BANHO DE CULTURAS

“Também aqui, como a cada mudança de nosso tão longo itinerário, fomos surpreendidos com um banho quente, enquanto precisávamos de muitas outras coisas. Mas aquele banho não foi um banho de humilhação, um banho grotesco-demoníaco-sacral, um banho de missa negra, como o que havia marcado a nossa descida ao universo do campo de concentração, e tampouco foi um banho funcional, antisséptico, altamente técnico, como aquele quando passamos, muitos meses depois, à esfera dos americanos. Um banho à maneira russa, em escala humana, extemporâneo e aproximador.

Não pretendo pôr em dúvida que o banho para nós, e naquelas condições fosse oportuno: era necessário e bem-vindo. Mas era fácil reconhecer no banho, e em cada um daqueles memoráveis lavacros, por detrás do aspecto concreto e literal, uma grande sombra simbólica, o desejo inconsciente, por parte da nova autoridade, que aos poucos nos absorvia em sua esfera, de nos despojar dos vestígios de nossa vida anterior, de fazer de nós homens novos, segundo seus modelos, impondo a sua marca.”

A Trégua, de Primo Levi

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