Caio Prado Junior e a formação política no MST, por Selma Santos

A formação é parte orgânica e constitutiva das ações do MST desde suas origens, cuja preocupação com a consciência política e ideológica de sua base social é parte da centralidade do Movimento

Da Página do MST

Caio Prado Junior e a formação política no MST

por Selma Santos

Neste mês de fevereiro, comemoramos o nascimento de Caio Prado Junior,
importante intelectual comunista brasileiro que dedicou sua vida à interpretação da realidade brasileira, pelo viés da teoria marxiana e construiu importante legado à partir da práxis política no pensamento e ação revolucionários.

Dada a surpreendente atualidade de seu pensamento, há a necessidade de revigora-lo não só na seara da academia, mas também a de proporcionar o enraizamento de suas ideias no seio dos movimentos populares e das massas.

Neste sentido, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) tem cada vez mais realizado o reencontro com a teoria crítica, especialmente em seus espaços e atividades de formação política. Caio Prado é um desses autores que encontra eco ativo no meio da militância do Movimento.

Importante trazer, primeiramente, alguns elementos de concepção da formação no MST na busca desta mediação entre a formação política ideológica de sua militância e a incorporação de ideias chaves que pensam o Brasil na perspectiva da revolução brasileira.

A formação é parte orgânica e constitutiva das ações do MST desde suas origens, cuja preocupação com a consciência política e ideológica de sua base social é parte da centralidade do Movimento e perpassa toda a sua História até o presente momento.

Ela é compreendida como uma ferramenta necessária para o avanço da luta social, uma vez que as ações que alteram a correlação de forças nas lutas de classes, tem a ver com o nível da consciência social das massas, bem como, a apropriação do projeto político por parte dos trabalhadores. Tem a ver com a alteração qualitativa através da interpretação marxiana sobre o salto de qualidade no nível de consciência ingênuo, limitado e alienado para um nível de consciência em si e para si, os quais não são
estáticos e lineares, pois sofrem as contradições da realidade. Mas, são possíveis, todavia, em sintonia com transformações profundas e radicais na estrutura da sociedade.

A formação é, portanto, uma das forças motrizes que dinamizam e movimentam a consciência política e ideológica dentro da Organização e já se tornou parte da cultura política do Movimento Sem Terra através de sua práxis formativa: teoria e pratica como duas dimensões indissociáveis de um mesmo processo, e ocorre de maneira integral, nos acampamentos, assentamentos, centros de formação, marchas, ocupações, escolas cooperativas, associações, centros de saúde, grupo de mulheres e jovens, teatros, a Escola Nacional, etc. onde se produz essa síntese do que significa a formação para os Sem Terra.

Ela tem como característica ser massiva: envolve a base, a militância, dirigentes quadros, e busca dar conta das várias dimensões, sempre prezando pela totalidade em cada um destes processos.

A formação política /ideológica no MST pressupõe ainda, interligar-se com o demais aspectos formativos da Organização e a sua vinculação direta com a estratégia. Neste sentido, se insere a construção do Projeto de Reforma Agraria Popular como um grande projeto alternativo de reforma agrária no campo brasileiro somado às demais transformações necessárias no campo e na cidade.

Nestes tempos de nazi-fascização da cultura e da ideologia, é necessário atuar fortemente na desconstrução de elementos simbólicos, de formação do sentido comum dos trabalhadores e de sua visão de mundo, construindo, como propõe Gramsci, uma filosofia crítica, elaborada e construída pelo Intelectual Orgânico coletivo.

É nesta trincheira que um dos elos mais fortes da disputa de projeto atualmente se dá: a “batalha das ideias”. O atual momento exige necessariamente a verdadeira batalha das ideias no seu sentido genuíno.

Para tanto, importante mobilizar desde o trabalho de base – a atuação de
militantes agitadores, propagandistas e organizadores, como propunha Lenin – se faz necessário ao enraizamento político crítico, nas diversas formas de organização política e social da classe – desde o nível de base, mas também nos elos intermediários de setores produtores e irradiadores de uma cultura política de resistência.

A formação está ligada a necessidade de lutas de massas, formação de
militantes, dirigentes, quadros, capazes de interpretar a complexidade histórica (de grave crise econômica do capital, aprofundamento do imperialismo sobre as comunidades do mundo, a barbárie, o aumento do ódio intolerância, a crise ambiental as ameaças climáticas, a expropriação de territórios de comunidades tradicionais ainda
preservados, a hegemonia reacionária de determinadas religiões, o genocídio sobre os trabalhadores pobres, negros, mulheres, jovens, imigrantes, a limpeza étnica, as questões LGBTs, etc.).

Neste contexto, da batalha das ideias, se insere a importância da intensificação de cursos de formação em todos os níveis e intencionalidade, com foco para a estratégia, cuja abordagem seja a da teoria crítica, com base no referencial teórico/metodológico marxista e a capacidade de utilizar como ferramenta de análise e de ação concreta o
método do materialismo histórico dialético.

É também neste sentido que Caio Prado tem sua grande contribuição a militância do MST: Caio Prado Junior é um destes intelectuais militante que permeiam as atividades formativas dos cursos do MST devido a sua originalidade e capacidade crítica de utilizar a ferramenta do método marxista de análise da realidade, em que produziu monumental analise da realidade brasileira, fundamentada nos elementos concretos da
formação social brasileira, estrutura econômica, projeto ideológico burguês, exploração e dominação burguesa, hegemonia de classe dominante, a formação social do povo brasileiro, entre outros aspectos e sintetizou em suas obras, a verdadeira essência do Brasil explicitando quais as necessidades de mudanças necessárias, dadas as características e natureza da formação econômica, política, social, cultural que tem
origem e sentido no projeto colonizador e na formação do projeto de nação segundo os interesses da burguesia brasileira.

Por fim, para o MST, a formação de sua militância tem como pressuposto a sua completa conexão com as dimensões da luta pela terra, reforma agrária e transformação social, com base na revolução brasileira, sendo todos esses mediados, vinculados e interligados entre si. As dimensões da Organicidade, os princípios organizativos, as linhas políticas, as instancias, setores, etc., fazem parte da unidade totalizante como a
formação é pensada e desenvolvida em todos os níveis e aspectos no conjunto do MST.

Neste sentido, importante ressaltar que a sistematização da formação no MST acumulou na formulação de um programa e sistematizou uma proposta curricular para os principais cursos que fazem parte das demandas formativas da militância do MST.

O Movimento Sem Terra bebe na fonte da teoria crítica marxista de alguns autores clássicos e contemporâneos que influenciam sobremaneira a sua práxis política.

Em seus cursos, o Movimento tem um referencial teórico metodológico que compõe a base curricular dos programas de formação, que dialoga com os vários autores desde a realidade brasileira, mas também latino-americana e mundial.

A Escola de formação do MST, a ENFF, em sua base curricular, propõe a
interdisciplinaridade das diversas áreas do pensamento, de maneira que dialetiza os conceitos, ressignifica o arcabouço teórico presente nas academias, confere função social ao conhecimento para que não seja infértil e improdutivo, mas para que contribua com os dilemas históricos teóricos/práticos da luta objetiva em seus desafios, limites, possibilidades do devir histórico, e acima de tudo, para que tenha utilidade para a Vida, para a formação Humana, para a fertilidade do pensamento crítico e para o avanço do socialismo, projeto societário defendido pelo MST.

Caio Prado Junior também é um destes autores/lutadores que fazem parte do referencial teórico e da práxis política cotidiana do MST, sua produção intelectual e ação pratica cria identidade com a militância Sem Terra.

Uma de suas importantes contribuições à militância, e que permeia os dilemas das lutas atuais da classe trabalhadora, da esquerda, e da estratégia, é sem dúvida, para além de suas obras, e para além da pedagogia coerente de seu exemplo, o exercício constante de aprimorar o método de análise, pois para ele, o marxismo não deve ser mecanicamente aplicado ou adaptado a diferentes situações, e sim assimilado em suas determinações e leis gerais específicas, apreendido, desenvolvido, exercitado como um método vivo e, não como manual engessado sobre a realidade, no sentido de interpretar profundamente e transformá-la de acordo com os desafios de seu tempo histórico.

Nestes tempos de aprofundamento do imperialismo, de subordinação da
questão agrária, espacialmente de expropriação dos camponeses, de centralização, concentração e acumulação de capitais por parte do capital agrário, bancário e industrial, de vinculação da agroindústria ao capital financeiro, às grandes empresas e corporações transnacionais, e de destruição ambiental, superexploração do trabalho, morte da biodiversidade, a produção destrutiva a partir da agricultura capitalista confere ainda maior vigor e seu pensamento se torna extremamente atual.

*Selma Santos é da direção estadual do MST

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1 comentário

  1. Caio Prado Junior. 1.a República, República Paulista. Das Famílias Paulistas que ainda hoje dão sustentação Intelectual à Nação Brasileira. Um abismo entre a História Brasileira até 1930 e depois de Golpe Civil Militar QuintoMundista de baixa patente de 1930. Caio Prado é a intelectualidade que nem MST, muito menos a Esquerdopatia Brasileira sequer teve algum dia. Chegamos até aqui por Figuras Párias como Getúlio Vargas, Luiz Carlos Prestes, Eurico Dutra, Leonel Brizola, João Goulart,Tancredo Neves e outros tantos medíocres que foram se agregando ao processo nestas 9 décadas, não é mesmo FHC? Pobre país rico. MST atual e Caio Prado? É gozação? Mas de muito fácil explicação.

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