As parcerias na educação

Do Estadão

“Diferenças só começam a aparecer a partir dos três anos de parceria”

Lúcia Favero, diretora-executiva da Parceiros da Educação

Lucia Fávero, diretora-executiva da organização Parceiros da Educação, que faz a intermediação de boa parte dos acordos de parceria com a rede estadual de São Paulo, diz que os resultados da ajuda privada são mais sentidos nos anos iniciais do fundamental do que no ensino médio. Ela defende mudanças curriculares nesta etapa e afirma que o plano da entidade é traçar metas de desempenho para os colégios.

Como a senhora explica os resultados semelhantes das escolas com parcerias e sem parcerias no Enem?

Em um ano de parceria, a gente não observa muita mudança (nos resultados). As diferenças começam a aparecer a partir de três anos. Por isso, quando apresentamos proposta a um empresário, estimamos parceria em torno de cinco anos, para ele saber que esse é o prazo mínimo de resultados.

Os resultados das parcerias são piores no ensino médio.

De modo geral, o ensino médio enfrenta maiores dificuldades, desde a questão curricular até falta de professores. O curso é enorme e isso é um problema. Essa etapa tem de ser repensada. Muita coisa não faz parte do universo do jovem.

QQuaQuais as maiores dificuldades para iniciar uma parceria?

Em primeiro lugar, temos de ter a adesão do diretor. Se ele não aderir, não mobiliza os professores, não lidera. Em termos de ações, é feita uma avaliação no ano para o diagnóstico das necessidades. Levamos em conta todas as avaliações, mas fazemos a nossa própria. Há diretores que insistem em melhorias físicas, mas a prioridade é a formação dos professores e orientação dos alunos.

Como vocês avaliam se a parceria está dando certo?

Algumas coisas acertamos na entrada do parceiro. Não adianta assumir a escola por um ou dois anos. Agora, traçamos um plano de ações e metas com base no nosso diagnóstico. As escolas terão de superar metas de anos anteriores. 

Parceria aumenta pouco a nota do Enem

Escolas estaduais apoiadas por empresas privadas têm desempenho semelhante às demais da rede pública paulista. Média sobe menos de 1%

Fábio Mazzitelli – O Estado de S.Paulo

JORNAL DA TARDE
No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano passado, as escolas estaduais “adotadas” pela iniciativa privada tiveram desempenho muito parecido com aquelas que não contam com esse tipo de apoio.

Levantamento feito pela reportagem indica que a nota média das 23 escolas com parcerias vigentes em 2009, segundo lista publicada pela organização social Parceiros da Educação, foi só 0,9% maior do que a pontuação média no Enem das outras 2.833 unidades da rede estadual ? sem contar colégios técnicos.

Numa escala de zero a mil, as escolas com ajuda da iniciativa privada ficaram com 535,38 pontos e as demais, com 530,53. Sem parceria, a José Monteiro Boanova, no Alto da Lapa, obteve o melhor desempenho no exame entre os colégios estaduais da capital, com 599,98 pontos.

Em segundo, com 594,97 pontos, ficou a Brasílio Machado, na Vila Mariana, que conta com ajuda financeira de um escritório de advocacia. Outras escolas com apoio privado, porém, não se destacaram no Enem. A Orestes Guimarães, que fica no Canindé e é apadrinhada por uma construtora, somou 474,33 pontos.

“Associar automaticamente a existência de parcerias à melhoria nos indicadores é temerário”, diz Theresa Adrião, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Esse tipo de intervenção faz bem para a empresa e indica posturas civilizadas e socialmente responsáveis, mas pouco ou nada influencia no desempenho dos alunos. Isto requer medidas em escala que só o poder público pode tomar.”

Desde 2005, empresas podem adotar uma escola estadual. De 2009 para 2010, o número de parcerias aumentou 40%, segundo a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), braço da Secretaria Estadual da Educação que coordena os acordos.

Atualmente, em 96 escolas estaduais com apoio da iniciativa privada, estudam 85,7 mil alunos, ou 1,7% dos cerca de 5 milhões de estudantes da rede.

“É um exercício muito difícil e recente”, afirma Ana Maria Stuginski, responsável pelas parcerias na FDE. “Tem aumentado a procura e tenho a impressão que agora o diretor já sabe do que precisa e que aquilo vai potencializar o que o Estado já oferece. A parceria é isso.”

Stuginski diz que o Estado mantém o compromisso em investimento educacional e que o acordo é uma porta para os empresários exercerem a responsabilidade social. Ela diz que o desempenho no Enem depende de outros fatores e defende que a parceria serve para o colégio estadual dar um “salto positivo”.

“A situação socioeconômica do aluno, toda a vida escolar dele e a área geográfica em que a escola está inserida influenciam. Não posso falar que a parceria vai ser uma varinha de condão. Ela vai otimizar, mas não faz milagre.”

Segundo a Parceiros da Educação, entidade que faz a ponte para boa parte das parcerias, há iniciativas que custeiam reformas, mas a prioridade é o investimento pedagógico. Os repasses aos colégios variam de R$ 60 mil a R$ 200 mil por ano.

Lucia Favero, diretora da Parceiros da Educação, diz que interferem nas parcerias tanto problemas estruturais da rede como a postura de alguns “padrinhos”. Como exemplo, cita um acordo de 2008 assinado pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), que quis impor um modelo de parceria sem “ouvir” o colégio. O acordo foi desfeito no fim de 2009. 

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