Vidas Paralelas: o Marquês de Sade e o capitão Jair Messias Bolsonaro

Conduzido à presidência pelo ódio, mantido presidente pelo ódio, o ex-capitão se obriga a perpetuar o clima de ódio que incentivou

Plutarco, ou Lúcio Méstrio Plutarco, foi um filósofo e historiador grego que viveu entre os séculos I e II da nossa era. Sua obra-prima é “Vidas Paralelas”, composta por 23 pares biográficos de homens ilustres da Grécia e de Roma antigas. É um livro de fundamental importância para se conhecer a vida e a obra desses que representam, para o bem e para o mal, os dois maiores estados da antiguidade. Procuro aqui recriar um pouco do clima do livro, começando com os dois personagens do título.

 

UM FILÓSOFO MONSTRUOSO

Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, nasceu em Paris, no dia 2 de junho de 1740, morrendo no Hospício de Chareton aos 74 anos. Passou cerca de 30 anos na cadeia por numerosos delitos, não sendo condenado à morte apenas em virtude de seu título de nobreza e pela intervenção de amigos influentes.

Seu livro mais conhecido e, digamos, paradigmático, “Os 120 dias de Sodoma”, relata, com crueza espantosa, a vida de um grupo de quatro nobres ricos e depravados, encerrados num castelo, onde cometem toda a espécie de torturas físicas, psicológicas e sexuais sem qualquer limite. Da primeira vez que tentei, não consegui ler até o fim, e olhem que não sou exatamente um puritano. Foi preciso uma segunda tentativa, já na maturidade, para penetrar a violência crua dessa obra capital para o conhecimento de até onde pode ir a maldade (e a impunidade) dos poderosos e, por extensão, do ser humano quando se deixa levar pelos seus piores instintos.

“E agora, amigo leitor, prepare seu coração e sua mente para a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe, livro que não encontra paralelo entre os antigos ou entre os modernos”, assim começa Sade, e não sem razão.

A narrativa principia quando o grupo se tranca com suas 46 vítimas, a maioria constituída por belos adolescentes de ambos os sexos, raptados a alto custo, num castelo inacessível, de onde é impossível fugir. Ali acontece tudo que se possa imaginar em termos de perversão. O mote é dado por quatro mulheres, cafetinas profissionais, que contam suas vidas e aventuras. A cada relato é desencadeado um processo de tortura e abuso sexual, processos que vão se tornando mais cruéis gradualmente, terminando em estupro e assassinato de praticamente todos os envolvidos. Só então os nobres se dão por satisfeitos, voltando impunes para suas casas, prontos para recomeçarem, já que o livro sugere uma espécie de eterno retorno.

Sade escreveu esse livro em 37 dias, durante uma temporada na Bastilha, em 1785. A obra escapou do saque à fortaleza no início da Revolução Francesa, chegando Sade a declarar que chorou lágrimas de sangue pela sua perda. A fortuna do manuscrito, para sorte da espécie humana, foi tortuosa embora feliz, mas só se tornou disponível para simples mortais como nós na segunda metade do século XX.

Mas o que pretendia Sade com sua obra?

O marquês era inimigo mortal de Deus, que odiava. Seu grande sonho era matar Deus, mas, sendo Ele inalcançável, ele o matava simbolicamente através de suas criaturas, quase sempre da maneira mais cruel que lhe ocorresse, como foi o caso de Justine, outra criação imortal de Sade, em “Justine, ou os infortúnios da virtude”.

 

UM EX-CAPITÃO MONSTRUOSO

Paralelamente, o que pretende Jair Messias Bolsonaro?

O ex-capitão é inimigo mortal de todos que não transitam pelo seu círculo íntimo e não aprovam sua arrogância, sua intolerância e sua absoluta mediocridade.

Para citar apenas um exemplo, quando proferiu seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, Jair Messias declarou textualmente:

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo (sic!), o meu voto é sim.”

Esmiuçando a estupidez acima, e espantado ao perceber quanta ignorância coube numa única frase, enumero quatro ofensas graves cometidas pelo ex-capitão:

01) O coronel Ustra foi diretamente responsável pela morte de pelo menos 50 pessoas e pela tortura de centenas de outras, incluindo Dilma, e não merece elogios.

02) Ao se referir ao “pavor de Dilma Rousseff”, ele estava se lambuzando de gozo em sua própria miséria moral, por absoluta falta de sentimentos cristãos.

03) A expressão “por Deus acima de tudo” (sic!) está equivocada, pois não só naquele momento, como ainda agora, grimpado na antipresidência, o ex-capitão só demonstra ódio a Deus, pela absoluta incapacidade de governar com um mínimo de dignidade, que seriam obrigatórias em um presidente de qualquer país.

04) Também está errado dizer “pelo Brasil acima de tudo”, pois Jair Messias tem demonstrado que governa apenas para si próprio, para sua família e seus parças.

            Conduzido à presidência pelo ódio, mantido presidente pelo ódio, o ex-capitão se obriga a perpetuar o clima de ódio que incentivou.

            Espero apenas que o trágico ex-capitão não seja devorado pelo ódio, para que o país possa ser, num breve futuro, entregue a um presidente à altura do cargo.

 

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