Sobre a insurreição carioca

Por Ramalho

Insurreição do Rio

Para saber da principal causa do crime organizado de base popular no Rio de Janeiro, entreviste professores de escolas públicas que atendem comunidades carentes. Procure levantar as consequências das políticas educacionais municipais e estaduais dos últimos governos, incluindo os atuais, na qualidade da educação oferecida aos pobres de favelas – observando, por exemplo, o suporte à permanência dos alunos nas escolas, sistemas de aprovação, qualidade das instalações, profissionalização e remuneração dos professores, atualização dos mestres etc.

Para entender a militarização dos traficantes, procure determinar como conseguem capacidade econômica para manter centenas de soldados bem armados e municiados. Considere o mercado consumidor de drogas – e as causas do consumo de drogas – que propicia condições para que traficantes se armem. Pergunte-se: o hedonismo desenfreado de classes mais abastadas – cujo exemplo emblemático recente é o do advogado famoso flagrado fumando crack no meio da rua – deve ser tratado como opção individual que não ofende a sociedade, ou deveria ser tratado como ofensa grave, com rigor, pois possibilitaria a militarização os traficantes?

PercPerceba, ainda, que o negócio do tráfico, um negócio altamente rentável e completamente desregulado, pois ilegal, exige, por isto, para ser explorado, capacidade militar para confrontos entre competidores e com o Estado. Assim, compare a situação carioca com a de outras cidades em outros países nas quais o negócio das drogas é mais regulado pelo Estado. Verifique, nestas cidades, se a criminalidade associada a drogas é maior ou menor do que a carioca. Perceba que essa história de culpar o governo federal por não conseguir conter o tráfico de armas em um país com as dimensões do Brasil está mais para politicagem do que para a busca de solução efetiva: veja que os EUA, mais desenvolvido do que nosso país, não consegue conter contrabando de drogas, indicando que não conseguiria conter o de armas.

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As questões mais sutis e complexas relacionadas ao inconformismo dos excluídos obrigados a viver no meio de esgoto e lixo, às magens de rios poluídos, ou nas encostas perigosas do Rio, sem perspectivas de realização social (ser alguém na vida) e relacionadas, também, às lideranças naturais de qualquer grupo social, mormente quando o grupo é oprimido, precisam da análise da Academia.

Aqui, permito-me algumas opiniões: choca o fato do estado do Rio de Janeiro, que mantém universidades com diversos campi espalhados pelo estado – afora as federais – não ter promovido até agora estudo capaz de apontar medidas efetivas tendentes a resolver o principal problema de sua capital. Envergonha e entristece a Academia nada ter feito, de moto próprio, para ajudar eficazmente a resolver o problema grave que assola a sociedade na qual se insere. Será uma Academia diletante, delirante, infensa aos problemas concretos que a rodeiam? Lamentável igualmente a omissão da classe dos professores do ensino fundamental (já não sei qual é o nome, pois todo dia mudam nome da classificação, só não mudam a péssima qualidade do ensino) que não se engaja na salvação social de seus alunos de comunidades carentes. A insurreição do Rio é libelo contra todos nós.

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