Bolsonaro chega atrasado mas tenta se aproveitar de acordo entre Putin e Scholz sobre Ucrânia

Victor Farinelli
Victor Farinelli é jornalista residente no Chile, corinthiano e pai de um adolescente, já escreveu para meios como Opera Mundi, Carta Capital, Brasil de Fato e Revista Fórum, além do Jornal GGN
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Nas redes sociais, seguidores do presidente, liderados pelo ex-ministro Ricardo Salles, tentam instalar relato de que sua presença no país foi mais importante que reunião entre os mandatários da Rússia e da Alemanha

Olaf Scholz e Vladimir Putin em encontro bilateral (foto: Twitter oficial Kremlin)

As tensões entre Rússia e Ucrânia não acabaram mas se tornaram menores nesta terça-feira (15/2), após uma reunião entre o presidente russo Vladimir Putin e o chanceler alemão Olaf Scholz. O segundo garantiu que o ingresso da Ucrânia na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) não contará com apoio do seu país e da União Europeia, e o primeiro assegurou, em contrapartida, que diminuirá a presença militar na fronteira ucraniana.

O que Jair Bolsonaro tem a ver com isso? Nada, absolutamente nada. Mas o presidente brasileiro e seus seguidores vêm tentando construir uma narrativa de que a sua presença teria sido o fator que supostamente “acabou com a guerra”.

A verdade, porém, é que Bolsonaro iniciou mesmo sua polêmica visita a Moscou nesta mesma terça-feira, mas chegou à capital russa depois que o acordo entre Putin e Scholz já estava consolidado – e o brasileiro não teve nenhuma incidência em tal situação.

Aliás, o presidente brasileiro sequer conseguirá se encontrar com o colega russo nesta terça: a reunião com Putin está marcada para o dia seguinte, e ainda está na dependência de Bolsonaro seguir à risca o rígido protocolo sanitário imposto pelo cerimonial do Kremlin.

Além disso, Bolsonaro também recebeu recomendações do Itamaraty para não tocar em temas relacionados à Ucrânia.

Porém, isso não impediu o presidente de publicar um comentário malicioso em seu twitter, que deu origem ao relato. Nele, Bolsonaro anuncia que seu avião teria ingressado ao espaço aéreo russo, e agrega uma imagem que mostra manchete da CNN Brasil noticiando que a Rússia retirava algumas tropas da fronteira com a Ucrânia – primeira consequência do acordo firmado horas antes com o governo alemão.

Foi a deixa para que os bolsonaristas espalhassem a versão de que sua mera presença teria “evitado a Terceira Guerra Mundial”, segundo termo instalado pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que vem liderando a propagação do relato bolsonarista nas redes sociais. Salles inclusive chegou a criar a hashtag #NobelNaro, para reivindicar um possível Nobel da paz ao antigo chefe, pela suposta façanha.

A verdade por trás do relato bolsonarista

A crise entre Rússia e Ucrânia vêm se intensificando desde o início deste ano, devido a um possível ingresso dos ucranianos à OTAN, situação que desagrada os russos. Em meio a esses rumores, tanto Moscou começou a fortalecer sua presença militar na fronteira quanto Kiev passou a aceitar uma maior carga de armamentos provenientes dos Estados Unidos – país também responsável por alimentar as tensões, ao emitir o primeiro alerta para que seus compatriotas nos territórios voltem ao seu país.

Além de Scholz, que está em Moscou, Putin também teve uma reunião com o presidente francês Emmanuel Macron, de quem também teria recebido um compromisso de não apoio ao ingresso da Ucrânia à OTAN.

Antes disso, na semana passada, o principal acordo de Putin foi com o chinês Xi Jinping, e significou um apoio mútuo entre as duas potências diante de possíveis agressões – a China enfrenta problemas com um aumento da presença militar dos Estados Unidos e do Reino Unidos nas proximidades do seu mar territorial, além de um maior apoio desses países a Taiwan.

Victor Farinelli

Victor Farinelli é jornalista residente no Chile, corinthiano e pai de um adolescente, já escreveu para meios como Opera Mundi, Carta Capital, Brasil de Fato e Revista Fórum, além do Jornal GGN

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