A produtividade e o combate à fome

Do Terra Magazine

Afogado em números: Só produtividade não combate fome

Rui Daher
De São Paulo

Velho amigo, leitor da coluna, reclama quando os textos vêm coalhados de porcentuais. Diz que há uma força interna que, vez ou outra, rompe a barreira e não me permite evitá-los. Concordo que são áridos, desinteressantes, mas parece que em assuntos econômicos é no que as pessoas acreditam. Basta ver o quanto a mídia os usa para obter credibilidade. Muitas vezes sem a merecer.

Diante do que leio e ouço de entidades superiores e avançadas sobre o futuro de nossa agricultura, nesta coluna, serei um estatístico eloquente, daí não recomendá-la ao amigo ou a quem pensa como ele.

O professor Geraldo Barros, coordenador do CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da ESALQ/USP), em artigo para a “Folha de São Paulo”, 07/08, reúne dados e conclui que “para reduzir a pobreza é preciso investir em produtividade”. Até aí temos a roda. Seu pensamento, no entanto, é instigante quando relativiza os efeitos dos programas de transferência de renda na inclusão social verificada nos últimos anos.

EleEle remete a maior parte do crédito à estabilidade da moeda (Plano Real) e ao crescimento da produtividade no campo.

Segundo a CONAB, a produtividade dos grãos cresceu em 20 anos, safras de 1979/80 a 1999/2000, a uma taxa anual de 2,8%. Resquício dos incentivos governamentais dados ao setor nos anos 1970. Período em que a produção cresceu 2,5% ao ano, embora a área plantada tivesse caído de 40 para 38 milhões de hectares.

Na época, a população crescia a uma taxa de 1,86%, abaixo, portanto, da produtividade. E foram tempos de alta inflação.

Na primeira década deste século, a produtividade cresceu a taxas pouco mais aceleradas (3,5% a.a). A área plantada foi de 38 para 47,4 MM ha (1,0% a.a), e a produção de grãos de 100 para 147 MM t. Já o crescimento populacional caiu para 1% a.a e a inflação esteve controlada.

Cabe notar que dentro desse mesmo período, e até a safra 2005/06, os ganhos de produtividade foram pouco expressivos, permanecendo estagnados em um patamar de 2.500 kg/ha. E mais uma vez a inflação permaneceu sob controle.

Foi somente a partir daí, nas últimas quatro safras, que o Brasil superou a marca de 3.000 kg/ha, um incremento de quase 5% a.a. A inflação continuou controlada.

Fosse a população carente, hoje beneficiada pelo crescimento dos emprego e renda, e pelos programas distributivos do governo, esperar Godot semear produtividade nos campos de arroz, feijão, milho e trigo do país, estaria passando a fome de sempre.

Os ganhos de produtividade são, antes de tudo, benéficos para os produtores rurais. Dão-lhes capacidade de manutenção e reprodução de sua atividade. Por vezes, excessos de produção, sem resposta na comercialização, geram oferta e episódios de preços baixos que não repercutem em taxas de inflação sustentáveis, mas aniquilam as margens da agricultura.

Nada diferente do que faz o Banco Central ao manter a moeda nacional valorizada frente ao dólar para conter a inflação. No fim, o que consegue é inibir as exportações brasileiras de bens primários e industrializados.

Está aí, elaborado por representantes da cadeia produtiva, e aprovado pelo Conselho Superior do Agronegócio da FIESP, presidido pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, um hipotético plano de governo para a agropecuária, já apresentado aos três principais candidatos a presidente da República, e que deve ter merecido resposta, ontem, em vídeo, no 9º Congresso da ABAG (Associação Brasileira de Agribusiness). São medidas abrangentes que atendem todas as necessidades do setor e, portanto, da população.

Depois do primeiro debate na TV, não estranhe o documento não ter sido submetido ao candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). 

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