Médico cubano diz que Mais Médicos deveria ter sido mais bem negociado

Jornal GGN – Para o médico cubano Juan Carlos Raxach, assessor de projetos da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), o programa Mais Médicos tem caráter precipitado. “Acho que a medida deveria ter sido dialogada primeiramente com os próprios médicos, e é preciso pensar, ainda, que tipo de médicos nós queremos aqui. A resposta do governo foi rápida para um problema tradicional”, relata.

Raxach aponta que o problema no Rio de Janeiro, onde fica a sede da associação, não é simplesmente a falta de médicos – a estrutura, em algumas partes da cidade, é sucateada. “Não sou contra a medida, mas creio que, do jeito que foi colocada, pode dar margem a maiores problemas”, diz. “Pode ser que a vinda de médicos resolva os problemas de algumas regiões, mas é preciso pensar se são os médicos brasileiros que não querem exercer sua profissão ou se é a falta de estrutura médica.”

Perguntado sobre as diferenças entre as estruturas brasileira e cubana, o médico disse que não seria justo fazer uma comparação, por serem estruturas e sistemas diferentes. “O que poderíamos avaliar com relação aos profissionais da área de saúde é que os de Cuba são formados para realizar medidas de prevenção da doença. O cubano é preparado com a visão preventiva, para evitar a doença, quando os profissionais brasileiros têm mais a cultura da remediação”, aponta.

Raxach destaca que “o bom profissional será sempre bom”, não importa o lugar de sua formação. “Os profissionais da área da saúde devem ter esse olhar. A grade curricular pode ter diferença, a infraestrutura pode ser diferente. Mas não tenho dúvidas de que um profissional daqui poderia trabalhar lá e vice-versa”, relata. Para o médico cubano, o programa brasileiro pode ser bom à medida que melhore as condições de trabalho para os profissionais. “Se temos dinheiro para tratar profissionais, por que não temos dinheiro para oferecer melhores condições?”, indaga. Raxach aponta que, em muitos lugares do Rio de Janeiro, a estrutura é muito precária. “A população carioca que precisa, não tem acesso à saúde”, revela.

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De acordo com o médico cubano, uma medida que precisa ser tomada é a revisão do funcionamento do sistema de saúde no Brasil. “Uma das coisas que como médico me deixou apaixonado pelo país foi o SUS [Sistema Único de Saúde]. É preciso fazer valer os princípios dele”, ressalta. “Por que não sentar e verificar as causas do não funcionamento do serviço de saúde? Porque nos hospitais faltam aparelhos respiradores? Pior, leitos?”, questiona. Outro problema apontado por Raxach é que o diagnóstico na rede de referência está completamente ruim. “Temos diagnósticos tardios; as pessoas têm que peregrinar para serem atendidas”, critica.

O cubano diz que os médicos brasileiros precisam entender que, independentemente do país de atuação, são profissionais de saúde. “Para se fazer entender que o serviço de saúde não está muito bem não é preciso atacar os profissionais”, reflete. Outra questão que deve ser analisada, segundo ele, é se a medida não poderia causar a fuga dos médicos de outros países por causa do salário maior. “É preciso pensar até que ponto a questão salarial mexe com o profissional nos outros países e com suas regiões de atuação”, diz.

Contratação de médicos cubanos

Com relação à desistência de contratação de médicos cubanos pelo governo anunciada em maio desse ano, Raxach afirmou que a questão da desistência foi lógica porque não seria feita entre pessoa física, mas sim, entre governos. “Os médicos cubanos não vêm porque querem, eles são selecionados pelo Estado”, explica. “É realizado um esquema de contratação com o próprio governo cubano; aí, entram questões de política e ideologia”. Ele conta, entretanto, que todos os profissionais cubanos concordam com essa regra para prestar serviço em outros países. “Seja na área que for, saúde, educação etc. Esses profissionais são importados através de contratos feitos diretamente com o governo cubano”, comenta.

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Após a criação do programa Mais Médicos pelo governo federal foram levantadas muitas questões a respeito do formato do programa. Aproveitando a recente onda de protestos, a categoria de profissionais de medicina chegou a ir às ruas contra a criação da medida. Na sexta-feira (19), o Conselho Federal de Medicina (CFM) iniciou uma ação civil pública contra a União, representada pelos ministérios da Saúde e da Educação, para suspender o Programa.

Leia abaixo artigo publicado pelo médico Juan Carlos Raxach, publicado no blog Viomundo:

Carta de um médico cubano: Simplesmente respeito, solidariedade e ética

“Meu nome é Juan Carlos Raxach, cubano, que desde 1998 escolhi o Brasil como meu país de residência, e sinto o maior orgulho de ter me formado, em 1986, como médico em Havana, Cuba.

É com tristeza e dor que vejo as notícias publicadas pela mídia e nas redes sociais, a falta de respeito e de solidariedade proveniente de alguns colegas brasileiros, profissionais ou não da área da saúde, que atacam e desvalorizam os médicos formados em Cuba como uma forma de justificar a sua indignação às medidas tomadas pelo governo brasileiro no intuito de melhorar a qualidade dos serviços do SUS.

A qualidade humana e a alta qualificação dos profissionais de saúde cubanos têm permitido que ainda hoje, quando o país continua a enfrentar graves problemas econômicos que se alastram desde os anos 90, após a queda do campo socialista da Europa do leste, os índices de saúde da população cubana seguem colocados como exemplo para o mundo.

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São índices de saúde alcançados através do trabalho interdisciplinar e intersetorial desses profissionais.

Por exemplo, em 2012 a mortalidade infantil em Cuba continuava sendo 4,6 por cada mil nascidos vivos, menor que o índice de Canadá e dos Estados Unidos.

A expectativa de vida é de 78 anos para os homens e 80 para as mulheres.

E já em 2011 existia um médico a cada 143 habitantes.

Em 2012, a dra. Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconheceu e elogiou o modelo sanitário de Cuba e destacou a qualidade do trabalho que realizam os profissionais de saúde e os cientistas cubanos, e felicitou às autoridades cubanas por colocar o ser humano no centro da sua atenção.

Não é desprestigiando nossos colegas de profissão, seja qual for o seu país onde tenha se formado, que vamos colocar em pauta e debater as verdadeiras causas da deterioração da qualidade dos serviços de saúde no Brasil.

Na hora de nos manifestar, o respeito, a solidariedade e a ética são necessários para estabelecer o diálogo e ir ao encontro da solução dos problemas.

Solidariamente,

Juan Carlos Raxach é assessor de projetos da Associação Brasileria Interdisciplicar de AIDS – ABIA

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