A estagnação do ensino médio

Do Estadão

Avaliação mostra estagnação do ensino médio no Brasil, com nota 3,6

Apesar de o desempenho do País no Ideb ainda estar longe do padrão internacional, governo comemora resultado acima da meta do MEC

Lígia Formenti, Rafael Moraes Moura – O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA
Eles não sabem que metade é 50% nem identificar a ideia principal de um texto. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009, divulgado ontem, mostra que os alunos do ensino médio estão estagnados no desconhecimento. Na média, numa escala que vai de 0 a 10, os estudantes tiraram 3,6 – nota apenas 0,1 maior do que a alcançada na edição anterior, de 2007.

Alunos dos anos iniciais e dos anos finais do ensino fundamental tiveram desempenho melhor: 4,6 e 4,0, respectivamente. Mesmo diante de um resultado que expõe as deficiências do ensino no Brasil, o ministro da Educação, Fernando Haddad, comemorou os indicadores, sob a alegação de que as metas do governo foram atingidas. Para o ensino médio, o estipulado era chegar em 3,5 – 40% a menos do que a média obtida nos países desenvolvidos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Criado em 2007, o Ideb é calculado a cada dois anos a partir do cruzamento de dados de aprovação e evasão escolar com avaliações feitas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A série histórica dos indicadores começa antes, em 2005.

A partir dos índices encontrados em cada biênio, o governo traça metas para os dois anos seguintes. O objetivo é chegar em 2021 com Ideb igual a 6,0 – patamar educacional na média dos países da OCDE.

“Ainda estamos distantes da meta para 2021, mas temos uma esperança renovada de que vamos atingi-la”, afirmou Haddad. Para ele, o fato de o desempenho do ensino médio estar praticamente estagnado não surpreende. “Segue absolutamente a trajetória prevista pelo Inep.” Ele argumentou que o País vivia até 2001 um período de “recessão da educação”, com queda de desempenho. “Desde o início, a expectativa era ter uma melhora mais acentuada de desempenho nos primeiros anos de ensino.” Mas a tendência, disse, é que, com passar do tempo, o ritmo de melhora nos anos iniciais tenha uma queda e o das turmas avançadas, ganhe velocidade. “Funciona como um sistema de onda.”

Alunos dos anos iniciais alcançaram Ideb 4,6 – 0,8 a mais do que em 2005 e 0,4 a mais do que em 2007. A meta esperada era de 4,2. Nos anos finais, obtiveram índice 4,0 – 0,2 ponto a mais que em 2007 e 0,5 a mais que em 2005. A meta era 3,7. Já no ensino médio, alunos tiveram nota 3,6 – 0,1 a mais que a meta.

Haddad afirmou que, se o ritmo de crescimento for mantido, a média 6,0 para todo o País poderia ser antecipada. Mas ele preferiu não arriscar nenhuma previsão. “Vamos aguardar o próxima edição”, disse. Ele observou, porém, que metas pontuais, para escolas ou municípios, poderiam ser revistas em um curto espaço de tempo. “Vamos deixar como sugestão para outro governo.”

O presidente do Inep, Joaquim José Soares Neto, afirmou que a melhora dos indicadores pode ser atribuída a um avanço em todas as áreas, não só do desempenho das avaliações do Inep como do rendimento escolar. “Houve melhora das taxas de aprovação e redução da evasão escolar, além de um desempenho superior nas avaliações do Inep. O resultado nos agradou.”

Responsabilidade. Apesar do clima de comemoração do governo, o especialista em políticas educacionais Ocimar Munhoz lembra que as primeiras séries do fundamental são de responsabilidade sobretudo das redes municipais e as séries finais, dos municípios e Estados. “O interessante é que o ministério praticamente não tem escolas, mas responde pela educação do País.” 

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