O crescimento das milícias no Rio de Janeiro

Nassif,

sinto falta de discussões acerca do crescimento das milícias no Rio de Janeiro. Por vezes vejo seus comentários elogiosos acerca do bom programa das UPPs no estado, porém sem contemporizar com a política de manter intactos os territórios comandados por milícias.

Me assusta mais o avanço desse tipo de organização quando observamos o extremo a que chegou o México. Independente de se tratar de traficantes ou milicianos, o paralelo é feito devido ao grau de organização que atingiram.

Por esse motivo, trago um estudo recém lançado do Ignácio Cano, pesquisador da UERJ, sobre a estratégia de maior discrição que as milícias vêm adotando, ressaltando o dado de que a relação entre desaparecidos e assassinados no estado passou, em menos de uma década, de 0,5 para mais de 1. Ou seja, o número de homicídios pode ser o dobro do oficial.

Eis a matéria do Uol:

Do Uol

Estudo inédito revela surgimento de “nova milícia” mais discreta no Rio; criminosos estariam “mascarando” homicídios

Hanrrikson de Andrade

“A nova milícia é muito mais discreta”. A frase do sociólogo Ignacio Cano, coautor do estudo “No sapatinho: A evolução das milícias no Rio de Janeiro”, resume a principal descoberta da pesquisa acadêmica desenvolvida entre 2008 e 2011 pelo Laboratório de Análise da Violência da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Em razão do aumento da repressão, os milicianos passaram a adotar um comportamento mais silencioso, o que reforça, de acordo com os pesquisadores, a necessidade de o poder público investir no trabalho de inteligência policial.

Divulgado nesta quarta-feira (10), o levantamento realiza um teste empírico que indica que essa nova postura pode estar associada ao aumento do número de ocorrências envolvendo pessoas desaparecidas. Até 2008, a milícia –que já foi vista pela opinião pública como “mal menor” em comparação com o tráfico de drogas– praticava crimes como homicídios e tortura de forma bem mais explícita, afirmam os pesquisadores.

Desde a conclusão da CPI das Milícias na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), em 2008, o que levou o Ministério Público e órgãos de segurança pública a intensificar as ações de repressão, o desaparecimento sumário se tornou, segundo os autores Ignacio Cano e Thaís Duarte, uma opção para “esconder a violência homicida e não deixar provas dos crimes”.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que houve um salto de quase 30% em relação aos casos de desaparecimento no período entre agosto de 2011 e agosto de 2012 –o número de ocorrências registradas em áreas com presença de milícia passou de 51 para 66. Entre 2003 e 2011, a razão entre vítimas de desaparecimento e mortes violentas subiu de 0,5 no início da série, isto é, duas mortes para cada desaparecimento registrado, para mais de um. Os pesquisadores ressaltam, porém, que o vínculo entre os dois tipos de crime constitui um “desafio metodológico” sujeito a muitas variáveis.

“Nós procuramos fazer uma percepção qualitativa dessas áreas, e constatamos que o poder letal das milícias continua forte. Mas houve, por outro lado, uma quebra do discurso de legitimação desses grupos. É como se as máscaras estivessem caindo. Descobrimos, por exemplo, que a incidência de policiais atuando como milicianos diminuiu, e isso está diretamente ligado ao trabalho de repressão que se intensificou desde que os profissionais de imprensa do jornal ‘O Dia’ foram torturados no Batan [favela da zona oeste do Rio, atualmente pacificada]. Na verdade, esse episódio foi o grande ponto de inflexão em relação à evolução das milícias”, afirmou Duarte, que alerta para o crescimento da participação de civis nos grupos paramilitares –os chamados “laranjas” ou “testas de ferro”.

“O estudo confirma a tese de que há um processo em curso de enfraquecimento das milícias. Elas continuam operando nos mesmos territórios, porém de forma muito mais discreta. Claro que o nível de violência é igual, ainda são muitos os casos de terror, extorsão, entre outros, mas deixou de ser interessante para esses grupos a questão da exposição. A diferença é que agora eles têm menos força em comparação com a época que pode ser considerada o apogeu das milícias, ou seja, entre 2006 e 2007 [período que antecede a criação da CPI das Milícias]. Elas perderam, inclusive, muito de sua força econômica, pois algumas atividades como a submissão do gás e a exploração do ‘gatonet’ [TV a cabo ilegal] passaram a ser reprimidas de forma mais intensa. A nova milícia adota um modelo de máfia silenciosa”, explicou Cano.

Braço político

Os pesquisadores do Laboratório de Análise da Violência afirmam que a “quebra do discurso de legitimação” das milícias também fez com que esses grupos paramilitares perdessem força política. Há alguns anos, grandes chefes de organizações mafiosas, tais como a Liga da Justiça (maior milícia da zona oeste), ocupavam cargos públicos na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa do Rio.

Cano e Duarte utilizam os exemplos dos irmãos Natalino e Jerônimo Guimarães, este último conhecido como “Jerominho”, para argumentar sobre uma nova percepção dos eleitores a respeito de milicianos que se lançam na vida política. “Isso começou a mudar a partir da prisão dos líderes da Liga da Justiça. A filha do Jerominho, por exemplo, não se elegeu, nesta eleição”, afirmou a socióloga.

Segundo o estudo, existiam “suspeitas de que a expansão das milícias em 2006 e 2007 estava associada a um projeto político” já em 2008, ano em que o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) presidiu a CPI das Milícias –mais de 200 pessoas foram indiciadas a partir do relatório da comissão. “Hoje, as evidências nessa direção são mais contundentes. O relatório da CPI contém informações sobre relações entre milicianos e políticos durante a campanha eleitoral de 2006 e relata indícios de curral eleitoral em áreas de milícia nas votações de vários desses políticos”, dizem Cano e Duarte.

“Esse projeto político está hoje aparentemente desmantelado. Muitos dos supostos integrantes não foram reeleitos e os que se mantém na política ativa fazem o possível para se afastar do tema das milícias no debate público, pois ele virou um lastro eleitoral. De acordo com um entrevistado, o que existe agora é a suspeita de que as milícias poderiam lançar candidatos desconhecidos, que não fossem membros notórios das suas organizações”, completam.

O estudo

Ignacio Cano e Thaís Duarte entrevistaram 46 moradores de territórios sob domínio de grupos paramilitares –a maioria na zona oeste do Rio–, além de especialistas, promotores do Ministério Público, policiais e autoridades de segurança pública.

A dupla de sociólogos consultou os bancos de dados do ISP, do Disque-Denúncia e do Disque-Milícia. Reportagens sobre o tema de dois grandes jornais cariocas também compõem a pesquisa.

A expressão escolhida pelos pesquisadores para dar nome ao estudo é uma gíria utilizada pelos cariocas que diz respeito à discrição, isto é, significa fazer alguma coisa com cautela.


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