU dia 29 atrapalharia em muito o atual governo israelense nas suas eleições que acontecerão no início de 2013. E se Abbas, por alguma sorte do destino, conseguisse elevar o status da Palestina como membro-observador na ONU? Simplesmente, a Palestina poderia processar os governos de Israel e seus crimes contra a humanidade quantas vezes fosse necessário em todos os organismos internacionais! Isso abriria um rombo diplomático sem precedentes na política israelense na qual nem seus maiores aliados, em especial os Estados Unidos, conseguiriam deter. Então, tem muita coisa aí envolvida do que a gente imagina. Voltando um pouco ao Hamas, esta organização em nome da “resistência palestina” sempre atendeu primeiramente seus próprios interesses em detrimento aos do Povo Palestino. Raras foram às vezes que abriram mão de suas imposições na OLP e boicotam todas as ações da Autoridade Nacional Palestina, que é composta por todos os grupos políticos palestinos, inclusive eles mesmos. Pensam somente em seus próprios interesses ou me digam quando, baseados em fatos comprovados, o Hamas abriu mão de alguma coisa? Duvide sempre de um conflito quando as organizações Palestinas não se unem. Fatah, FPLP, FDLP, emitiram comunicados condenando os ataques israelenses. Mas, dizem que a questão deve ser resolvida no diálogo, após a ida de Abbas á ONU. Fayez Rashid, importante membro da Frente Popular de Libertação da Palestina, a mais importante organização de esquerda da Palestina e uma das últimas de todo Oriente Médio, divulgou uma nota ontem (19/11) no site oficial da FPLP (em árabe – usem o Google tradutor para ler) condenando os ataques israelenses, e analisando toda essa estratégia política de Netanyahu que vemos hoje. Encerra seu artigo dizendo: “Não pode permanecer a fragmentação que fere nossa causa e nosso Povo e seu projeto nacional. Somos obrigados, nós palestinos e árabes, a desenvolvermos novas estratégias em face aos ataques dos inimigos sionistas”.

Eu tenho algumas críticas aos governos de direita palestinos comandados pela AL Fatah. No entanto, de forma direta, está mais do que comprovado que o Hamas perdeu sua credibilidade e hoje está ajudando conscientemente, por óbvias questões políticas e financeiras, o imperialismo e sionismo a obstruir a ida de Abbas na ONU dia 29 e a atenção do mundo e da mídia ao Fórum Social Mundial Palestina Livre que acontece dos dias 28 de Novembro a 1º de Dezembro em Porto Alegre (RS). Isso não é resistência! É burrice que está ceifando a vida de centenas civis palestinos e que já matou civis israelenses dando mais justificativas para o sionismo vitimar-se e continuar suas barbáries. O Hamas é hoje uma organização religiosa, teocrata e ditatorial. Nada tem de política. Antimarxista ao extremo (expulsaram todos os membros da esquerda Palestina da FPLP de Gaza). Na qual seu fundamentalismo é tanto que regra até o modelo do corte de cabelo dos jovens de Gaza. Seus objetivos são ditados pela Irmandade Muçulmana. E sabemos bem dos diversos tentáculos que possui esta organização, que hora se coloca contra o imperialismo e hora é prestadora de serviços dele. Não podemos fechar os olhos com respeito o que o Estado israelense está fazendo. Mas, tampouco, com as atrocidades também cometidas pelo fundamentalismo islâmico no Oriente Médio e representado nesta guerra pelo Hamas. Enquanto Hamas se faz de “vítima” em Gaza, na Síria eles ajudam com demais grupos islâmicos fundamentalistas, como a Al-Qaeda e o Talibã, juntamente dos mercenários Black Waters e da Mossad, a perseguir e degolar civis sírios e refugiados palestinos. Já notaram quantos membros do Hamas já morreram neste conflito e quantos civis palestinos? Ora, os líderes do Hamas não estão em Gaza. Eles estão no Egito e junto a sua Irmandade vendo o “circo pegar fogo” em nome de uma suposta “resistência”. Suas ações na Síria e a visita do Emir do Qatar em Gaza, o xeque Hamad ben Khalifa al Thani, um dos principais mantenedores do imperialismo e aliado do sionismo deixou bem claro em que lado eles estão. Não passem a mão na cabeça do Hamas e do seu fundamentalismo que observa somente seus próprios interesses. Ser contra as atrocidades do governo terrorista de Israel, não significa ser a favor da leviandade e dos interesses fundamentalistas do Hamas que hoje não atende aos interesses do Povo Palestino que só sofre com mais este conflito e mortes de membros de suas famílias. Não podemos esquecer que há também o interesse de classe dos respectivos lados neste conflito, Hamas e governo de Israel, manterem seu poder “fazendo guerra” e zelando assim a hegemonia dos interesses do capital sionista e dos capitalistas árabe. Pois nesta guerra as burguesias de respectivos lados se mantêm imunes e perpetuadas no discurso do “medo” e da “resistência”, enquanto os trabalhadores árabes e judeus é que sofrem com ela. Isso não é resistência e é uma vergonha pessoas de esquerda não denunciarem isso. Finalizando, vamos aos dados finais que autenticam as afirmações que sempre que têm eleições em Israel, os sion-fascistas armam alguma operação e o Hamas está sempre disposto a ajudá-los:

Curiosas “coincidências” entre a data das eleições israelenses (marcadas para o início de 2013) e suas operações militares:

OPERAÇÃO MILITAR: Pillar off cloud – INÍCIO: Nov. – 2012 – DATA DAS ELEIÇÕES: Jan – 2013

OPERAÇÃO MILITAR: Cast lead – INÍCIO: Dez – 2008 – DATA DAS ELEIÇÕES: Fev. – 2009

OPERAÇÃO MILITAR: Lightening strike INÍCIO: Fev. – 2006 – DATA DAS ELEIÇÕES: Mar – 2006

OPERAÇÃO MILITAR: Defensive Shields- INÍCIO: Jun. – 2002 – DATA DAS ELEIÇÕES: Jan – 2003

OPERAÇÃO MILITAR: Grapes of wrath -INÍCIO: Abril – 1996 – DATA DAS ELEIÇÕES: Maio – 1996

O atual conflito é um jogo. Onde as centenas de civis palestinos mortos nestes últimos dias não podem somente ser colocadas dessa vez na conta do governo genocida israelense. Mas, também do seu pit-bull colaboracionista Hamas, que hoje é o principal aliado do governo israelense na Palestina. A junção de um grupo islâmico fundamentalista e um governo genocida é um prato cheio para a perpetuação do terrorismo. Além de claro, financeiramente isso ser benéfico para as classes dominantes de ambos. Somente os povos palestinos e israelenses poderão resolver esta questão. Quando abrirem os olhos e elegerem pessoas sérias de esquerda (o que não aconteceu até hoje entre ambas as partes) e não extremistas que dependem um do outro para sobreviverem atendendo seus próprios interesses nesta estúpida guerra que já dura sete décadas. Passem a observar atentamente isso e virão esta realidade nua e crua.

Pela Palestina Livre, Soberana, Laica e Democrática!

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