Transreligiosidade: o futuro das religiões, por Marcos Villas-Bôas

Transreligiosidade: o futuro das religiões

por Marcos Villas-Bôas

A religião tem o escopo de ligar o ser ao divino; mas, será que é isso o que muitas delas têm realmente promovido? É preciso esmiuçar os aspectos positivos e negativos das religiões a partir de um melhor entendimento da sua função, o que passa necessariamente por entender como se dá tal ligação do ser ao divino.

Como quase tudo na vida humana, as religiões podem ser empregadas para ascensão ou para estagnação e quedas. Isso dependerá do uso que é feito por cada um, e a forma como elas são apresentadas pelos que estão à frente dos templos, cultos etc. terá grande poder de determinar esse uso que será feito da religião por cada adepto.

A racionalidade humana atual foi calcada em dualidades, formato de visão do mundo que facilita uma compreensão sua inicial e superficial. Dado o estágio atrasado da maior parte dos seres que vivem na Terra nos últimos milênios, grupo no qual o autor se inclui, a divisão da realidade em bem ou mal, Deus ou demônio, céu ou inferno, amigo ou inimigo etc. era importante, mas, na medida em que se evolui, ela vai se tornando cada vez mais evidentemente pobre, carecendo de aprofundamento.

O universo é um todo complexo. Ele funciona tão perfeitamente, apesar de muitos não perceberem tal perfeição, na sua tarefa de fazer os seres progredirem, pois há opostos unidos em certo equilíbrio. Quando se separa o universo em dualidades, sem conseguir juntá-las novamente, sobretudo quando se caminha para extremos, perde-se a unicidade que lhe é inerente, distorcendo-o.

Segundo o Espírito Alex Zarthú, escrevendo por meio de Robson Pinheiro:

“A visão dualista e fatalista da vida é que impulsiona o pensamento para o remorso e o sentimento de culpa. Aí, nascem as cobranças e os conflitos, reflexos da morte da consciência. Quando, segundo a lenda, foi criada a mulher, o ser perdeu a noção de totalidade e começou a visão de dualidade. A partir de então, o ego passou a ter dificuldades em ver a unidade. Tudo passou a ser classificado dentro do conceito de opostos. Tornaram-se patentes as diferenças, os opostos e, por conseguinte, a escolha. A cada passo que o ser dá em sua decisão por um extremo oposto, fortifica-se-lhe o sentido de não unidade, e ele perde a totalidade da vida. De certa forma, essa visão ainda é necessária neste estágio em que se encontra o homem” (A crise de Adão, p. 13).

Essa visão dualista, extremamente marcada na maioria das religiões, como nas cristãs, empobrece a consciência, pois desconecta um todo conectado, desmembra uma unicidade.

Comecemos pelo entendimento do que é ser e consciência. As religiões costumam ver o ser como o indivíduo singular dividido dualmente em homem ou mulher, com qualidades duais como bom ou mau, dentre outras.

Quando engessadas as dualidades nas consciências humanas, que é a regra, uma porção de mal entendidos são gerados por não se perceber que dentro de todo oposto há ao menos um pouco do outro oposto.

Universo é unidade do diverso. Todo ser é uma consciência criada por Deus, a consciência suprema e onipresente, e enfrenta milhares de experiências de vida, passando normalmente pelo Reino Mineral, pelo Reino Vegetal, chegando ao Reino Animal, para, somente depois, adquirir uma consciência intelectiva primitiva capaz de articular linguagem, que vai se desenvolvendo até chegar aos seres humanos em geral que vivem na Terra, ainda bem atrasados se considerado o estágio evolutivo de outros seres que vivem nosso próprio sistema solar, conforme explica o ser que se deu o nome de João e diz vir do Planeta Vênus, que participou mais de uma vez do programa Diálogo com os Espíritos, conforme segue: https://www.youtube.com/watch?v=gucXZFKFlgo&t=4999s.

Cada ser humano é, portanto, uma consciência buscando se aproximar do seu divino, da consciência suprema. A visão de que é necessário algo externo para ligar um homem ou uma mulher a um Pai chamado Deus é primitiva, tendo sido necessária nos últimos milênios, quando a maior parte das consciências ainda não dispunham do conhecimento e do desenvolvimento moral requeridos para um aprofundamento.

O que se chama Deus não pode ser aproximado dos humanos, pois está em todo lugar e dentro deles mesmos, mas, como falta linguagem aos humanos vivendo na Terra para uma visão mais complexa, o próprio Jesus foi obrigado a explicar dessa forma, apontando Deus, por ser uma força de criação, como o Pai, aquele que deu cria aos homens e que vive no Céu.

A ideia de Pai e filhos dificulta a compreensão de que somos consciências que fazem parte da consciência suprema. Deste modo, ainda que criados por ela, fazemos parte dela; ela está em nós. É por isso que a ascensão é um aumento de conexão com o divino que está dentro de cada um, ou seja, é a elevação da religiosidade em termos de ligação com o Deus dentro de cada qual, pouco tendo a ver com a prática de um conhecimento religioso específico, com seus rituais, cultos, modismos etc.

As religiões humanas podem ter papel muito positivo quando funcionam exatamente como âmbitos de estímulo a essa ligação com o divino dentro de cada um, estimulando o estudo intelectual e moral, o fortalecimento da fé (faculdade que dá força e coragem para vencer os desafios da encarnação), a oração, a meditação e o trabalho desinteressado em benefício do próximo, práticas que ajudam nesse objetivo.

Por outro lado, as religiões humanas podem prejudicar a religiosidade no sentido de ligação com a consciência suprema, com o Deus interno de cada um, se apelarem demais para o que é externo, para o que é mera forma; se transmitirem conhecimentos contrários ao de unicidade de consciência, como preconceituosos, separatistas e afins; se presumirem ser oráculos do divino com as respostas para se chegar a ele, quando elas estão, na verdade, dentro de cada um.

Jesus pedia que a Igreja dele fosse levantada pelos apóstolos e, mais tarde, vendo os caminhos tortos tomados pelos homens ao longo dos séculos, pediu a Francisco de Assis, reencarnação do apóstolo João Evangelista, que a reconstruísse. Claramente, ele valorizava a religião como meio de ascensão da humanidade devido ao estágio em que se encontrava, apesar de ele mesmo não ter levantado nenhum templo religioso.

Ao mesmo tempo, Jesus dizia que chegaria o momento em que não seriam mais necessárias paredes de pedra e que os templos seriam a consciência de cada um. Vem chegando a hora.   

Muitos Espíritos elevados desencarnados e encarnados criticam as religiões pelo tipo de prática que os humanos terminam lhe impingindo. O problema não é a religião, o templo, o culto ou o ritual em si, mas aquilo que se faz deles em alguns casos. Também pelo estágio humano atual, é difícil que, pelo poder da religião, uns não tentem usá-la para ter domínio sobre outros, ainda que inconscientemente.

O uso da religião para ter poder e suprir outras carências humanas não se dá apenas quando sacerdotes exigem dinheiro dos fiéis para que eles possam ter felicidade agora ou após o desencarne. Isso se revela também nas imposições realizadas em movimentos religiosos e dentro dos templos; nos usos dos templos e cultos para satisfazer vaidades pessoais; e assim por diante.

O brilhante pensador espiritualista Osho era um grande crítico das religiões. Em “O livro do ego”, obra organizada pelos seus discípulos a partir das palestras dele, como todas as outras, o mestre espiritualista realiza inúmeras críticas às religiões, que na visão dele são aprisionadoras do pensamento e fortalecem o ego, um dos maiores inimigos do ser.

Osho sustenta que, mais importante do que qualquer sistema de conhecimento, inclusive os religiosos, é acalmar a mente, energizá-la, domando o ego, o “eu” criado socioculturalmente, que adormece a consciência, o ser divino. Em outras palavras, a religião, tal como normalmente praticada pelos humanos, ressalta o ego e tende a manter a essência divina escondida, enquanto que a meditação o doma e ressalta a consciência, aproximando-nos do divino. Vide o seguinte trecho:

“Para o ser, o silêncio abre um novo universo de eternidade, de imortalidade, de tudo o que se pode pensar em termos de graça, de bênção. Daí a minha insistência de que a meditação é a religião essencial, a única religião. Nada mais é necessário. Tudo mais é ritual não essencial. A meditação é só essência, a própria essência. Não se pode eliminar nada dela” (O livro do ego, p. 94).

É claro que o ser precisa adquirir conhecimento e fortalecer sua moral, o que apenas é feito com estudo e trabalho. Ele não pode viver apenas de meditação e contemplação. No entanto, esta é a atividade, ainda que crescente, mais em falta hoje, dada a busca cada vez maior dos humanos por se encherem de conhecimento, de dinheiro, de atenção, de fama, de poder etc., sem que olhem para dentro de suas consciências e busquem suas essências.  

Aquela busca faz com que a consciência deixe de ser ela e passe a ser algo diferente, imposto pela sociedade e pelos arrastamentos terrenos que mais apetecem a cada um. A mente do indivíduo não representa a sua consciência ou, ao menos, não plenamente, sendo imposta por outros. Ainda segundo Osho:

“A mente do indivíduo não é a mente dele, isto é fundamental que seja lembrado. Sua mente é um implante da sociedade na qual ele nasceu acidentalmente. Se um indivíduo nascesse em um lar cristão, mas fosse imediatamente transferido para uma família muçulmana e criado pelos muçulmanos, não teria a mesma mente, teria uma mente totalmente diferente daquilo que se pode imaginar” (O livro do ego, p. 107).

Osho lembra um aspecto importantíssimo das religiões e demais sistemas doutrinários de conhecimento: as pessoas se apegam tanto a eles, que se aprisionam e não conseguem pensar livremente. Elas ficam condicionadas a pensar numa seguinte direção, gerando uma mente religiosa ou doutrinária que as impede de libertar suas verdadeiras consciências divinas.

Repita-se que não se quer fazer uma crítica generalizada às religiões e uma defesa ao agnosticismo. A depender de como praticada, a religião pode ser um caminho para o divino. O ponto é que as chances de a adoção de uma religião aprisionar inconscientemente a mente do indivíduo é extremamente grande. Aquele que já está aprisionado o bastante nunca irá admitir isso. Escreve-se aqui para aquele que ainda tem alguma capacidade crítica em relação à religião, doutrina, sistema científico ou filosófico que escolheu.

É preciso aprender a trabalhar com opções primárias que se adota para guiar a vida e com todas as demais opções rodeando, sendo constantemente alvo de reflexão em conjunto com aquilo que se elegeu. Recomenda-se estudar todas as religiões e até praticar um pouco de várias delas, sempre em busca do despertamento de consciência, do encontro consigo mesmo, para que se obtenha paz de espírito e seja possível iluminar aqueles a sua volta.

A verdadeira religião é a prática do amor, da caridade, da humildade; é a prática de pensamentos, sentimentos e atitudes que aproximem o ser do divino, que emitam boas vibrações, que os deixem em sintonia elevada, atraindo, assim, para si o melhor, e isso independe de religiões, ainda que possam ser um caminho de despertamento.

Que elas sejam usadas, então, para maximizar tais pensamentos, sentimentos e atitudes, libertando o ser e permitindo que a mente se aproxime cada vez mais da sua consciência divina.

Eleja-se nenhuma religião, todas elas ou um conjunto delas, mas nunca apenas radicalmente uma em detrimento de todas as demais, como se houvesse um único conhecimento ou prática religiosa mais especial e mais capaz do que as outras, pois isso é ilusão, é formação mental egóica, ainda que existam algumas um pouco mais espiritualizadas e próximas da verdade divina. Conheça-se todas elas ou a maior parte delas e retire-se o que há de melhor em cada uma.

As religiões não deixarão de existir num futuro próximo, mas, assim como as disciplinas e todos os demais sistemas de conhecimento, elas serão “trans”: transdisciplinaridade, transculturalismo, transreligiosidade etc. Adota-se um sistema, mas o mantém aberto para diálogo com os demais, como já propunha que acontecia com todos os sistemas o pensador alemão Niklas Luhmann.

O século XXI será o período “trans”, da complexidade, do retorno da consciência humana à consciência divina, do aprofundamento da intuição, do desenvolvimento da mediunidade. As religiões podem ser um facilitador ou um impeditivo poderoso para que os seres encontrem mais evolução e cumpram suas missões. Roguemos à consciência divina que cada um de nós saiba usar as religiões e demais filosofias teológicas de forma sábia.

 

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