A “consciência negra”

No show que farei no MIS, no próximo final de semana, haverá uma música em homenagem ao negão Almeida, amigo de 30 anos.

Ontem nos reunimos aqui em casa para ensaiar e discorrer sobre o “dia da consciência negra”, mais um desses absurdos das febres por feriados e por ícones importados que sempre assolaram o país.

O próprio negão, militante das causas negras desde os anos 60, se dizia indignado com os abusos dos feriados, e com essa ofensiva racial do movimento negro e da Fundação Ford.

Nos anos 60, criado por uma família de iugoslavos, Almeida freqüentava o Esperia, clube de classe média de São Paulo. Negros eram proibidos de entrar na piscina. Um dia Almeida resolveu enfrentar a discriminação. Pulou na piscina, e ninguém ousou tirá-lo. Em parte por seus braços, que parecem troncos de jacarandá. Em parte, porque a discriminação incomodava a maioria dos sócios.

Depois, juntou-se a outros colegas de classe média, do Aristocrata Clube, para que fizessem rateio para permitir financiar estudos de filhos de negros. A iniciativa não avançou devido à indisciplina dos seus membros, e porque o Brasil ainda não cultivava a cultura da solidariedade.

Os versos iniciais do samba em homenagem ao Almeida são: “Quem é esse negro malandro / que vem balançando pra lá e pra cá”. Almeida exigiu que no lugar de “negão” entrasse afrobrasileirão (para rimar). Como houvesse problemas com a métrica, me ameaçou com um navio branqueiro, de volta ao Líbano, se não o atendesse.

A propósito, ele me chama de “Turco”, o que deveria provocar manifestos de desagravo do Movimento Pela Pureza Racial do Líbano. Nem o fato de vender publicidade para uma revista da colônia o inibiu de prosseguir me chamando de “Turco”.

Almeida manifestou receio fundado de que, além de acusá-lo de alma branca, o movimento negro passasse a taxá-lo de consciência branca.

Depois ensaiamos uma “Congada”, que compus aos vinte e poucos anos, em homenagem aos meus amigos conguinhos do São Benedito, com quem jogava bola no largo da Igreja, em frente de casa. Mas bateu a dúvida se não teria se tornado politicamente incorreta, ao invocar a Princesa Isabel e o dia 13 de Maio.

Na rodada em casa, havia negros, brancos, pardos e uma Ruiva – raça que está em extinção, o que motivou da única representante reivindicar para os seus “o dia da consciência ruiva”, com o devido apoio do IBAMA.

Na roda, havia quantos de cada raça? Nem reparamos. Havia negros, pardos, ruiva, minhas libanesinhas (que herdaram da mãe só o pé gordinho), baianos. Em casa e nos botecos que freqüentamos, não há espaço para nenhum tipo de diferença racial.

Como dizia o grande Candeias, ícone da causa negra dos anos 70, “eu não sou americano / eu não sou africano / (acrescento eu: eu não libanês, nem judeu, nem italiano, nem francês, nem alemão, nem holandês) / eu sou brasileiro”.

E viva a inclusão social de todas as cores.

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