A alienação de FHC

A entrevista de Fernando Henrique Cardoso na “Folha” (clique aqui)mostra que o ex-presidente ainda não se antenou para os novos ventos políticos, no Brasil e no mundo.

Aliás, não se antenou em 1994. Com inúmeros novos valores fundamentais surgindo -a questão da gestão, as novas ferramentas de política social, as estratégias de colocação dos países na nova economia global, o novo modelo de Estado – sua visão de mundo continua se resumindo aos meios, jamais aos fins, com uma superficialidade acachapante. Como fez durante todo seu governo, limita-se a levantar bandeiras soltas (privatização, reforma do Estado) sem nenhum plano estratégico por trás.

Sua opção pela liberalização financeira, ao invés da liberalização comercial, foi o maior erro estratégico que o país cometeu na sua história moderna. Seu descuido em relação à absorção de tecnologia do estrangeiro, ao controle das formas modernas de produção (como fez a China, com seu programa de atração de empresas, não de capitais) jogou fora a grande oportunidade aberta pela implosão da cadeia produtiva das multinacionais. A oção pela liberalização financeira provocou apreciação do câmbio, desestruturação do aparelho produtivo, concentração de renda, aumento da carga tributária, desestímulo ao empreendedorismo, esmagamento da classe média e criação de uma dívida interna que levará anos e anos ainda para ser debelada. Abandonou planos de reforma administrativa, a chance de mudar a Previdência com a privatização. E vem falar que falta agenda ao governo Lula? Falta agenda ao país há doze anos.

Mas esqueça-se o passado, e vamos olhar para frente. Na mesma edição da “Folha” tem o artigo “O auge da globalização já passou?”, de Rawi ABdelal e Adam Segal, publicada no “Foreign Affairs” ( clique aqui). Os autores deixam claro que, com a decepção trazida pela liberalização financeira dos mercados, os novos valores que começam a se impor são o do controle gradativo dos fluxos de capitais e a atenção à inclusão social.

Em sua longa entrevista, FHC continua agarrado aos meios (privatização e redução do tamanho do Estado) esquecendo-se dos fins. Não toca em nenhum momento na questão da liberalização financeira, como se fosse um dado imutável da realidade, aceito universalmente sem nenhuma espécie de questionamento, não consegue enxergar a gestão como elemento fundamental de reforma de Estado, passa ao largo da inclusão social, como elemento estruturante de qualquer política econômica legítima.

Aliás, é chocante a diferença de dimensão entre sua visão estereotipada de reforma do Estado, e o que foi exposto na “Folha” de sexta por Antonio Anastasia, Secretário do Planejamento de Minas.

Em outras entrevistas, sustentou que o PSDB precisa reconquistar a Academia. De que maneira? Qual a idéia legitimadora? Qual a estratégia mobilizadora: a defesa do seu governo? Com exceção de Boris Fausto e meia dúzia de professores tucanos, que intelectual endossaria uma proposta tão vazia assim? Em seu governo, a idéia do crescimento com inclusão social passou encilhada, e ele não montou, deixou de bandeja para Lula. Agora, pretende reconquistar corações e mente em cima de valores que ele próprio desmoralizou com sua falta de visão estratégica?

Diz que o PSDB deve se apresentar como o partido dos contribuintes e dos empreendedores. Mostra não ter assimilado ainda o aparecimento da nova massa de cidadãos, ou pelo menos abdicado de disputá-los com Lula. Mas quem matou a classe média, por excesso de impostos, e o empreendedorismo, por falta de câmbio, excesso de juros e nenhuma vontade de melhorar o ambiente econômico, deixando tudo por conta da liberalização financeira e da privatização?

Repito o que já escrevi algumas vezes. O PSDB precisa se refundar. Mas o passo inicial é exorcizar o ectoplasma de FHC. É a âncora que o mantém amarrado a um passado estéril, anacrônico, falsamente moderno, e que o afastou da classe média, que era sua base, e não lhe abriu espaço junto ao novo eleitor que surgiu.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora