Os conflitos entre índios e fazendeiros no MS

Do R7

Conflito entre índios e fazendeiros transforma cidades do Mato Grosso do Sul em faroeste

Disputa por terra se estende por toda a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai

Parece uma cena de guerra. Fazendeiros e índios de lados opostos. No meio da confusão, um tiro: a resposta é com arcos e flechas. O que mais parece um filme de faroeste, é a realidade num dos Estados mais ricos do Brasil: o Mato Grosso do Sul.

O Estado é conhecido como capital do agronegócio. A fortuna está nos pastos: são mais de 20 milhões de cabeças. Além das pastagens, as lavouras de soja e cana também ocupam milhares de quilômetros quadrados, mas, agora, boa parte dessa terra pode mudar de mãos. 

Os conflitos pela terra envolvem os índios Guarani-Kaiuás e os alguns dos maiores fazendeiros da região. A disputa é pela posse de grandes extensões de terra, como uma grande plantação de soja, uma imensidão verde que se perde de vista.

Os índios dizem que a terra é deles porque eles nasceram nela. Os fazendeiros dizem que a terra é deles porque eles pagaram por ela. Enquanto a Justiça não decide quem é o verdadeiro dono, as invasões e os confrontos estão se tornando cada vez mais frequentes.

Os Guarani-Kaiuás são 40 mil. Uma dos povos mais numerosos entre os índios brasileiros. Vinte e cinco mil índios vivem nessa região. Os números que contam os assassinatos entre eles são assustadores. De acordo com o CIMI (conselho indigenista missionário), entre 2.000 e 3,2 mil indígenas foram assassinados no Estado. 

Um conflito que hoje se estende por toda a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Atinge municípios como Caarapó, Amambai, Ponta Porã e Paranhos. 

A reportagem entrou a 800 metros da fronteira com o Paraguai. Essas casas de alvenaria construídas à beira da estrada pertencem à aldeia Pirajui. A última aldeia Guarani Kaiuás dessa região, ainda em território brasileiro. Cerca de 4 mil índios nessa região de fronteira, naturalmente tensa, onde os conflitos de terra também já deixaram vítimas fatais. 

Em uma casa que é uma espécie de mausoléu, fica o túmulo de Genivaldo Vera, um índio Guarani assassinado por pistoleiros. A mãe dele, dona Francisca Vera, fala o português com dificuldade. 

Mãe de cinco filhos, Genivaldo era o mais velho de todos. Ele tinha 22 anos. Era professor. O segundo cargo mais importante na hierarquia da tribo, só abaixo do cacique. 

Genivaldo dava aulas para as crianças no idioma guarani. E estava num acampamento indígena quando foi morto por pistoleiros. As testemunhas do assassinato entraram no programa de proteção às testemunhas porque também estão marcados para morrer. 

Um deles estava no acampamento quando os pistoleiros chegaram. 

– No sábado à tarde, pelas 3 horas, chegou um monte de pistoleiro, que começou a atirar para qualquer lado. A gente correu, tem muita criança que tava rezando, sem coversa já começou a atirar por cima de nós, por isso que a gente correu. 

Genivaldo não conseguiu escapar. Segundo testemunhas, foi capturado pelos pistoleiros e executado com tiros no peito. 

– O corpo do Genivaldo foi encontrado em nove dias, 10 dias depois. No rio. No rio Ipoí. Ele tem marca de bala e torturado, todo machucado. 

Genivaldo não teria sido a única vitima dos pistoleiros. Rolindo Vera, de 23 anos, que também era professor, desapareceu no mesmo dia. O corpo dele jamais foi encontrado. 

Rolindo e Genivaldo foram mortos dentro do acampamento Ipoí – uma pequena área que foi invadida pelos índios há dois anos, dentro de uma grande fazenda de soja e gado. Toas as porteiras são vigiadas por funcionários armados. É por isso que hoje o acampamento Ipoí é o principal foco de tensão neste conflito que envolve índios e fazendeiros. 

Ao mesmo tempo em que os homens dos fazendeiros controlam a entrada no acampamento, eles não podem expulsar os índios. Por decisão da justiça, só funcionários da funai entram a cada quinze dias para levar alimentos e remédios. 

Depois das mortes de Rolindo e Genivaldo, os índios do acampamento Ipoí entraram em pé de guerra. 

– Já que a justiça não acontece e se os pistoleiros voltarem a gente vai agir com as nossas próprias armas, que é essa aqui (mostra objetivo indígena). Essa é a enorme. Vamos agir com isso aqui. 

Fermino Escobar é o dono da fazenda invadida pelos índios guaranis, uma propriedade de 1,2 mil hectares. Na fazenda ele cria 1,2 mil cabeças de gado, alem de ter uma área de 500 hectares ocupada pela soja. Ele nega que os índios estejam isolados no acampamento. 

– Eles estão sendo amparados até mais do que merecem com cestas básicas que eles pegam e vendem. Não tem a quantia de pessoas… Esses direitos humanos que dizem estão sendo maltratados é tudo conversa, lorota. 

A polícia federal indiciou 5 pessoas por suspeita de participação nas mortes de Rolindo e Genivaldo. Outros dois irmãos fazem parte da lista. O fazendeiro nega qualquer envolvimento nas mortes. 

– Na realidade, o que foi comentado na época lá dentro não se encontraram nada. Foi encontrado muito tempo depois num rio próximo da fazenda um corpo que na época não conseguiram nem provar que foi morte por tiro ou qualquer coisa sim. É tudo “diz que me diz”, não tem nada concreto. 

O fazendeiro diz que a fazenda pertence à família dele desde o começo do século passado. Foi naquela época que o governo brasileiro distribuiu títulos para incentivar o povoamento da região. Para que os fazendeiros pudessem ocupar as terras, o governo daquela época enviou a maior parte dos índios para reservas. 

Muitos índios não aceitaram viver longe das origens, e voltaram aos antigos territórios. Com a terra ocupada por lavouras e cercadas por arame farpado, alguns se instalaram às margens de rodovias. 

No acampamento chamado curral do arame, no município de dourados, diversos ataques já aconteceram. O último, há quatro meses. Colocaram fogo em todos os barracos, sete, que tinha na beira da cerca. 

Além do medo, as famílias indígenas do acampamento convivem diariamente com a miséria. A água que eles consomem vem de um ribeirão, ao lado do acampamento. 

A tensão na fronteira deixa pelo caminho retratos de uma guerra. Na cidade de Miranda, 30 estudantes indígenas estavam em um ônibus que pegou fogo ao ser atingido por bombas caseiras. Os responsáveis não foram identificados.

A guerra entre índios e fazendeiros nesta região se intensificou nove anos atrás, quando o cacique marco Veron foi assassinado por pistoleiros. Ele foi executado diante do filho, Ládio Veron, que hoje é um dos caciques da aldeia. 

O lugar onde marco Veron foi morto se transformou num memorial. Os assassinos foram identificados, julgados e condenados pelo homicídio. Mas todos já estão livres. E segundo o cacique Veron, voltaram a fazer ameaças.

Um índio que prefere não ser identificado é uma liderança na região de Caarapó, um dos municípios onde os confrontos entre índios e fazendeiros são constantes. Ele diz que existe uma lista de ìndios marcados para morrer. E um prêmio pela cabeça de cada um deles.

Confronto

No limite das cidades de Iguatemi e Japorã, no mato grosso do sul, um grupo de índios e um de fazendeiros se encontram. Os dois grupos se aproximam. Todos estão armados. A tensão aumenta.

Índios avançam sobre a caminhonete e o fazendeiro reage com chicotadas. Um agricultor é cercado. E ameaçado com uma lança. Até que um dos fazendeiros dispara. O confronto ocorreu em 2003. Apesar das cenas impressionantes, não há registro de mortes. 

Logo depois do incidente, 9 mil hectares foram demarcados para os índios. Mas o STJ (supremo tribunal de justiça) revogou a decisão. 

Hoje, a justiça já reconheceu que a área é indígena e uma nova demarcação será feita. Para a federação que representa os agricultores e pecuaristas do mato grosso do sul, é preciso cautela para fazer novas demarcações. Principalmente porque as áreas em disputa estão na região mais valiosa do estado. 

A jurista Flávia Piovesan entende que os confrontos só vão terminar quando for possível respeitas os direitos dos dois lados. 

– há uma disputa de direitos eu diria, a minha reação primeira seria – a posse dessas terras tradicionalmente ocupadas é dos povos indígenas, mas os fazendeiros que atuaram de boa fé, ocuparam, tem direito a indenização por parte da união que falhou. A união falhou por não ter garantido o respeito às terras indígenas.

Enquanto isso, a tensão aumenta. Índios e fazendeiros: ninguém está disposto a ceder. 

Para o fazendeiro Fermino, entregar as terras aos índios é esquecer que elas já estão com os fazendeiros há muito tempo.

– Esses cem anos não tem valor nenhum? 

Já o índio Ládio Veron, a luta durará até o fim”porque esta terra é nossa”:

– Esta terra aqui é nossa! É terra da nação Caiwá e Guarani.

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1 comentário

  1. Os conflitos entre índisoe fazendeiros no MS

    As considerações são tadas contundentes! O Brasil, apesar de apresentar avanços tecnológicos na produção de alimentos e na medicina, ainda está atrasado nas questões socias, especificamente na questão indígena!

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