A diplomacia brasileira e os desafios para 2014

João Fellet

Da BBC Brasil em Brasília

 

Crise com EUA e acordo com UE estão entre principais desafios para governo de Dilma Rousseff

No ano em que o Brasil sediará a Copa do Mundo e realizará eleições para presidente e governadores, os políticos brasileiros deverão tratar a política doméstica com atenção ainda maior que a habitual.

Entretanto, 2014 também começa com a expectativa de empenho do governo em algumas questões da política externa, dando prosseguimento aos esforços de Brasília em ampliar a influência brasileira no mundo.

 

A BBC Brasil listou cinco dos principais desafios que a política externa brasileira deverá enfrentar no ano que se inicia.

Acordo Mercosul-União Europeia

Espera-se que nos primeiros meses de 2014 o Brasil e os demais membros do Mercosul entreguem suas propostas para um acordo de livre comércio com a União Europeia, que vem sendo negociado há 14 anos.

No Brasil, há crescente cobrança para que o acordo seja fechado – teme-se que, por tradicionalmente priorizar o comércio com os vizinhos do Mercosul, o país fique à margem das grandes alianças comerciais que estão em negociação ao redor do mundo e que devem transformar o comércio global nos próximos anos.

No dia 17 de janeiro, os chefes de Estado do bloco sul-americano poderão aproveitar uma reunião na Venezuela para finalizar a proposta aos europeus. Não se sabe se os países apresentarão uma oferta única ou ofertas individuais, a serem negociadas separadamente.

 

Do lado europeu, porém, poderá haver resistências a propostas individuais. Tampouco se sabe sob quais condições o bloco europeu aceitará abrir seu mercado para produtos agrícolas sul-americanos, uma das principais demandas do Mercosul, mas que enfrenta oposição especialmente da França.

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Crise com os Estados Unidos

Ao desmarcar uma visita de Estado que faria a Washington em outubro, a presidente Dilma Rousseff formalizou sua indignação com as denúncias de que fora alvo de espionagem pela NSA, a agência de segurança nacional americana.

A decisão freou a aproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos que ganhara fôlego após a posse da presidente, em 2011. Contudo, o anúncio de que a viagem não foi oficialmente cancelada, mas sim suspensa, alimenta expectativas de que a visita seja remarcada antes do fim do mandato de Dilma, ainda em 2014.

Para tanto, a presidente terá de avaliar os prós e contras de uma eventual visita. A Casa Branca não parece muito disposta a atender o pedido de Dilma para que se explique pelas ações da NSA e, sem o gesto, crescem os riscos de que a viagem afete a popularidade da presidente no ano em que tentará se reeleger.

Por outro lado, entre os dividendos que poderá obter com a reaproximação estão um acordo de isenção de vistos entre Brasil e EUA, cuja negociação foi paralisada em meio à crise diplomática, e um apoio mais incisivo da Casa Branca à aspiração brasileira por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Tensão comercial com a Argentina

A relação comercial entre Brasil e Argentina vive momento delicado desde 2012, quando o governo argentino passou a adotar uma política chamada Declaração Jurada Antecipada de Serviços (DJAS) para controlar as importações ao país.

Empresários brasileiros e setores do governo dizem que a política cria sérias dificuldades às exportações para o país vizinho, embora as vendas de produtos nacionais para a Argentina tenham crescido 8,1% em 2013 em relação a 2012, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

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No fim de 2013, a troca na chefia do órgão argentino que trata do comércio exterior abriu uma janela para que os países buscassem um maior entendimento nesse campo.

As negociações, no entanto, têm um importante obstáculo: a problemática falta de dólares no mercado argentino, que tende a se agravar com uma maior abertura do país a importações.

Nova política de cooperação

Em viagem à Etiópia em maio, a presidente Dilma Rousseff anunciou que o Brasil alteraria o funcionamento da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), um dos pilares da diplomacia nacional em países pobres ou emergentes.

Dilma disse que a nova agência ajudaria a “viabilizar investimentos” e sugeriu que ela poderia deixar a alçada do Ministério de Relações Exteriores. Ainda não está claro, porém, como se dará essa mudança.

Hoje as ações da ABC, financiadas a fundo perdido, buscam em sua maioria compartilhar políticas públicas e capacitar funcionários dos governos favorecidos.

Ainda que aparentemente as novidades sugeridas por Dilma busquem estreitar os laços econômicos entre o Brasil e os países pobres, elas poderão custar ao país o discurso de que promove uma “cooperação desinteressada”.

O discurso abriu portas ao país nos anos Lula e se contrapunha a um modelo de cooperação com contrapartidas, executado por algumas potências.

Grandes obras no exterior

A expansão de empresas brasileiras no exterior, que também ganhou grande impulso no governo Lula, vive momento de desgaste e tem sofrido forte resistência em alguns países.

Em Moçambique, um dos principais palcos de companhias brasileiras na África, a mineradora Vale enfrenta oposição de moradores locais numa de suas maiores operações fora do Brasil, a exploração de uma mina de carvão na província de Tete.

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Moradores reassentados pela empresa se queixam das condições das novas casas e dizem que a companhia não cumpriu suas promessas de compensação, o que a Vale nega.

Também em Moçambique, há crescente resistência de agricultores a um projeto de cooperação conduzido pelo Brasil e pelo Japão, o Pró-Savana, que prevê a produção no país de commodities agrícolas em larga escala.

Grandes obras de infraestrutura de empresas brasileiras também têm sido alvo de críticas em vizinhos sul-americanos. No Peru e na Bolívia, protestos provocaram a suspensão ou cancelamento de contratos com empreiteiras brasileiras nos últimos anos.

Em grande parte financiados pelo BNDES, os megaempreendimentos brasileiros no exterior também têm sido contestados dentro do Brasil, onde há crescente cobrança para que esses empréstimos sejam mais transparentes e tenham justificativas consistentes.

 

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11 comentários

  1. Falta uma visão estrategica à

    Falta uma visão estrategica à politica externa brasileira. Quem atira para todo lado perde foco e não sabe o alvo.

    A premissa da politica externa a partir da gestão Amorim-Guimarães consiste numa avaliação de que o poder arbitral dos EUA na geopolitica mundial colapsou, portanto essa politica deve ignorar os EUA e operar dentro de um vacuo de poder

    na ordem global. A avaliação e sua conclusão estão erradas, os EUA estão em declinio mas a prazo muito mais longo do que a “politica Sul-Sul” presume. Com diagnostico errado a operação fracassa, como fracassou. O Brasil perdeu poder relativo inclusive na America do Sul, onde não tem hoje nenhuma projeção de poder, nem sobre paises tradicionalmente dentro da esfera brasileira, como Paraguai e Bolivia, que hoje simplesmente ignoram o Brasil. A Argentina agride os interesses comerciais brasileiros todos os dias, a Venezuela só se interessa pelo crédito brasileiro, o Brasil  já tem enterrados em Caracas US$10 bilhões que não vai receber jamais mas continua dando crédito à Venezuela para que esta permaneça sustentando Cuba com 100 mil barris diarios de petroleo, sempre a reboque do bolivarianismo.

    As relações com os EUA são as piores possiveis nos ultimos 30 anos e não parece que irão melhorar porque o Itamaraty prefere assim. O simbolo da politica externa erratica foi a reação ridicula à fuga de um refugiado na Embaixada em La Paz, quando o Brasil se prostou de joelhos frente à Evo Morales, como se esse fosse o Kaiser da Alemanha em 1914.

    • Voce não poderia estar mais

      Voce não poderia estar mais errado, ex-AA, atual MA. De forma alguma o governo brasileiro avaliou que os EUA já estão em colapso e portanto pode ser ignorado. Apenas segue a avaliação global, de que não estamos mais na guerra-fria, onde os países tinham que se alinhar aos EUA ou à URSS.

      Hoje num mundo multifacetado, nada é tão simples. O Brasil não é anti-americano. Só quando esse país prejudica nossos interesses. E o fato de intensificar a relação sul-sul não significa ignorar os EUA, é não ser americano-dependente como o México.

      E a importância brasileira na AL não diminuiu, aumentou. Os EUA sabem muito bem que com o Brasil, apesar de ser centro-esquerda, há diálogo, e pode inclusive mediar conflitos com os “bolivarianos” radicais.

      E se é “generoso” com a Bolivia não o é por pirraça anti-americanista da “esquerdolândia” como voce diz. É estratégia geopolítica de fortalecimento do continente da América do Sul. Um pouco semelhante com a estratégia de criação da CE que no ínicio procurou fortalecer países como Portugal, por exemplo

    • As relações com os EUA estão

      As relações com os EUA estão ruins por causa do Itamaraty, foi o Itamaraty que mandou os EUA espionarem os brasileiros.

      Araújo é o auge do vira-latismo, sujeitinho sem vergonha, quem ele pensa que engana?

  2. PAUTA DIRECIONADA?

    O artigo coloca uma pauta que não atende, necessariamente, interesses brasileiros, mas sim estratégia global já manjada.

    Acordo Mercosul-União Européia: Já estaríamos negociando com um “bloco” europeu inteiro, então, por que aconselham-nos a fazer propostas individuais?Crise com os Estados Unidos: É um problema dos EUA (espionagem e outros) e deveria estar na listinha de tarefas deles. Já perderam a venda dos aviões caça. Pela nossa parte, os “ricos” brasileiros de Green Card bateram recorde de despesas no exterior, principalmente nos EUA, equivalente a 10 vezes o que era dez anos atrás.Tensão comercial com a Argentina: Agenda permanente da CIA para manter inimizade no Mercosul. Assim e tudo, as vendas brasileiras para Argentina cresceram 8,3%, no meio da “crise”? Devemos fortalecer o MERCOSUL e manter a relação de confiança com os nossos vizinhos, tão bombardeados ideologicamente como nós, pelo seu próprio PIG local.Nova política de cooperação: A agenda de Lula visava ganhar apoio ao Brasil, para uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Sugere-se tirar o viés de apoio sem contrapartida a estes países. Foi iniciada com Lula uma política humanitária que devemos manter (por outro lado, acho que devemos dar um basta no assunto Haiti).Grandes obras no exterior: Não podemos considerar a privatizada VALE neste item, ainda, considerando que, por conta do elevado pagamento de impostos atrasados, a política da VALE está sendo justamente vender ativos dispensáveis, no mundo todo. A política brasileira deveria estar na infra-estrutura no MERCOSUL (ponte, linhas férreas até o Pacífico, etc.).

     

    Em resumo, a agenda que este ano deverá ser seguida pelo Brasil poderia ser:

    Fortalecer o MERCOSUL: agora com a possível entrada do Chile, em definitivo. Considerando Chile e Venezuela (recentemente), MERCOSUL será um bloco extremamente importante. Cuidar da relação com Argentina, driblando as cascas de banana da CIA.Balança comercial por turismo: Devemos aumentar os encargos nesse dinheiro bobo gasto em Disneyworld (aumento do IOF já feito!). Fazer esforços para mudar o fluxo de dinheiro entre brasileiros que gastam fora e estrangeiros que chegam ao Brasil. Brasil gasta fora, com as suas elites, como se fosse país altamente desenvolvido, mas, recebe aqui aos turistas como se fosse uma república bananeira.Continuar a sua política solidária, de ajuda a países mais pobres.Lutar para a integração total de Cuba ao mundo ocidental. MERCOSUL poderia peitar aos EUA nesse quesito.

     

  3. Quer dizer que a culpa pelas

    Quer dizer que a culpa pelas grosserias da Argentina com os importadores brasileiros é da CIA?

    E a situação das relações entre Brasil e EUA e problema só deles? Nós somos tão bacanas assim?

    Chico Anisio, que falta vc nos faz, todo dia surgem novos “personagens” para a escolinha.

  4. + comentários

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