Covid mata mais entre trabalhadores que dependem do transporte coletivo

Óbitos na cidade de São Paulo são mais frequentes em bairros periféricos, onde a população depende do transporte público

População que precisa usar o transporte coletivo está mais vulnerável ao vírus. | Foto: Roberto Parizotti/FotosPublicas

do Brasil de Fato

Covid mata mais entre trabalhadores que dependem do transporte coletivo

por Nara Lacerda, de São Paulo (SP)

A maior parte das pessoas que morreram por causa da covid-19 na cidade de São Paulo vive em regiões onde a população depende mais do transporte coletivo. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), fez um cruzamento entre os dados de óbitos por causa do coronavírus e o mais recente estudo de Origem e Destino do metrô da capital, realizado em 2017. Os primeiros resultados indicam que os moradores dos distritos mais pobres, que não puderam se isolar e continuaram precisando usar o transporte público são as vítimas mais frequentes.

Um dos responsáveis pela análise, o professor do Instituto das Cidades da Unifesp, Kazuo Nakano, explica que as primeiras conclusões reforçam a percepção de que a população periférica está mais sujeita a ser contaminada. “De fato, o maior número de óbitos acontece nos distritos onde você tem a maior quantidade de pessoas de baixa renda, com renda familiar de 0 a 3 salários mínimos.”

O pesquisador afirma que o recorte a partir do deslocamento pelo transporte público traz novos elementos às conclusões sobre o impacto do coronavírus entre as populações mais vulneráveis, “São esses trabalhadores periféricos, de baixa renda, que são dependentes do uso do ônibus, trem, metrô (…)  A gente está percebendo que esse transporte continua com lotação em alguns períodos do dia. Tem explicado a ocorrência do número de óbitos dos que moram nesses distritos e têm que ficar circulando pela cidade, usando transporte coletivo, que não tem mecanismos de proteção.”

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Pelo cruzamento com a pesquisa Origem e Destino é possível notar também que a maior parte dos trabalhadores dessas regiões está ocupada com trabalhos informais. Os bairros com maior número de óbitos têm grande quantidade de autônomos. “São aqueles que trabalham por conta própria, têm um bar, um botequim, mercadinho, mas também são os camelôs, empregadas domésticas, trabalhadores que fazem bicos e aqueles que não têm trabalho. Para eles trabalharem ou buscarem trabalho, eles precisam circular pela cidade.”

Por outro lado, em bairros onde se usa mais o automóvel particular, o impacto da covid é menor. O estudo aponta que os distritos em que a população se desloca mais em carros próprios registram menos mortes pela covid. “As viagens por automóvel estão protegendo a população de classe média alta. São os empresários, empregadores, funcionários públicos, profissionais liberais. Essas pessoas que têm essas atividades influenciam muito pouco os altos números de óbitos por covid.”

Falta de proteção chega às famílias

A vulnerabilidade dos trabalhadores que dependem do transporte coletivo atinge diretamente uma parte da população que muitas vezes têm conseguido ficar em casa, mas está sendo exposta ao vírus mesmo assim. São as companheiras e companheiros, filhos e parentes desses profissionais que andam de ônibus, metrô e trem cotidianamente. A pesquisa da Unifesp notou um índice alto de contaminação em regiões onde há muitas donas de casa e que fazem pequenos deslocamentos a pé.

“Nesses distritos mais periféricos que têm um alto número de óbitos, você também tem um alto número de donas de casa e de estudantes, crianças e adolescentes. Muitas dessas donas de casa podem estar circulando nos seus bairros e se expondo. Podem estar convivendo com pessoas que dependem do transporte coletivo.”, afirma Kazuo Nakano.

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Essas percepções da pesquisa, segundo o professor, são fundamentais. “Não basta só se isolar em casa e praticar o distanciamento social. Isso é super importante. Mas a gente tem que lembrar que essas pessoas não moram sozinhas e os cotidianos dos que moram nessas casas são diferentes.”

“Enquanto uns ficam em casa, outros têm que trabalhar e usar o transporte coletivo. Crianças e adolescentes tem atividades de lazer na rua. Isso tem que ser levado em conta porque está influenciando o contágio e os óbitos.”

Nessa realidade, Kazuo defende uma articulação contra o coronavírus que leve em consideração as particularidades da população mais exposta. “É uma múltipla vulnerabilidade. A gente tem que começar a pensar em uma proteção sistêmica dessa população contra a covid-19. É aí que muitos municípios estão errando.

“O enfrentamento não aborda a vulnerabilidade da moradia, dos autônomos que precisam fazer bicos, das crianças e dos adolescentes. É preciso trabalhar sistematicamente e essa abordagem não está acontecendo nas periferias.”

A conclusão de que o poder público precisa atuar com mais firmeza é inevitável, segundo o professor. “Nesses meses de pandemia, a gente já viu quem é que está pagando o preço mais alto. O custo social dessa pandemia está recaindo sobre essa população trabalhadora, periférica e de baixa renda.”

“É dever do poder público priorizar a proteção dessas populações, porque a classe média alta está conseguindo se proteger, se manter no isolamento, tem renda, está conseguindo viver às custas dos entregadores.”, finaliza.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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4 comentários

  1. O isolamento social sempre foi uma politica ruim de controle da pandemia.

    Deveria ter sido substituido pelo isolamento INDIVIDUAL desde o início.

    A pessoa sai de casa de mascara e luva; o horário do comercio e da industria e serviços ser escalonano para evitar a superlotação do transporte público. Colocar mais onibus nas ruas e não menos.

    Supermercados, hipermercados e bancos com restrição de pessoas nas agencias e horário extendido.

    Escolas fechadas.

    A epidemia é como um bagre ensaboado. Ele escapa das mãos e não tem como segurar. Países pequenos ainda conseguem mas não países de dimensões continentais como o Brasil, EUA.

    Quem viveu a doce ilusão de ter conseguido conter a epidemia está sendo castigado pela 2ª onda e a perspectiva de controlar com mais isolamento social simplesmente se tornou inexequível dada a fragilidade da economia.

    • Baseado em quais dados pode-se afirmar que o isolamento social (IS) “sempre” foi uma política ruim de controle de pandemia?

      Quando afirmas que o IS funcionaria em países pequenos, como Nova Zelândia, e não funcionaria no Brasil e EUA, chegastes a considerar a diferença de atitude do governo dos 3 países?

      A qual outro evento epidêmico te referes?
      Afirmação sem evidências leva ao reino das falsas notícias.

      • Olhe ao redor. Todas as economias ocidentais destruidas ou severamente afetadas.

        Aumentou a concentração de renda.

        Milhões de pessoas perdendo seus empregos.

        Deficit público nas nuvens.

        E não resolveu. Como eu alertei desde o início. Dá para aplainar a curva mas tentativas de interromper a pandemia não dariam certo.

        Ao primeiro movimento de reabertura a epidemia voltaria como uma segunda onda, e com mais força.

        Isso porque com a capacidade economica das famílias exaurida não se consegue mais fazer o lockdown e a sensação de inutilidade de tanto sacrifício faz as pessoas ligarem o f*da-se.

        Olhe a seu redor.

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